"Cemitério das Polacas", hoje tombado como patrimônio histórico, preserva a memória de judeus marginalizados; local é aberto para visitas guiadas

O Cemitério Israelita de Cubatão, que fica no interior do Cemitério Municipal de Cubatão, na Baixada Santista, é um patrimônio histórico de grande importância para a comunidade judaica no Brasil. Fundado em 1929 pela Associação Beneficente e Religiosa Israelita de Santos, o local abriga os corpos de judeus que fugiram das guerras na Europa com destino ao Brasil. O espaço, que abriga em torno de 60 túmulos, é também conhecido como "Cemitério das Polacas", em referência às mulheres judias do Leste Europeu que, na época, eram marginalizadas pela sociedade.
A história desse cemitério é marcada por episódios de dor e exclusão social. As "polacas", termo pejorativo usado para designar as judias trazidas por traficantes de mulheres, no final do século XIX e início do século XX, enfrentaram a marginalização tanto dentro quanto fora da comunidade judaica. Para essas mulheres, o cemitério representava um espaço de descanso final, no qual poderiam ser sepultadas sem o estigma social que carregavam em vida.
Em 1996, o cemitério, que se encontrava em condições precárias, foi restaurado pela Associação Cemitério Israelita de São Paulo – Chevra Kadisha. Desde então, a entidade zela pela sua preservação; em 2010, foi tombado como patrimônio histórico de Cubatão. A restauração das sepulturas e a manutenção contínua do espaço são exemplos do esforço para preservar a memória dessas pessoas.
Além das "polacas", o cemitério abriga também os túmulos de 15 homens judeus, cujas histórias estão envoltas em mistério e lendas. O último sepultamento no cemitério ocorreu em 1966, e desde então, o espaço permanece como um testemunho silencioso da dor e da exclusão enfrentadas por essa parcela da comunidade judaica.
A professora e pesquisadora Evania Martins Alves, de Cubatão, destaca que a exclusão sofrida por esses judeus não se tratava de uma questão racial, mas social. Eles foram renegados pela própria comunidade por causa de suas condições de vida, mas, no Cemitério Israelita de Cubatão, eles encontraram um lugar de descanso e perpetuação de suas histórias.
O jornalista Alberto Dines, em seus estudos, ressaltou que as "curves" (prostitutas, em iídiche) eram vistas como impuras, e por isso, foram marginalizadas. No entanto, elas mantiveram sua identidade judaica até o fim, congregando-se em sociedades de assistência mútua e criando seus próprios espaços sagrados, como o cemitério de Cubatão, onde sua memória e identidade permanecem vivas.
Atualmente, o Cemitério Israelita de Cubatão é ponto turístico da cidade; as visitas devem ser previamente agendadas e autorizadas pela Chevra Kadisha, que também organiza visitas guiadas ao local. Este cuidado é parte de um esforço para garantir que as histórias de vida e morte dos ali sepultados não sejam esquecidas e que a memória dessas pessoas continue a ser honrada.
Além de Cubatão, a organização religiosa e comunitária administra outros três cemitérios israelitas no estado de São Paulo (Butantã, Embu e Vila Mariana), e cumpre os rituais judaicos de sepultamento. Agendamento de visitas e outras informações podem ser realizadas por meio do telefone: (11) 3329 7070 e pelo site da Chevra Kadisha.