SUSTENTABILIDADE

Projeto Toninhas do Brasil apresenta resultados em Bertioga

Reunião da Apa Marinha Litoral Centro, no parque dos Tupiniquins, contou com a presença de representantes de diversos órgãos e entidades ambientais

Rodrigo Florentino
Publicado em 27/06/2024, às 16h40 - Atualizado às 17h09

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Os dados foram exibidos durante a 25ª Reunião Extraordinária do Conselho Gestor - Toninhas do Brasil
Os dados foram exibidos durante a 25ª Reunião Extraordinária do Conselho Gestor - Toninhas do Brasil

Reduzir a mortalidade de toninhas e buscar estratégias para diminuir a pesca acidental da espécie, em conjunto com pescadores é o foco do Toninhas do Brasil que apresentou, na quarta-feira (26), em Bertioga, os resultados de um projeto-piloto de preservação da espécie, realizado entre 2022 e 2024, na área litorânea dos estados de São Paulo, Santa Catarina e Paraná. No litoral de SP, contou com registros em Mongaguá, na Baixada Santista, e em cidades do litoral norte como Ubatuba, Caraguatatuba e São Sebastião.

Os dados foram exibidos durante a 25ª Reunião Extraordinária do Conselho Gestor da APA Marinha Litoral Centro, no parque dos Tupiniquins, ao lado do Forte São João. O evento reuniu representantes da Fundação Florestal, do Parque Estadual da Serra do Mar, Cetesb, ICMBio, das secretarias de Meio Ambiente de Bertioga, Guarujá e do estado de São Paulo, entre outros.

O projeto-piloto consistiu na instalação de alarmes chamados popularmente de pingers, em redes artesanais de pescadores participantes. Foram monitorados 223 lançamentos de redes, dos quais 158 sem pinger , e 65, com pinger, em mais de 4.700 horas de dados coletados. Não foram registradas capturas de toninhas em redes com o dispositivo. Houve redução de 95% da presença de toninhas em redes com pingers, em relação às redes sem o dispositivo. Nas quais não tinha o aparelho, foram capturadas acidentalmente três toninhas: duas em Santa Catarina e uma em São Paulo.

Cerca de 80% dos pescadores participantes acreditam que o pinger tem potencial para agregar valor à pesca. A pesquisa apontou que não houve diminuição na captura de raias, tubarões e elasmobrânquios. O aparelho também não atraiu leões-marinhos, problema apresentado em Santa Catarina, onde o animal coleta o peixe das redes de pesca, prejudicando o pescador.

Como parte do projeto, perguntou-se, para cada elo da chamada cadeia produtiva (pescadores, peixarias, intermediários, restaurantes e consumidores), se ele pagaria a mais pelo peixe, se soubesse que é um produto sustentável relacionado a não captura acidental de toninhas. A maioria disse que pagaria até de 15% a 27% a mais por um pescado sustentável.

Pingers

Os pingers são pequenos dispositivos que emitem sons  em uma frequência que apenas as toninhas conseguem perceber. Projetados para ficarem presos à rede, são ativados assim que colocados debaixo da água. Quando a toninha escuta o som emitido, espera-se que ela entenda que há algo anormal e desvie da rede.

Os pescadores colocam as redes com e sem o pinger , em uma distância de uma milha náutica (1.852 metros) cada. No momento da pesca, um pesquisador ou assistente de pesquisa embarca junto com os pescadores, para colher informações como temperatura e salinidade, e se a captura de peixe foi feita normalmente.

pingers
O pinger não é fabricado no país, somente importado - Toninhas do Brasil

A frequência de som emitida pelo aparelho está acima dos 40khz, com modelos até acima de 50khz. Como comparação, o ser humano escuta até 20khz. Com alcance de até 100 metros, é necessário colocar vários deles em uma rede de pesca. A recomendação é de que seja colocado um dispositivo a cada 200 metros.

Em uma das pontas da rede, é colocado um gravador acústico, para que seja registrado o som emitido pelos golfinhos, para a ecolocalização, ou seja, a capacidade biológica de detecção de sua posição por meio de onda sonora; ao ser emitida, ela rebate em um objeto e reproduz um eco, o que fornece informações sobre o objeto em questão, como distância e tamanho.

No momento, não existe fabricação nacional do equipamento, apenas importação. De acordo com Renan Paitach, coordenador de pesquisa do Toninhas do Brasil, o custo por unidade está entre R$ 350 a R$ 400 reais mais  taxas e impostos.

Captura incidental 

De acordo com Renan, a principal causa de mortalidade das toninhas é a captura incidental, problema que existe no Brasil desde a década de 1980. "O pescador joga a rede sem a intenção de capturar a toninha, mas ela acaba se enroscando por acidente na estrutura. Como ela é um mamífero, precisa subir à superfície para respirar e acaba não conseguindo. Com isso acaba falecendo”, conta ele.

Ainda de acordo com o especialista, não se sabe o motivo pelo qual as toninhas se prendem nas redes. “A gente não entende muito bem ainda porque as toninhas acabam se enroscando nas redes. Será que elas não enxergam as redes, elas não percebem as redes ou elas enxergam, mas elas não associam com um risco?”, questiona. 

Planos para o futuro

Para os próximos anos, o projeto pretende continuar a busca por soluções junto às comunidades pesqueiras interessadas em participar do projeto. “É necessário ressaltar a importância da gestão com informação. Quanto maior a qualidade dos dados que a gente tem, mais assertiva é a estratégia”, diz o coordenador.

Renan também disse que a captura acidental é um problema complexo, e que é importante a análise das informações. “O pinger não é uma solução mágica. É fundamental o refinamento dos dados. Nossa perspectiva é entender, pensando que um dia seja implementado de vez, e pensar como isso se faz", declara.

Sobre o Toninhas do Brasil

toninhas do brasil
O projeto trabalha com pesquisas científicas, educação ambiental, comunicação estratégica e articulação institucional - Divulgação/Toninhas do Brasil

O projeto Toninhas do Brasil existe há mais de 20 anos, realizado pela Universidade da Região de Joinville (Univille), em parceria com a Petrobras. A partir do ano 2000, a professora Marta Cremer ingressou na instituição de ensino e, desde então, a pesquisa sobre os cetáceos da baía da Babitonga (Santa Catarina), se consolidou como um projeto institucional.

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Ele atua na conservação da toninha (Pontoporia blainvillei), um pequeno golfinho, o mais ameaçado de extinção do Atlântico Sul ocidental. Reunindo uma equipe multidisciplinar de profissionais comprometidos com a conservação da biodiversidade e dos ecossistemas marinhos, o projeto é referência no Brasil e no mundo, no que diz respeito à pesquisa e conservação de pequenos cetáceos. Trabalha a partir de quatro linhas de atuação: pesquisa científica, educação ambiental, comunicação estratégia e articulação institucional.

Sobre a Toninha

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Principal causa de mortalidade, a captura acidental de toninhas acontece desde a década de 1980 no Brasil - Toninhas do Brasil

A toninha é uma espécie de pequeno golfinho costeiro, que atinge até 1,60m de comprimento, quando adulta, com peso médio de 35kg. As principais características morfológicas da espécie são o rostro (“bico”) longo e fino, com mais de 200 dentes, nadadeira dorsal pequena e quase triangular e sua coloração, que pode variar entre tons de marrom, cinza e amarelo.

No Brasil, a espécie está classificada como criticamente em extinção, na lista de espécies ameaçadas do Ministério do Meio Ambiente. “É importante a gente falar sobre a conservação da toninha, pois ela é uma espécie extremamente vulnerável por ter hábito de viver mais próximo da costa, região a qual temos a maior quantidade de ameaças e impactos, como a poluição”, conta Renan.

Rodrigo Florentino

Rodrigo Florentino

Formação e faculdade: Comunicação Social (Jornalismo) - Universidade Santa Cecília (Unisanta)

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