Operação com combustível renovável foi executada em embarcação da CMA CGM, e marca avanço na descarbonização do transporte marítimo
Redação
Publicado em 23/10/2026, às 11h22

O porto de Santos, no litoral de São Paulo, iniciou as operações regulares de abastecimento de navios com etanol.
A primeira operação desta nova fase foi executada em 19 de outubro, com o fornecimento do combustível ao CMA CGM IRON, navio porta-contêineres com capacidade para 13 mil TEU.
A embarcação é equipada com o primeiro motor tricombustível do mundo, certificado para operar com etanol.
A iniciativa reúne a empresa de transporte marítimo e logística CMA CGM, a Copersucar, líder global no setor de açúcar e etanol, a Bunker One, especializada na comercialização de combustíveis marítimos, e a Autoridade Portuária de Santos (APS).
O início do fornecimento regular representa um avanço em relação à experiência pioneira feita em julho e busca consolidar o porto de Santos como um centro estratégico para o abastecimento de combustíveis de baixo carbono.
Novas operações com navios da CMA CGM e etanol fornecido pela Copersucar estão previstas até o final de 2026.
O CMA CGM IRON utiliza o motor Everllence-B&W G95ME-C10.5-LGIM, desenvolvido para funcionar com diferentes combustíveis.
A tecnologia permite o uso de etanol como alternativa energética no transporte marítimo, setor que busca soluções para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.
Giovani Grassi, CEO da CMA CGM do Brasil, explica: “Após a primeira operação realizada em julho, estamos agora avançando para uma nova fase, demonstrando que o etanol pode ser incorporado às operações marítimas de forma segura, confiável e em escala comercial”, disse Grassi.
Segundo o executivo, a iniciativa reforça o compromisso da companhia com a adoção de soluções de menor intensidade de carbono e com o desenvolvimento de novas alternativas energéticas para a navegação.
A expansão do uso do etanol no transporte marítimo também representa uma oportunidade para o setor sucroenergético brasileiro. A demanda mundial por combustíveis marítimos supera 270 bilhões de litros por ano.
Considerando a equivalência energética entre os combustíveis, a substituição de 10% desse consumo poderia representar um mercado potencial adicional de aproximadamente 50 bilhões de litros de etanol anualmente.
O combustível fornecido pela Copersucar tem origem em uma cadeia produtiva consolidada e certificada.
De acordo com a empresa, a expansão da cultura da cana-de-açúcar ocorre predominantemente em áreas de pastagens degradadas.
A produção também está sujeita aos critérios de sustentabilidade do programa RenovaBio, que estabelece requisitos relacionados à redução das emissões e ao desmatamento.
Para Tomás Manzano, presidente da Copersucar, a operação abre uma nova possibilidade de comercialização internacional do produto brasileiro.
Este é um marco para o etanol e para a navegação: inaugura o primeiro corredor verde de abastecimento marítimo com etanol do mundo e abre um novo mercado de destino global para o combustível”, destaca Manzano.
Segundo o presidente da Copersucar, a iniciativa conecta a capacidade de produção e logística do Brasil à demanda internacional por alternativas para reduzir as emissões no transporte marítimo.
O abastecimento depende da integração entre diferentes empresas responsáveis pela produção, pelo transporte, pelo armazenamento e pelo fornecimento do combustível às embarcações.
O etanol produzido pelas usinas associadas à Copersucar é fornecido e transportado até o porto de Santos pela Evolua Etanol, empresa do Ecossistema Copersucar.
No complexo portuário, o produto é armazenado pela AGEO Terminais antes de seguir para a etapa de abastecimento dos navios.
A operação é executada no terminal da Santos Brasil.
Para viabilizar o procedimento, a Bunker One desenvolveu um protocolo específico de abastecimento, após meses de estudos e treinamento das equipes. O planejamento levou em consideração características de segurança do etanol, como seu baixo ponto de fulgor, que exige cuidados específicos no manuseio.
Antônio Carlos Sepúlveda, diretor-presidente da Santos Brasil, afirma que receber a operação no Tecon Santos está alinhado aos esforços da companhia para reduzir os impactos ambientais da atividade logística.
“Temos atuado fortemente para reduzir a pegada de carbono das nossas operações e dos nossos clientes. Contribuir com a transição energética da navegação também faz parte dessa agenda”, afirma Sepúlveda.
Já Flavio Ribeiro, CEO da Bunker One LatAm, destaca que o projeto combina a capacidade brasileira de produção de biocombustíveis com a experiência internacional da empresa no fornecimento de combustíveis marítimos.
Para o executivo, a iniciativa fortalece a posição do Porto de Santos diante de armadores interessados em reduzir suas emissões e amplia as possibilidades de utilização do etanol na navegação internacional.
A Autoridade Portuária de Santos também considera a operação um marco para o desenvolvimento de alternativas sustentáveis no comércio marítimo internacional.
O presidente da APS, Anderson Pomini, afirma que a participação do porto e das empresas envolvidas coloca o complexo santista em posição de destaque no desenvolvimento desse mercado.
Segundo Pomini, a iniciativa representa um passo importante para ampliar o uso de combustíveis renováveis em um setor fundamental para as transações comerciais globais.
A perspectiva de expansão do mercado está relacionada ao aumento do número de embarcações equipadas com motores adaptados a combustíveis alternativos.
De acordo com a organização de classificação marítima Det Norske Veritas (DNV), 159 embarcações já operam com motores preparados para metanol, tecnologia que pode permitir o uso de etanol.
Além disso, mais de 450 novos navios equipados com esse tipo de sistema têm previsão de entrega até 2030.
O crescimento dessa frota pode ampliar as oportunidades para o combustível brasileiro no mercado internacional e favorecer a adoção de alternativas energéticas de menor intensidade de carbono no transporte marítimo.
Com o início das operações regulares, o porto de Santos passa a integrar uma iniciativa que busca aproximar a produção nacional de biocombustíveis das necessidades de descarbonização da navegação mundial.