Hórus Alves de Jesus passou quase dois anos em prisão preventiva; júri não reconheceu a autoria do crime no litoral de São Paulo
Lenildo Silva
Publicado em 06/09/2026, às 15h04
O peso de 21 meses em prisão preventiva chegou ao fim para o bombeiro militar Hórus Alves Monteiro de Jesus. Acusado do feminicídio da própria mãe, Geralda Correia de Jesus, de 76 anos, ele deixou o cárcere após o Tribunal do Júri de Santos, no litoral de São Paulo, proferir a sentença absolutória. A decisão, assinada pela juíza Thais Caroline Brecht Esteves Gouveia, em 13 de agosto, marcou o encerramento de um dramático capítulo na vida do militar e determinou a expedição imediata de seu alvará de soltura.
O caso remonta a novembro de 2024, quando a idosa sofreu uma queda do terceiro andar de um prédio no conjunto habitacional BNH, no bairro Ponta da Praia. Com a morte de Geralda dois dias depois, a ocorrência, inicialmente tratada como tentativa de feminicídio, evoluiu para uma denúncia formal contra o filho.
O desfecho no plenário, no entanto, tomou rumo oposto ao da denúncia. Embora o júri tenha confirmado a materialidade do crime, a maioria absoluta dos votos rejeitou a autoria atribuída a Hórus. A defesa, conduzida pelos advogados Antônia Ferreira de Carvalho Balduíno e Airton Antonio Bicudo, garantiu a vitória ainda no primeiro quesito, o que encerrou a votação de imediato.
Em entrevista ao portal Costa Norte, Hórus comentou como recebeu a decisão:
Recebi com uma mistura muito grande de alívio, emoção e sensação de justiça. Eu estava preso preventivamente desde novembro de 2024 e esperei cerca de 21 meses pelo momento em que finalmente poderia ser ouvido e julgado pelo Tribunal do Júri".
Ele acrescentou que a absolvição teve um significado profundo após o período de reclusão. "Quando veio a absolvição, não foi simplesmente a notícia de que eu sairia da prisão. Foi o reconhecimento, pelos jurados que analisaram o caso, de que eu deveria ser absolvido. Depois de tudo o que vivi, ouvir aquela decisão teve um peso que é difícil colocar em palavras".
Ao falar sobre o momento em que soube da liberdade após descisão do júri, Hórus relatou que pensou na família. "Foram quase dois anos privado da liberdade. Existe uma diferença enorme entre imaginar o dia em que você vai sair e perceber que aquele dia realmente chegou".
Segundo o bombeiro, a saída do presídio representa a possibilidade de retomar o cotidiano. "Eu pensei na minha família, nas pessoas que permaneceram ao meu lado e em tudo o que eu tinha perdido durante aquele período. Também pensei que finalmente poderia começar a reconstruir a minha vida".
Sobre os meses em prisão preventiva, Hórus classificou a fase como a mais difícil que já enfrentou. "A prisão muda completamente a percepção de tempo, de liberdade, de dignidade e até das pequenas coisas do cotidiano. Você perde a autonomia sobre praticamente tudo e precisa aprender a sobreviver emocionalmente dentro daquela realidade".
Para enfrentar o ambiente, ele buscou refúgio na escrita e na música. "Eu procurei ocupar a minha mente, ajudar outras pessoas quando podia e encontrar maneiras de não me perder naquele ambiente. Escrevi muito durante a prisão. A escrita e a música foram formas que encontrei para elaborar o que estava vivendo".
O bombeiro destacou que os efeitos da acusação não terminaram com a liberdade, citando as consequências da repercussão do processo.
Além da perda da liberdade por aproximadamente 21 meses, houve uma exposição pública muito grande. Isso interfere na vida profissional, nas relações pessoais e na maneira como pessoas que nunca conversaram comigo passam a me enxergar. É muito difícil dimensionar o alcance disso", disse.
Ele decidiu procurar os veículos que noticiaram a acusação inicial para apresentar também o desfecho do processo. "Agora existe um fato novo e fundamental: eu fui levado ao Tribunal do Júri e fui absolvido. Por isso, tenho procurado os mesmos veículos que divulgaram a acusação para que o resultado do julgamento também seja conhecido. Não quero apagar a história. Quero que ela seja contada até o fim".
Hórus pretende retomar a vida profissional, os projetos interrompidos e a estabilidade pessoal. "Depois de tanto tempo vivendo em função de um processo e dentro de uma prisão, quero recuperar coisas muito simples: trabalhar, ter estabilidade, cuidar da minha vida pessoal, retomar meus projetos e voltar a fazer planos".
A escrita continuará presente em sua rotina como forma de transformar a experiência vivida. "Eu não tenho como recuperar os aproximadamente 21 meses que passaram. O que posso fazer agora é decidir o que vou construir com o tempo que tenho pela frente".
O portal Costa Norte noticiou o caso em 11 de novembro de 2024, quando Geralda Correia de Jesus morreu aos 76 anos. Ela estava internada na Santa Casa de Santos com múltiplos traumatismos após uma queda do terceiro andar de um prédio no BNH da Aparecida.
Na época, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) informou que o filho havia sido preso e encaminhado ao Presídio Militar Romão Gomes, na capital paulista. A ocorrência foi registrada inicialmente como tentativa de feminicídio. Com a morte da idosa, Hórus foi denunciado pelo crime. A decisão de agosto de 2026, no entanto, absolveu o réu porque os jurados não reconheceram a autoria atribuída a ele.