Estudo revela 'silêncio dos neurônios' antes de crises epilépticas e aponta estímulo elétrico para evitar convulsões

Pesquisa identificou uma pausa na atividade neuronal entre 40 e 160 milissegundos antes das crises e testou intervenção capaz de reduzir sua duração

Rhauanny Queiroz
Publicado em 21/09/2026, às 17h30

Estudo investigou o comportamento dos neurônios antes e durante crises epilépticas - Magnific


Um estudo internacional identificou uma pausa prolongada na atividade dos neurônios momentos antes do início de uma crise epiléptica. A descoberta pode ajudar pesquisadores a desenvolver estratégias capazes de prever uma convulsão e intervir antes que ela ocorra.

O trabalho, divulgado na revista Scientific Reports, aponta que esse chamado 'silêncio dos neurônios' pode funcionar como um biomarcador para antecipar crises epilépticas. A partir dessa identificação, os cientistas propõem o uso de estímulos elétricos para tentar interromper o processo antes do início da convulsão.

A pesquisa envolveu cientistas da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal do ABC (UFABC) e Universidade Estadual de Nova York, nos Estados Unidos. O trabalho recebeu apoio da Fapesp, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos.



O que ocorre antes da crise

Segundo os pesquisadores, o cérebro apresenta uma espécie de calmaria na atividade neuronal imediatamente antes de uma crise epiléptica. Esse comportamento já havia sido observado em estudos anteriores, mas a nova pesquisa permitiu confirmar o fenômeno tanto em pacientes quanto em modelos computacionais.

Fernando da Silva Borges, pesquisador colaborador da UFABC e coautor do estudo, explica que a equipe analisou a relação entre a atividade dos neurônios e a dinâmica dos canais de potássio.

Essas estruturas ficam na membrana das células e funcionam como 'freios' para a excitabilidade elétrica dos neurônios. A pesquisa permitiu aos cientistas descrever como a atividade elétrica se comporta antes e durante as crises e compreender como ocorre a sincronização neuronal exacerbada.

De acordo com Borges, a análise possibilitou identificar o padrão neural e propor o silêncio neuronal como um possível biomarcador para prever convulsões.

O estudo aponta que esse silêncio ocorre entre 40 e 160 milissegundos antes de uma crise epiléptica. Embora seja um intervalo muito curto, os pesquisadores avaliam que ele pode ser suficiente para que um dispositivo identifique o padrão e realize uma intervenção automatizada.

Estímulo elétrico antes da convulsão

Nas simulações computacionais realizadas pelos pesquisadores, a utilização do silêncio neuronal como sinal para uma intervenção anticonvulsiva apresentou resultados expressivos.

De acordo com o estudo, o estímulo elétrico reduziu em até 93% a duração das crises nas simulações. A estratégia envolve identificar o período de silêncio e aplicar uma pequena corrente elétrica antes que a crise se estabeleça.

A proposta é que o equipamento consiga 'acordar' os neurônios nesse momento. Com isso, o estímulo evitaria que o fluxo de potássio nas células atingisse níveis considerados críticos pelos pesquisadores, impedindo a formação da chamada tempestade elétrica.

Segundo o trabalho, a intervenção seria altamente focada e afetaria apenas 1% dos neurônios responsáveis por excitar a atividade cerebral, quantidade que teria se mostrado suficiente para reduzir de forma significativa a duração das convulsões nos testes apresentados.

Possível alternativa para epilepsia refratária

A descoberta pode ter importância especialmente para pacientes que não respondem adequadamente aos medicamentos. Segundo os dados apresentados no estudo, existem mais de 30 medicamentos aprovados para o tratamento da epilepsia, mas entre 30% e 40% dos pacientes não respondem à terapia farmacológica, quadro caracterizado como epilepsia refratária.

Nessas situações, uma das alternativas utilizadas é a estimulação cerebral. A técnica utiliza eletrodos implantados na cabeça ou em vias nervosas para modular os impulsos elétricos dos neurônios.

Entre os dispositivos já existentes estão o estimulador do nervo vago e sistemas de feedback capazes de acompanhar a atividade cerebral em tempo real. Segundo os pesquisadores, esses equipamentos atualmente conseguem detectar sinais da crise quando ela já começou.

A proposta apresentada pelo estudo é utilizar esses dispositivos para reconhecer o novo biomarcador antes do início da convulsão e, em seguida, realizar o estímulo elétrico.

Próximos passos

A estratégia ainda está apresentada pelos pesquisadores como uma possibilidade para futuras terapias de neuromodulação personalizadas. Os resultados de redução de até 93% na duração das crises foram obtidos em simulações computacionais, conforme o material divulgado sobre o estudo.

Para Borges, a possibilidade de identificar o processo que antecede a crise abre caminho para uma intervenção preventiva e automatizada. A proposta é que o dispositivo acompanhe continuamente a atividade cerebral, reconheça o período de silêncio neuronal e envie o estímulo elétrico antes que a crise epiléptica ocorra.

*Com informações - Agência Fapesp

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