Pesquisadores calculam potencial de dispersão do vírus em fragmento florestal e alertam para necessidade de antecipação da vacina
Redação
Publicado em 26/06/2026, às 12h50
Uma análise conduzida por cientistas brasileiros e do Reino Unido reconstituiu a dinâmica do surto de febre amarela silvestre que atingiu a Região Metropolitana de São Paulo há cerca de nove anos.
O episódio marcou o extermínio de macacos bugios no Horto Florestal e provocou mais de 90 mortes humanas. Os resultados saíram em março de 2026 na revista Nature Microbiology e servem de alerta epidemiológico para o estado.
O primeiro indício do surto ocorreu em 9 de outubro de 2017, com a localização da carcaça de um macaco na zona norte da capital. Em apenas seis semanas, o vírus disseminou-se e causou a morte de aproximadamente 80 bugios que habitavam o parque.
O professor visitante da Universidade de São Paulo (USP), docente do Imperial College London e coordenador da investigação, Nuno Faria, comentou o ineditismo do comportamento do patógeno:
Foi a primeira vez que vimos a febre amarela avançar de forma tão explosiva em um ambiente florestal encravado dentro da cidade”.
O estudo mensurou pela primeira vez o número básico de reprodução da febre amarela silvestre, estimado em 8,2. O índice epidemiológico aponta que um único bugio infectado transmitiu o vírus para outros oito animais, em média, por meio de picadas de mosquitos.
O patologista Adriano Pinter, professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP e ex-integrante da Superintendência de Controle de Endemias (Sucen), comparou o potencial com outras enfermidades:
A título de comparação, o R0 da covid‑19 variava entre 3 e 4 mesmo nos piores momentos da pandemia”.
A velocidade da contaminação surpreendeu a comunidade científica. No município vizinho de Mairiporã, as autoridades notificaram 142 casos e mais de 40 óbitos, mesmo com a campanha de imunização em curso.
O pesquisador Adriano Pinter explicou a necessidade de readequar os calendários de imunização coletiva:
A primeira lição que fica com esse episódio é que a vacinação de febre amarela precisa ser antecipada. Não podemos mais esperar encontrar macacos mortos para começar a imunizar as pessoas. A janela entre o primeiro alerta e o pico de transmissão é de duas a três semanas. E a vacina leva de 10 a 12 dias para começar a proteger a população. Ou seja, quando o primeiro bugio aparece morto, já estamos atrasados”.
A explosão de transmissões teve como vetor principal o mosquito Haemagogus leucocelaenus. O inseto atua na copa das árvores, mas desceu ao solo para picar humanos e primatas devido à alta densidade de hospedeiros e às temperaturas elevadas.
A pesquisadora do Instituto Pasteur, Juliana Telles, detalhou os fatores ambientais:
Foi uma combinação de forças: a alta densidade de hospedeiros, a grande abundância de mosquitos, a presença desses vetores tanto no solo quanto na copa e a temperatura elevada. Tudo isso criou o cenário perfeito para uma propagação explosiva”.
Embora o mosquito urbano Aedes aegypti habite a borda da mata, os exames confirmaram o vírus apenas nos vetores silvestres, o que descartou a reurbanização naquele episódio. Os cientistas empregaram métodos combinados para obter as conclusões da pesquisa. Segue a lista das frentes de análise utilizadas:
A metodologia identificou ainda uma coinfecção por hepatite A em um dos bugios, indício de contaminação por resíduos humanos nas margens da floresta. O projeto contou com suporte do Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (Cadde) e financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Com informações - Agência Fapesp