Lista de ingredientes, presença de aditivos e grau de processamento são alguns dos fatores que ajudam a diferenciar os dois grupos
Redação
Publicado em 20/09/2026, às 10h03
Nem todo alimento industrializado é ultraprocessado. A diferença está no grau e, principalmente, na finalidade do processamento utilizado para transformar os alimentos.
Entender essa classificação pode ajudar o consumidor a identificar os produtos ultraprocessados e fazer escolhas alimentares mais conscientes.
A nutricionista Nadine Marques, doutora em Saúde Pública e pesquisadora da Cátedra Josué de Castro da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), explica que a industrialização pode ocorrer em diferentes níveis.
De acordo com a pesquisadora, os alimentos in natura não passam por processamento industrial. Já os demais são classificados em grupos que incluem alimentos minimamente processados, ingredientes culinários, alimentos processados e ultraprocessados.
Um exemplo de processamento mínimo é o arroz. O grão passa por etapas como limpeza, secagem e retirada da casca antes de chegar ao consumidor.
Outro caso é o queijo. Para produzi-lo, a indústria acrescenta ao leite ingredientes como fermento lácteo, enzimas coagulantes e sal. O processo modifica características como textura, aparência e sabor, além de aumentar a durabilidade do alimento.
Segundo Nadine, essas transformações também fazem parte da industrialização dos alimentos e podem contribuir para torná-los mais seguros, acessíveis e diversificados.
A principal diferença em relação aos ultraprocessados está na facilidade de identificar o alimento que deu origem ao produto. Nos alimentos minimamente processados e processados, as alterações são menores e os ingredientes originais continuam reconhecíveis.
Nos ultraprocessados, porém, o processo é mais complexo. Em vez do uso direto dos alimentos, são utilizadas partes deles, como farinhas de cereais, óleos vegetais e proteínas isoladas de grãos. Esses ingredientes podem ser combinados com diversos aditivos responsáveis por características como cor, sabor, textura e aparência.
Para a pesquisadora, esse nível de processamento descaracteriza os alimentos de origem e resulta em produtos que não costumam ser produzidos em cozinhas domésticas. A maior durabilidade também é uma das características desses produtos.
A classificação dos ultraprocessados não cria uma categoria de produtos considerados “do bem”. Isso ocorre porque a avaliação leva em conta não apenas a composição nutricional, mas também a extensão e a finalidade do processamento.
Segundo Nadine, um produto se enquadra na lógica dos ultraprocessados quando passa por processos de fragmentação para produzir ingredientes utilizados em formulações industriais e recebe diferentes substâncias para melhorar seu desempenho durante a fabricação.
A utilização de aditivos também é considerada nessa classificação. Eles podem ser empregados para melhorar características sensoriais, como sabor, textura e aparência, além de aumentar a durabilidade do produto.
A ideia de “ultraprocessado do bem”, explica a pesquisadora, está relacionada principalmente à análise dos nutrientes presentes no produto. Para ela, porém, é necessário ampliar essa avaliação e considerar outros aspectos relacionados ao processamento.
Entre eles estão a presença de diferentes aditivos e o armazenamento prolongado em embalagens plásticas.
Nadine relaciona o consumo crescente de ultraprocessados a problemas de saúde como obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes e alguns tipos de câncer. Ela também cita possíveis relações com questões de saúde mental, como depressão e ansiedade, com base nos estudos mais recentes.
Uma das principais formas de identificar um alimento ultraprocessado é observar a lista de ingredientes, e não apenas as informações destacadas na parte frontal da embalagem.
Segundo Nadine, a presença da lupa na frente do rótulo pode indicar algumas características do produto, mas a lista de ingredientes oferece informações mais detalhadas.
Uma lista muito extensa é um dos sinais de atenção. Outro é quando os primeiros ingredientes são partes de alimentos ou ingredientes culinários, como amido, óleo e açúcar, seguidos por diversas substâncias com nomes pouco conhecidos.
A pesquisadora cita como exemplos os aditivos com funções de aromatizante, realçador de sabor, corante, espessante e emulsificante.
Diante dessas características, a orientação apresentada por Nadine é seguir a regra de ouro do Guia Alimentar: evitar o consumo do produto quando ele apresentar características de um alimento ultraprocessado.
Com informações da Agência SP