Estudo da Unifesp revela que doses pesadas de álcool travam maturação cerebral em jovens e aumentam a vulnerabilidade a novos vícios
Redação
Publicado em 24/09/2026, às 12h00
O consumo excessivo de bebidas alcoólicas durante a juventude altera o desenvolvimento biológico do cérebro e eleva a propensão a comportamentos imprudentes e dependência química na maturidade. A constatação integra uma pesquisa conduzida na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), divulgada em São Paulo, com alertas preventivos para famílias.
Conforme os dados do estudo, que contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), testes laboratoriais em camundongos simularam o consumo excessivo episódico, conhecido como binge drinking. O experimento revelou que a ingestão concentrada de álcool afeta diretamente a região responsável pela tomada de decisões e pela moderação dos impulsos vitais.
No Brasil, a legislação veta expressamente a venda de bebidas para menores de 18 anos, mas dados do 3º Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas indicam que 5% dos jovens entre 12 e 17 anos relataram episódios de embriaguez em 30 dias. Na faixa de jovens adultos, entre 18 e 24 anos, a taxa sobe para 20,5%.
A professora adjunta do Departamento de Fisiologia da EPM-Unifesp, Karina Possa Abrahão, detalha que o órgão leva anos para concluir sua estrutura biológica.
“Embora a maior parte do nosso desenvolvimento como seres humanos ocorra dentro do útero, quando nascemos ainda não estamos completamente formados. E o cérebro é um dos últimos órgãos a finalizar essa formação”, pontua a pesquisadora.
Karina ainda ressalta que o córtex pré-frontal só atinge a maturação completa por volta dos 25 anos.
No protocolo científico, os animais receberam quatro aplicações de álcool durante a adolescência, reproduzindo o equivalente a duas bebedeiras agudas por mês em seres humanos. “Reduzimos o número de intoxicações considerando a duração da vida do animal. Em uma pessoa, seria o equivalente a, mais ou menos, umas duas intoxicações por mês durante toda a adolescência. É um consumo muito pesado”, adverte Abrahão.
Os efeitos comportamentais variaram segundo o momento da exposição e o gênero dos animais. A substância ministrada no início da juventude fez com que os machos adultos assumissem riscos maiores, enquanto as fêmeas adultas passaram a ingerir doses mais altas de álcool. Já quando a intoxicação se deu no encerramento da fase juvenil, animais de ambos os sexos apresentaram posturas imprudentes na fase adulta.
A cientista adverte que os reflexos negativos desse hábito podem congelar condutas perigosas para o resto da vida.
O álcool pode causar um prejuízo da maturação final do cérebro, tornando aquele indivíduo adolescente por muito mais tempo, talvez a vida toda. Ele sempre vai ficar se colocando em risco. O adolescente se colocar em risco é normal, mas o adulto continuar fazendo isso é problemático”, conclui a coordenadora da pesquisa.
*Com informações da Sophia La Banca, da Agência Fapesp