Fóssil encontrado em Presidente Prudente revela espécie inédita e ajuda cientistas a entenderem como as primeiras serpentes evoluíram
Redação
Publicado em 29/07/2026, às 13h03
A descoberta de uma nova espécie de cobra, que viveu há cerca de 80 milhões de anos no interior de São Paulo, tem ajudado cientistas a desvendar um dos maiores mistérios da evolução das serpentes.
Batizado de Tametara mirim, o animal foi identificado a partir de um fóssil encontrado na região de Presidente Prudente e apresenta características que indicam um modo de vida subterrâneo.
O estudo, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), foi publicado na revista científica Nature e reforça que as primeiras serpentes já apresentavam diferentes formas de viver durante o período Cretáceo.
O fóssil foi encontrado em 2020 por pesquisadores do Museu de Paleontologia de Marília, em uma pedreira localizada na região de Presidente Prudente, no oeste paulista. Segundo os pesquisadores, trata-se do primeiro fóssil de uma cobra articulada encontrado no Brasil, ou seja, com os ossos preservados na posição em que estavam quando o animal morreu.
Até então, os registros brasileiros de serpentes do período Cretáceo eram representados apenas por vértebras isoladas. A rocha onde o exemplar foi encontrado pertence à Formação Adamantina, do Grupo Bauru, conhecida internacionalmente pela riqueza de fósseis de dinossauros e outros animais pré-históricos.
A Tametara mirim media cerca de 42 centímetros de comprimento e possuía características anatômicas compatíveis com animais adaptados à vida debaixo da terra. Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores utilizaram microtomografia computadorizada, tecnologia que permite reconstruir o interior do fóssil em três dimensões sem causar danos ao material.
As análises mostraram que os ossos do crânio eram densos e bastante sobrepostos, uma característica comum em espécies escavadoras. O ouvido interno também apresentou adaptações que indicam um estilo de vida subterrâneo, com estruturas capazes de favorecer a percepção de vibrações de baixa frequência propagadas pelo solo.
Outro detalhe que chamou a atenção foi a região relacionada à visão, menos desenvolvida do que a observada na maioria das cobras e lagartos escavadores conhecidos atualmente, indicando que esse sentido provavelmente tinha menor importância para a espécie.
Além de revelar uma espécie inédita, o estudo traz novas pistas sobre a evolução das cobras. Durante décadas, cientistas discutem se as primeiras serpentes surgiram em ambientes marinhos, terrestres ou subterrâneos.
Embora a descoberta da Tametara mirim não encerre esse debate, ela mostra que, há cerca de 80 milhões de anos, serpentes próximas entre si já ocupavam ambientes bastante diferentes.
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores compararam o fóssil brasileiro com o da espécie Dinilysia patagonica, encontrada na Argentina, e que viveu na mesma época. A análise revelou diferenças significativas na anatomia do crânio das duas serpentes, indicando adaptações para modos de vida distintos.
Segundo os autores, esse resultado demonstra que a diversidade ecológica das serpentes surgiu muito cedo na história evolutiva do grupo.
O nome da nova espécie também reflete uma de suas principais características. Tametara significa "adornada", em referência à crista pronunciada existente na parte superior do crânio. Já mirim, palavra de origem tupi, faz alusão ao pequeno porte do animal.
Apesar da importância da descoberta, algumas perguntas permanecem sem resposta. Os pesquisadores ainda não sabem, por exemplo, se a espécie possuía membros posteriores desenvolvidos, já que essa região do corpo não foi preservada no fóssil.
Segundo a equipe responsável pelo estudo, novas descobertas de fósseis com alto grau de preservação, especialmente de espécies ainda mais antigas, poderão ajudar a esclarecer como surgiram as primeiras serpentes e como ocorreu sua diversificação ao longo da evolução.
* Com informações - Agência Fapesp