Análise de DNA identifica espécies retiradas da costa brasileira e apreendidas em Guarulhos; pesquisa faz alerta sobre impactos ambientais em SP
Redação
Publicado em 03/08/2026, às 12h00
Uma pesquisa da Universidade Estadual Paulista (Unesp) revelou que pepinos-do-mar, retirados ilegalmente da costa brasileira, estão sendo traficados para o exterior e podem representar uma ameaça à biodiversidade marinha.
O estudo utilizou análises genéticas para identificar animais apreendidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no Aeroporto Internacional de Guarulhos, e confirmou que eles pertencem a espécies encontradas no litoral do Sudeste, incluindo o litoral norte de São Paulo.
A pesquisa foi desenvolvida por cientistas do Laboratório de Genômica e Conservação de Peixes (Lagenpe), da Unesp de Bauru, e publicada na revista científica Scientific Reports. Os pesquisadores analisaram exemplares secos de pepinos-do-mar apreendidos em 2023 e identificaram duas espécies: Holothuria grisea e Isostichopus badionotus.
Segundo os autores, em países como China, Japão e Malásia, os animais são valorizados na culinária e na medicina tradicionais e considerados iguarias. Por serem transportados desidratados, ocupam pouco espaço e podem ser levados em grande quantidade dentro de malas e dificultar a fiscalização. O comércio ilegal pode provocar redução das populações naturais e comprometer o equilíbrio dos ecossistemas costeiros.
Um dos pontos que chamaram a atenção dos pesquisadores foi a participação do litoral norte paulista na investigação. Para confirmar a origem dos animais, a equipe contou com a colaboração do professor Rogério Caetano da Costa, da Unesp, que há décadas desenvolve pesquisas com invertebrados marinhos em Ubatuba.
Com exemplares vivos coletados no município, os cientistas fizeram a comparação genética e comprovaram que os pepinos-do-mar apreendidos eram compatíveis com indivíduos encontrados na costa paulista. O resultado reforça que os animais estavam sendo retirados do litoral brasileiro antes de serem enviados ilegalmente ao exterior.
Os pesquisadores relatam ainda que já existe a percepção de redução da quantidade desses animais em costões rochosos de Ubatuba, embora esse cenário ainda dependa de estudos específicos para confirmação científica.
Há dez meses, a Polícia Ambiental prendeu e multou em R$6,7 mil um homem flagrado com cerca de 60 quilos de pepino-do-mar em Ubatuba. Ação ocorreu no bairro Silop, após denúncia anônima, e revelou um espaço clandestino com estufas, aquecedores e seladoras.
No local, os agentes apreenderam 3,5 mil exemplares da espécie Isostichopus badionotus, ameaçada de extinção, além de constatarem irregularidades no processamento dos animais.
De acordo com a corporação, o lote era de pescadores de Paraty (RJ) e seria vendido ilegalmente para outros estados. Diante das péssimas condições sanitárias, a Vigilância Sanitária interditou a estrutura e aplicou auto de infração.
Na ocasião, o infrator seguiu para a delegacia, e amostras dos animais foram enviadas à USP e à Polícia Federal para investigar conexões com o tráfico internacional via aeroporto de Guarulhos.
Apesar da aparência discreta, os pepinos-do-mar desempenham funções essenciais no ambiente marinho. Eles vivem no fundo do oceano, alimentam-se de matéria orgânica presente nos sedimentos, ajuda na reciclagem de nutrientes e na manutenção da qualidade do substrato.
Segundo os pesquisadores da Unesp, a retirada intensiva desses organismos pode provocar desequilíbrios ecológicos semelhantes aos observados em espécies exploradas comercialmente, como os tubarões, para obtenção de barbatanas.
Como os animais são apreendidos secos e sem características externas que permitam o reconhecimento visual, a equipe utilizou técnicas de sequenciamento genético para identificar as espécies.
Os pesquisadores compararam um marcador conhecido como "código de barras do DNA", com bancos internacionais de dados biológicos. O método permitiu confirmar a identidade dos animais e a provável origem, que forneceu ferramenta importante para o combate ao tráfico de fauna marinha.
Além de apoiar ações de fiscalização, os cientistas destacam que o trabalho contribui para ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade costeira brasileira e reforça a necessidade de monitoramento permanente das espécies exploradas ilegalmente.