Tráfico de pepinos-do-mar: pesquisa da Unesp acende alerta no litoral de SP

Análise de DNA identifica espécies retiradas da costa brasileira e apreendidas em Guarulhos; pesquisa faz alerta sobre impactos ambientais em SP

Redação
Publicado em 03/08/2026, às 12h00

Pesquisador Ricardo Utsunomia encontrou pepino-do-mar vivo na costa de Ubatuba - Ricardo Utsunomia/Jornal da Unesp


Uma pesquisa da Universidade Estadual Paulista (Unesp) revelou que pepinos-do-mar, retirados ilegalmente da costa brasileira, estão sendo traficados para o exterior e podem representar uma ameaça à biodiversidade marinha.

O estudo utilizou análises genéticas para identificar animais apreendidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no Aeroporto Internacional de Guarulhos, e confirmou que eles pertencem a espécies encontradas no litoral do Sudeste, incluindo o litoral norte de São Paulo.

A pesquisa foi desenvolvida por cientistas do Laboratório de Genômica e Conservação de Peixes (Lagenpe), da Unesp de Bauru, e publicada na revista científica Scientific Reports. Os pesquisadores analisaram exemplares secos de pepinos-do-mar apreendidos em 2023 e identificaram duas espécies: Holothuria grisea e Isostichopus badionotus.



Pesquisadores analisaram os indivíduos e concluíram que pertenciam às espécies Holothuria grisea e Isostichopus badionotus - Foto: Fabio Porto-Foresti/Jornal da Unesp

 

Segundo os autores, em países como China, Japão e Malásia, os animais são valorizados na culinária e na medicina tradicionais e considerados iguarias. Por serem transportados desidratados, ocupam pouco espaço e podem ser levados em grande quantidade dentro de malas e dificultar a fiscalização. O comércio ilegal pode provocar redução das populações naturais e comprometer o equilíbrio dos ecossistemas costeiros.

Ligação direta com o litoral paulista

Um dos pontos que chamaram a atenção dos pesquisadores foi a participação do litoral norte paulista na investigação. Para confirmar a origem dos animais, a equipe contou com a colaboração do professor Rogério Caetano da Costa, da Unesp, que há décadas desenvolve pesquisas com invertebrados marinhos em Ubatuba.



Com exemplares vivos coletados no município, os cientistas fizeram a comparação genética e comprovaram que os pepinos-do-mar apreendidos eram compatíveis com indivíduos encontrados na costa paulista. O resultado reforça que os animais estavam sendo retirados do litoral brasileiro antes de serem enviados ilegalmente ao exterior.

Os pesquisadores relatam ainda que já existe a percepção de redução da quantidade desses animais em costões rochosos de Ubatuba, embora esse cenário ainda dependa de estudos específicos para confirmação científica.

Apreenção em Ubatuba

Há dez meses, a Polícia Ambiental prendeu e multou em R$6,7 mil um homem flagrado com cerca de 60 quilos de pepino-do-mar em Ubatuba. Ação ocorreu no bairro Silop, após denúncia anônima, e revelou um espaço clandestino com estufas, aquecedores e seladoras.

No local, os agentes apreenderam 3,5 mil exemplares da espécie Isostichopus badionotus, ameaçada de extinção, além de constatarem irregularidades no processamento dos animais.

De acordo com a corporação, o lote era de pescadores de Paraty (RJ) e seria vendido ilegalmente para outros estados. Diante das péssimas condições sanitárias, a Vigilância Sanitária interditou a estrutura e aplicou auto de infração.

Na ocasião, o infrator seguiu para a delegacia, e amostras dos animais foram enviadas à USP e à Polícia Federal para investigar conexões com o tráfico internacional via aeroporto de Guarulhos.

Espécie exerce papel importante no ecossistema

Apesar da aparência discreta, os pepinos-do-mar desempenham funções essenciais no ambiente marinho. Eles vivem no fundo do oceano, alimentam-se de matéria orgânica presente nos sedimentos, ajuda na reciclagem de nutrientes e na manutenção da qualidade do substrato.



Segundo os pesquisadores da Unesp, a retirada intensiva desses organismos pode provocar desequilíbrios ecológicos semelhantes aos observados em espécies exploradas comercialmente, como os tubarões, para obtenção de barbatanas.

Identificação pelo DNA

Como os animais são apreendidos secos e sem características externas que permitam o reconhecimento visual, a equipe utilizou técnicas de sequenciamento genético para identificar as espécies.

Os pesquisadores compararam um marcador conhecido como "código de barras do DNA", com bancos internacionais de dados biológicos. O método permitiu confirmar a identidade dos animais e a provável origem, que forneceu ferramenta importante para o combate ao tráfico de fauna marinha.



Além de apoiar ações de fiscalização, os cientistas destacam que o trabalho contribui para ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade costeira brasileira e reforça a necessidade de monitoramento permanente das espécies exploradas ilegalmente.

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