Animal pouco conhecido no Brasil e no resto do ocidente, espécie criticamente ameaçada de extinção tem alta procura na Ásia

Espécie criticamente ameaçada de extinção, o pepino-do-mar voltou aos noticiários, após a apreensão de aproximadamente 60kg do animal, em Ubatuba, no litoral de São Paulo, no dia 16 de outubro. Mas, afinal, o que leva pessoas a praticar a caça predatória desse animal?
A resposta pode estar na demanda para uso na medicina e na gastronomia asiáticas, segundo Guilherme Sabino Rupp, pesquisador do Centro de Desenvolvimento de Aquicultura e Pesca (Cedap) da Empresa de Pesquisa Agropecuária e de Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri).

Guilherme explica que, embora pouco conhecidos no mundo ocidental, os pepinos-do-mar têm alto valor comercial no mercado asiático, especialmente na China, onde milhões de pessoas possuem poder aquisitivo para consumir esses produtos.
O pesquisador afirma ainda que o pepino-do-mar é utilizado como antirreumático, anti-inflamatório, cicatrizante e, supostamente, como afrodisíaco. Também já foram identificadas moléculas com potente ação antiviral, anticoagulante, anti-hipertensiva e até antitumoral.
Com isso, além de serem usados em suplementos alimentares, também são muito valorizados na gastronomia por serem considerados alimentos nutracêuticos, ricos em proteínas, ácidos graxos poli-insaturados, colágeno e vitaminas”, explica o pesquisador.
O valor comercial varia conforme a espécie e o tamanho, podendo chegar, nos mercados de Hong Kong, a até US$ 1.800 por quilo do produto desidratado. Em média, os preços variam entre US$ 300 e US$ 500 por quilo nos mercados asiáticos.

O nome popular “pepino-do-mar” refere-se a todas as espécies da classe Holothuroidea, do filo Echinodermata, e é uma tradução do termo em inglês sea cucumber.
Segundo o professor Cláudio Gonçalves Tiago, do Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (USP), existem mais de mil espécies no mundo, sendo mais de 30 encontradas no litoral brasileiro — pelo menos 14 delas no litoral paulista.
Os pepinos-do-mar possuem corpo cilíndrico e flexível, formado por fibras elásticas, colágeno e minúsculas espículas calcárias. Eles apresentam uma cavidade interna repleta de líquido que funciona como “esqueleto” hidrostático, onde ficam os órgãos internos. Por isso, podem contrair e expandir o corpo, variando de tamanho.
De modo geral, os adultos de Isostichopus badionotus atingem cerca de 30cm, enquanto Holothuria grisea pode chegar a 20cm de comprimento.
Em 2019, pesquisadores do Cedap/Epagri iniciaram estudos para avaliar a possibilidade de reprodução do pepino-do-mar em cativeiro.
Segundo o pesquisador Guilherme Sabino Rupp, foram identificadas espécies com potencial para o cultivo, incluindo uma que nunca havia sido registrada em Santa Catarina. A etapa seguinte envolveu experimentos de reprodução em laboratório, com dois resultados inéditos e positivos no Brasil.

"Nesse período, obtivemos resultados inéditos, com a produção experimental de juvenis de duas espécies nas quais focamos os trabalhos: Holothuria grisea e Parathyone braziliensis. Desenvolvemos protocolos para indução à desova, larvicultura, metamorfose e transferência dos juvenis para o cultivo em berçário no mar”, explicou Guilherme.
O pesquisador destacou que o avanço foi essencial para comprovar a viabilidade do projeto. “Este foi um importante avanço científico e tecnológico, pois ficou demonstrada a viabilidade de produção de juvenis em laboratório para ambas as espécies, bem como o rápido crescimento durante a fase de berçário. Isso representava, até então, o maior desafio para o desenvolvimento da aquicultura de pepinos-do-mar no Brasil”, afirmou.
Guilherme Sabino Rupp acrescentou que a continuidade das pesquisas, em parceria entre instituições e o setor produtivo, será determinante para o progresso do projeto.
“A continuidade será fundamental para ampliar a escala de produção de juvenis em laboratório e desenvolver tecnologia adequada à fase de engorda, tomando como exemplo o sucesso já alcançado em alguns países asiáticos”, concluiu o pesquisador.