Lixo no mar acende alerta: plástico representa 91% dos resíduos nas praias do litoral brasileiro

Plano paulista de combate à poluição marinha prevê 45 metas e aponta riscos à saúde, à pesca, ao turismo e à navegação

Redação
Publicado em 20/05/2026, às 11h06

Plásticos de uso único estão entre os principais resíduos encontrados em praias e no fundo do mar - Divulgação/Instituto Argonauta


Um problema que começa em terra, muitas vezes no descarte incorreto do dia a dia, chega ao mar em forma de garrafas, embalagens, sacolas e outros resíduos que ameaçam praias, animais, pescadores e turistas.

Em dados reunidos pela Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), do estado de São Paulo, para o primeiro Plano Estadual de Combate ao Lixo no Mar, cuja consulta pública recebeu contribuições entre 13 de abril e 15 de maio, o diagnóstico é direto: resíduos sólidos apareceram em 100% das praias amostradas no litoral brasileiro; 91% deles eram plásticos.

A dimensão do problema chama ainda mais atenção quando se olha para o tipo de material encontrado. Isso porque, de acordo com a Semil, do total de plásticos identificados, 60% foram classificados como itens de uso único, ou seja, produtos utilizados por poucos minutos, mas capazes de permanecer no ambiente por mais de 400 anos.



O impacto não se limita à paisagem. A poluição por lixo no mar afeta ecossistemas, gera prejuízos à economia costeira e pode trazer implicações à saúde pública. Os dados da secretaria revelam que setores como turismo, pesca e navegação estão entre os mais expostos a esse tipo de degradação ambiental.

O órgão estima que cada tonelada de lixo no oceano reduz em cerca de R$165 mil o valor dos serviços ecossistêmicos marinhos, enquanto a poluição por plásticos pode gerar custos globais de até R$12,5 bilhões por ano.

Plástico também domina o fundo do mar

Se nas praias o problema aparece aos olhos dos banhistas, no fundo do mar ele se acumula longe da superfície. Dados do Programa Mar Sem Lixo, da Fundação Florestal, mostram média de cerca de 599 itens por km² nas Áreas de Proteção Ambiental (APAs) Marinhas, do estado de São Paulo, com peso equivalente a 15,89kg/km².



Segundo a Semil,o levantamento foi feito a partir de resíduos coletados no fundo do mar, em parceria com pescadores de arrasto de camarão. Entre os materiais recolhidos, 93,8% eram plásticos, o que reforça a predominância do material também no litoral paulista.

Ainda de acordo com a secretaria, a ocorrência de lixo no mar é reflexo de falhas na gestão de resíduos sólidos e dos atuais padrões de produção e consumo, especialmente quando se trata de materiais descartáveis.

Em áreas litorâneas, a elevada população flutuante também contribui para o aumento da geração de lixo, que pode ser transportado por rios, canais, galerias pluviais e pela própria dinâmica costeira até chegar ao oceano.



Uma vez no ambiente marinho, esses resíduos se fragmentam, se espalham e podem alcançar os seres humanos, com implicações para a saúde. O alerta vale principalmente para os plásticos, que se quebram em partículas menores e permanecem por longos períodos no ambiente.

O que diz o governo

O subsecretário de Recursos Hídricos e Saneamento Básico (SRHSB) da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), Cristiano Kenji, afirma que o enfrentamento ao lixo no mar exige ações coordenadas.

Os dados mostram que a maior parte do lixo no mar tem origem em atividades realizadas em terra, o que exige uma resposta coordenada e baseada em evidências. Por isso, o governo de São Paulo estruturou este plano a partir de estudos técnicos e de um amplo diálogo com diferentes setores. A consulta pública é uma etapa essencial desse processo, pois permite aprimorar as propostas e garantir que as ações sejam mais eficazes e aderentes às realidades locais”, afirmou.

Plano prevê 45 metas

A Semil explica que o Plano Estadual de Combate ao Lixo no Mar estabelece 45 metas para os próximos dez anos. Elas estão organizadas em oito eixos temáticos: normatização e regulamentação; prevenção e circularidade; remoção e recuperação; educação ambiental e comunicação; ciência, tecnologia e inovação; capacitação; monitoramento e avaliação; e fomento e financiamento.



O documento foi elaborado pela SRHSB, em conjunto com demais subsecretarias e órgãos vinculados. A proposta reúne dados científicos, análises territoriais e informações sobre fontes, fluxos e impactos dos resíduos no estado de São Paulo.

Além disso, o plano consolida iniciativas já em andamento por instituições como Fundação Florestal, Cetesb e SP Águas. O estado também atua no tema por meio de cooperações técnico-científicas com universidades paulistas, com foco em políticas públicas baseadas em evidências.

O caminho começou antes da elaboração do novo plano. Em 2021, o Plano Estratégico de Monitoramento e Avaliação do Lixo no Mar (Pemalm) definiu diretrizes para gerar e organizar informações sobre o problema no território paulista. A lógica, segundo a Semil, foi primeiro conhecer a dimensão do lixo no mar para depois combatê-lo de forma mais efetiva.



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