Problema começa em estados do centro-oeste, de onde os caminhões partem, gerando transtornos aos motoristas das rodovias até a chegada em São Sebastião
Reginaldo Pupo
Publicado em 27/09/2025, às 15h00
Moradores de cidades do litoral norte de São Paulo e turistas que visitam a região vêm convivendo, constantemente, com o mau cheiro exalado pelos caminhões boiadeiros que chegam à região, para descarregar milhares de bois vivos no porto de São Sebastião.
As carretas de transporte de bois saem de diferentes estados do Brasil, especialmente do interior paulista e centro-oeste, para os animais serem exportados para países como o Egito e Iraque, onde são abatidos para consumo.
Durante o transporte dos animais, os caminhões boiadeiros fechados e com pouca entrada de ar, deixam um rastro de sujeira nas estradas por onde passam, além de forte cheiro de fezes e urina, causando transtornos aos motoristas que trafegam por essas estradas, atrás das carretas.
Além das estradas, pessoas próximas a pontos de paradas como restaurantes e postos de gasolina também sofrem com o mau cheiro exalado pelos caminhões, que precisam parar para abastecimento e alimentação dos motoristas.
Para chegar ao porto sebastianense, os caminhões trafegam por diversas rodovias paulistas, como Washington Luiz, Anhanguera, Bandeirantes, D. Pedro I, Dutra, Carvalho Pinto e a Tamoios, principal acesso turístico ao litoral norte.
Na última semana, o navio Al-Kuwait, uma das maiores, mais modernas e equipadas embarcações de transporte de gado do mundo, atracou no porto de São Sebastião para embarcar milhares de bois com destino ao Iraque.
A reportagem não conseguiu obter informações sobre a quantidade exata de animais embarcados, mas a capacidade do navio é para 19 mil bois. Em junho, ele fez o transporte de 17 mil cabeças de gado, provenientes do Rio Grande do Sul, também para o Iraque.
Conhecido como “navio da morte”, o Al-Kuwait ficou quase uma semana fundeado no canal de São Sebastião, ao norte de Ilhabela, aguardando a chegada das carretas. Ele saiu do porto no último dia 20 de setembro, à 1h47, e a previsão de chegada ao Iraque é no próximo dia 12 de outubro, por volta das 8h. Às 22h desta última quinta-feira (25), ele navegava pelo Atlântico, já próximo à África do Sul.
Diversas entidades protetoras dos animais e ambientalistas já tentaram barrar o embarque de gados no porto de São Sebastião, mas, apesar de inúmeros protestos, as tentativas foram em vão. Elas alegam que o transporte rodoviário e, principalmente, o marítimo, coloca os animais em condições adversas, colocando em risco seu bem-estar.
Os protestos não ocorrem apenas em São Sebastião; diversas cidades portuárias ao redor do mundo também condenam o transporte dos animais. Na Cidade do Cabo, capital da África do Sul, houve diversos protestos de moradores por causa do mau cheiro exalado pelo mesmo navio Al-Kuwait, que fez uma escala para abastecimento. Eles classificaram o episódio como “fedor inimaginável”.
Entidades protetoras dos animais da África, como o Conselho Nacional de Sociedades para a Prevenção da Crueldade contra Animais, afirmou que encontrou bois doentes e mortos na embarcação, classificando o cenário encontrado como “abominável”.
“Cada boi produz em média 30 quilos de esterco por dia, mas sem ter como descartá-los, os animais têm que conviver com fezes e amônia, uma substância tóxica presente na urina”, explica George Sturaro, gerente de investigações da Mercy For Animals. Segundo ele, as principais causas de morte ao longo das viagens são infecções respiratórias e estresse térmico.
Para Sturaro, as péssimas condições são inerentes a essa modalidade de exportação: “É um curral flutuante, não tem como assegurar o bem-estar animal”, avalia. Segundo registros fotográficos obtidos pela Mercy for Animals, os animais estavam amontoados em meio a fezes e urina.
Em junho de 2018, alguns bois se atiraram ao mar enquanto subiam uma rampa de acesso ao navio que iria transportá-los até a Turquia, no porto de São Sebastião, em viagem que iria durar 30 dias. Quase cinco horas depois, um dos animais foi resgatado por um veleiro nas proximidades da praia da Armação, em Ilhabela, a 10km de distância do porto.
Dias antes, outros dois bois também haviam pulado para o mar, em uma atitude desesperada para não embarcar no navio Aldelta, de bandeira panamenha. Após o caso, um grupo de ambientalistas e defensores de animais fez um protesto em frente à Companhia Docas de São Sebastião, estatal responsável pelo porto, contra o transporte de cargas vivas. “Basta de crueldade com os animais” e “Animais estão sofrendo” foram algumas das mensagens exibidas pelos manifestantes.
O animal resgatado pelo veleiro foi içado e levado até a praia das Cigarras, em São Sebastião. O boi resistiu por cinco horas às águas geladas do canal e às altas ondas provocadas por uma ressaca que atingia o litoral norte naquela manhã. De acordo com velejadores, ele aparentava estar estressado e debilitado. Ele foi transportado de volta ao porto, onde embarcou no navio.
Um projeto de lei de 2021, que tramita no Senado e prevê a proibição de exportação de animais vivos para abate no exterior, está parado desde 2022, aguardando inclusão na ordem do dia. De autoria da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa, caso aprovado, o projeto proíbe a exportação de gado vivo por meios marítimos em todo território nacional.
Especialistas que participaram de debate na Comissão de Meio Ambiente (CMA), nesta terça-feira (19), criticaram as condições de transporte de animais por via marítima e chamaram a atenção para a responsabilidade do Brasil — maior exportador de animais vivos — diante das consequências éticas, ambientais e econômicas da atividade.
No último dia 19 de agosto, especialistas que participaram de debate na CMA (Comissão de Meio Ambiente) criticaram as condições de transporte de animais por via marítima e chamaram a atenção para a responsabilidade do Brasil, maior exportador de animais vivos, diante das consequências éticas, ambientais e econômicas da atividade.
A realização do debate atende a requerimento do senador Fabiano Contarato (PT-ES), presidente da comissão. Em sua justificação, ele cobra uma discussão sobre os riscos para o bem-estar animal. “A própria sociedade está cobrando o parlamento, que o representa, para que legisle. Quando você vê que um animal é um ser que sente e sofre, isso tem que ser levado em consideração”, declarou.
Diretora técnica do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, Vânia Plaza Nunes exibiu, no debate, um vídeo das condições do transporte de bovinos em navios, destacando as condições sanitárias precárias que os animais enfrentam, e citou a recorrência de acidentes no transporte rodoviário de animais para os portos. Ela alertou para a falta de um protocolo sobre as condições de transporte, o que tornam comuns situações de sofrimento animal e a disseminação de zoonoses relacionadas ao confinamento.
“Há risco de intoxicação, há quantidade de fezes e urina aumentadas naquele local, uma diminuição do oxigênio disponível. Na baixa de oxigênio, que é vital para a respiração de qualquer ser vivo, há comprometimento de habilidades motoras e cognitivas, baixíssimo grau ou ausência de bem-estar animal com sofrimento físico, mental e comportamental”, destacou.
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