Toxina, da mesma família química de inseticidas, intensifica danos quando combinada com pesticidas; ela não é monitorada no Brasil
Redação
Publicado em 25/09/2025, às 12h30
Uma combinação de substâncias tóxicas foi analisada por pesquisadores do Cena/USP, em Piracicaba. A guanitoxina, tanto natural quanto sintética, representa sérios riscos à saúde em águas de rios, lagos e represas.
Em experimentos com tilápias-do-nilo, o composto aumentou a mortalidade dos peixes e causou lesões graves. Os danos atingiram brânquias, sistema nervoso e DNA das tilápias, uma das espécies mais consumidas no Brasil.
O estudo aponta que essas toxinas podem estar na água usada para abastecimento humano e também chegar aos peixes que consumimos. O risco é maior em áreas com cultivos agrícolas e piscicultura.
Por isso, os pesquisadores sugerem o monitoramento das guanitoxinas. A medida seria semelhante ao que já é feito para outras substâncias nocivas.
Produzido naturalmente por algumas cianobactérias (Sphaerospermopsis torques-reginae), o “composto é raro e pouco estudado, mas chama muito a atenção por ser um organofosforado natural, ou seja, pertence à mesma família química de inseticidas sintéticos como o malathion e o triclorfon”, explica a bióloga Larissa Souza Passos, responsável pela pesquisa. Essas cianobactérias são frequentemente confundidas com "algas verde-azuladas".
Organofosforados atuam bloqueando enzimas cruciais no sistema nervoso, como a acetilcolinesterase (AChE), o que pode levar à paralisia ou morte.
Quando a guanitoxina e os inseticidas estão juntos em um corpo d'água, seus efeitos podem se somar ou intensificar. Isso aumenta o risco para peixes, outros organismos aquáticos e, potencialmente, para humanos que consomem água ou peixes contaminados, detalhou a bióloga.
A tilápia-do-nilo, espécie resistente e de crescimento rápido, foi escolhida para o estudo. Criada em larga escala no Brasil, ela é considerada um excelente bioindicador. Isso significa que a saúde dessa espécie ajuda a entender o ecossistema aquático, refletindo a qualidade da água onde vive.
Em testes controlados de laboratório, os peixes foram expostos à guanitoxina sozinha, a inseticidas isoladamente e às substâncias combinadas. "Os peixes expostos à combinação tiveram maior taxa de mortalidade e sofreram danos mais graves. A combinação causou lesões severas nas brânquias, inibiu enzimas do sistema nervoso, danificou o DNA e causou desequilíbrios essenciais", detalha Larissa Souza Passos.
Embora os testes tenham sido em peixes, essas substâncias podem chegar às pessoas pela água e alimentos. "Isso pode acontecer especialmente em áreas agrícolas com uso de inseticidas e piscicultura", ressalta Larissa.
"A guanitoxina não é monitorada atualmente no Brasil", alerta a bióloga. Sem controle, o risco de consumo de água, ou tilápias contaminadas, é grande, afetando principalmente populações vulneráveis.
A pesquisa sugere que a guanitoxina seja monitorada regularmente pelas agências ambientais, assim como já ocorre com outras cianotoxinas.
Também é fundamental que políticas públicas incentivem práticas agrícolas mais sustentáveis, com menos pesticidas. O controle do despejo de esgoto e fertilizantes nos corpos d'água é crucial para frear o crescimento de cianobactérias.
O professor Ernani Pinto, orientador da pesquisa, resume que estudos anteriores mostram que a guanitoxina reduz em 50% a viabilidade de células hepáticas de peixe em 24 horas. Além disso, causa deformações cardíacas e atrasos no desenvolvimento de embriões.
"É nove vezes mais tóxica para microcrustáceos do que outros extratos analisados", afirma. "Está presente em florações de cianobactérias no Brasil, com potencial risco ao consumo de água e peixes."
O trabalho faz parte de uma pesquisa multidisciplinar de doutorado de Larissa Souza Passos. Ela é orientada pelo professor Ernani Pinto e colabora com pesquisadores da Esalq/USP e do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM).
A pesquisa já gerou publicações em importantes periódicos científicos. Parte dos estudos futuros será realizada na Suíça, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
* A matéria original foi escrita por Júlio Bernardes e publicada no Jornal da USP
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