Redução em redes como Casas Bahia e Americanas reflete endividamento, concorrência digital e reorganizações judiciais no setor, explicam especialistas
Lucas Santos
Publicado em 03/09/2026, às 22h00
O varejo físico brasileiro passa por uma das transformações mais severas da sua história recente. Desde o fim de 2022, cinco das maiores redes de comércio do país, Casas Bahia; Americanas; Carrefour; Marisa e Magazine Luiza, fecharam mais de 1,1 mil lojas físicas, segundo levantamento da Broadcast.
Os dados expõem o impacto da combinação entre juros elevados, dívidas altas e a rápida mudança no perfil do consumidor, que migrou em ritmo acelerado para o comércio eletrônico.
Especialistas jurídicos e de reestruturação empresarial apontam que a retração não é devida a um evento isolado, mas a novas realidades de mercado. As empresas que expandiram aceleradamente suas estruturas físicas, ao longo das décadas anteriores, agora enfrentam custos operacionais elevados. Esse cenário exige cortes rigorosos de despesas e adequação do tamanho das redes para garantir a sobrevivência.
O sócio do escritório Sousa & Rosa Advogados, Kevin de Sousa, especialista em contratos, analisa que a combinação entre endividamento e juros altos pesou sobre as contas das empresas:
Esse número de lojas fechadas não é uma coincidência, é uma consequência. Essas redes se endividaram nas últimas épocas, em que os juros estavam nas alturas, com a Selic a 14% ao ano. Uma dívida cara com uma margem apertada, acaba sendo uma combinação fatal. A primeira coisa que se corta é o metro quadrado de loja física, que envolve aluguel e funcionários, estoque parado”.
O especialista ressalta que o avanço do consumo digital, impulsionado durante a pandemia de covid-19, transformou o papel da loja física:
A Americanas foi o caso mais extremo, porque ela revelou um rombo de R$43 bilhões e automaticamente foi para recuperação judicial. A Casas Bahia, no meu ver, tem uma trajetória bastante parecida; mas o ponto que eu vejo como um problema estrutural, que não é só financeiro: essas empresas passaram a última década expandindo fisicamente, enquanto o consumidor já estava migrando para um mercado digital. Então, quando a pandemia acelerou isso em 18 meses, quem não tinha uma operação online sólida, levou um choque muito grande. Então, a loja física acaba virando um custo muito alto depois da pandemia, e não mais um ativo interessante. E aí, fechar o empreendimento acaba sendo inevitável”.
A ascensão de plataformas internacionais de comércio eletrônico, como Shein e Shopee, também alterou o ritmo das compras e o nível de exigência dos clientes no Brasil. Para o advogado Kevin de Sousa, essas empresas aceleraram a necessidade de mudança nas redes tradicionais:
Quanto ao impacto das lojas on-line, como Shein e Shopee, elas não causaram essas crises dos varejistas, elas aceleraram este colapso, uma vez que a Americanas quebrou por problemas de governança e até [há] uma discussão sobre fraude contábil. E essas plataformas fizeram algo que mudou a percepção e a prática de consumo, porque elas educaram o consumidor brasileiro a exigir mais. Mais qualidade, preço, mais prazo de entrega, melhor logística. Se a gente parar para pensar, foram estas empresas que trouxeram uma malha logística que independe dos Correios, no Brasil”.
Sousa complementa apontando a diferença na experiência do comprador moderno:
Então, imagina o seguinte: você vai em uma loja física, enfrenta uma fila, parcela em 12 vezes com juros embutidos, espera o produto chegar em casa depois de uma semana. E, do outro lado, você abre um aplicativo, compra na hora, lê avaliações dos outros compradores, paga e recebe em poucos dias. Então, as varejistas tradicionais demoraram muito tempo para entender que o e-commerce não era mais apenas um canal extra, de consolidação de cliente, ele [já] era o canal principal. E quem tratou como mercado secundário vem pagando caro por isso”.
Sobre o perfil atual do público, o profissional enfatiza que a fidelidade às marcas tradicionais deu lugar à busca por agilidade e custo-benefício:
Isso revela que o consumidor ficou muito mais esperto do que o varejista acreditava. A gente não compra mais só por preço, não financia só no carnê porque ele tem a parcela que cabe no bolso. Ele não aceita a loja que está mais próxima porque ele não tem um prazo de entrega interessante. Isso tudo muda com o advento do smartphone, a capacidade de pontos, e-commerce. E, hoje, qualquer pessoa compara o preço de três lojas em dois minutos. O dado mais revelador de tudo isso é que esse consumidor não tem mais uma lealdade automática à marca que existia no passado. A fidelidade do consumidor hoje precisa ser conquistada a cada compra”.
O especialista conclui que a retração marca uma transição estrutural no comércio:
O fechamento das lojas hoje, não é o fim do varejo físico, é o fim de um varejo que não se justifica mais, nos moldes que foram propostos inicialmente, como a gente sempre viu, ao longo de mais de quatro décadas”.
A busca por mecanismos de proteção contra a falência tornou-se um caminho recorrente para gigantes do setor que acumulam bilhões em dívidas. O advogado especializado em Contencioso Cível do escritório Barcellos Tucunduva, Armin Lohbauer, detalha os objetivos das empresas ao optar pelo recurso:
Existe uma estratégia de reestruturação por trás do pedido e, depois do deferimento do processamento, a própria lei exige a apresentação de um plano formal de recuperação. Esse plano tem que mostrar como a empresa pretende reorganizar suas dívidas e, principalmente, como pretende voltar a ser economicamente viável".
Lohbauer pondera que o processo garante tempo, mas exige eficiência operacional:
Isso pode envolver alongamento das dívidas, descontos negociados com credores, venda de ativos, entrada de dinheiro novo, fechamento de operações deficitárias e mudanças no próprio modelo de negócio. Eu costumo dizer que a recuperação judicial compra tempo, mas não compra solvência. Ela cria um ambiente protegido para que a empresa consiga negociar sem que cada credor tente, individualmente, retirar um pedaço do patrimônio. Mas, se a operação não gerar caixa e o negócio não voltar a funcionar economicamente, a proteção judicial, sozinha, não resolve o problema".
O advogado analisa os estágios distintos em que se encontram grandes marcas:
E aqui existe uma diferença entre os dois exemplos. A Americanas já percorreu praticamente todo esse caminho: teve um plano aprovado pelos credores e hoje discute, inclusive, o encerramento de sua recuperação judicial. A Casas Bahia está em uma etapa muito mais inicial. Apresentou recentemente seu pedido e obteve proteções judiciais emergenciais, mas ainda está construindo esse caminho dentro do processo".
Quanto ao futuro dessas marcas, Armin Lohbauer pondera que a recuperação bem-sucedida costuma resultar em redes menores e mais enxutas:
Sem dúvida há possibilidade de sobrevivência. Aliás, essa é justamente a razão de existir da recuperação judicial: tentar preservar empresas que têm atividade econômica viável, embora estejam atravessando uma crise financeira grave. Empresas como Casas Bahia e Americanas têm ativos muito relevantes que não aparecem apenas no balanço. Têm marca, conhecimento do consumidor, fornecedores, canais de distribuição, tecnologia, carteira de clientes e presença nacional. Tudo isso tem valor econômico".
O especialista reforça que a busca por sustentabilidade substitui a necessidade de gigantismo:
Mas sobreviver não significa, necessariamente, voltar a ser exatamente a empresa que existia antes da crise. Uma recuperação bem-sucedida muitas vezes produz uma empresa menor, mais enxuta e mais eficiente. Pode haver redução do número de lojas, venda de ativos, abandono de negócios menos rentáveis e uma mudança profunda na estratégia. Então eu separaria duas perguntas. Elas podem continuar existindo? Sim, perfeitamente. Vão necessariamente continuar com o mesmo gigantismo que tiveram no passado? Não necessariamente, e talvez nem seja desejável. Em uma recuperação judicial, mais importante do que tamanho é sustentabilidade. Uma empresa menor, mas lucrativa e capaz de gerar caixa, vale muito mais do que uma gigante permanentemente endividada".
Os reflexos da crise do varejo também atingem redes operadas por franquias, a exemplo do segmento de alimentação controlado por grupos como o Gennius, responsável pela marca Habib's.
O advogado Armin Lohbauer esclarece como a recuperação da franqueadora afeta as pontas do negócio:
O franqueado é, em princípio, um empresário independente. A recuperação judicial da franqueadora não significa que a unidade franqueada entrou em recuperação judicial e muito menos que tenha que fechar as portas".
O especialista alerta, porém, para os desdobramentos indiretos da crise sobre os franqueados:
O contrato de franquia também não desaparece simplesmente porque a franqueadora pediu recuperação judicial. O problema pode surgir nos efeitos indiretos da crise. E eles podem ser bastante concretos. Imagine uma rede na qual a franqueadora ou empresas do mesmo grupo forneçam produtos, insumos, tecnologia, treinamento, marketing ou serviços essenciais às unidades. Se essa estrutura começa a sofrer, o reflexo pode chegar rapidamente à ponta. Pode haver dificuldade no abastecimento, redução de campanhas de publicidade, problemas tecnológicos e, talvez o aspecto mais sensível, deterioração da própria percepção da marca pelo consumidor".
Ao avaliar o equilíbrio entre os aspectos legais e financeiros, Lohbauer conclui:
Por isso eu diria que existe uma espécie de paradoxo: o franqueado pode estar juridicamente fora da recuperação judicial, mas economicamente muito perto dela. No caso do Grupo Gennius, essa questão merece atenção justamente porque estamos falando de uma estrutura com lojas próprias e unidades franqueadas. A recuperação judicial não transfere automaticamente a dívida do grupo para o franqueado. Mas o sucesso da reestruturação interessa diretamente a ele, porque o valor de uma franquia depende, em grande medida, da saúde da rede, da força da marca e da capacidade da franqueadora de continuar entregando aquilo que prometeu contratualmente".