Venerado em 23 de abril, soldado morto pelo Império Romano atrai pela fusão entre a tradição católica, lendas medievais e religiões afro-brasileiras
Redação
Publicado em 23/04/2026, às 11h44
O dia 23 de abril marca a celebração de são Jorge, uma das figuras sacras de grande apelo popular. O santo transcende o catolicismo romano, atrai o respeito do islamismo e ganha contornos de força e resistência nas religiões de matriz africana no Brasil.
A tradição cristã aponta, como local de nascimento do santo, a região da Capadócia (atual Turquia) por volta do ano 280. De família cristã, ele se transferiu para a Palestina e atuou como soldado no exército do imperador romano Diocleciano.
No ano de 303, o imperador iniciou uma perseguição oficial aos cristãos. O soldado Jorge recusou as ordens, doou os seus bens aos pobres e professou a sua fé em Cristo de forma pública. A postura resultou em sessões de tortura e, no fim, na sua decapitação. Um dos registros históricos mais antigos sobre a sua existência é uma epígrafe grega do ano 368 descoberta em Eraclea de Betânia.
A narrativa do mártir cristão mudou de forma radical ao longo da história com a adição de contos fantásticos. A lenda principal relata o combate com um dragão. A história medieval cita que a cidade de Selém (Líbia) sofria com a ameaça de um grande pântano habitado por um dragão.
A população oferecia sacrifícios para tentar aplacar a criatura. No dia em que o sorteio apontou o sacrifício da filha do rei, Jorge cruzou o local e abateu o monstro com uma lança.
A representação do homem montado a cavalo, em luta com a fera, tornou-se o símbolo do bem contra o mal. As cruzadas medievais abraçaram a lenda, com a equiparação da morte do dragão à derrota do islamismo. No ano de 1348, o rei Eduardo III instituiu, na Inglaterra, a Ordem dos Cavaleiros de São Jorge.
No Brasil, a figura do soldado europeu fundiu-se com as crenças africanas durante o período da escravidão. A prática do sincretismo religioso permitiu que se mantivesse a devoção aos seus deuses sob o disfarce de imagens católicas, livres de punições dos senhores de escravos.
Na umbanda e no candomblé, são Jorge tem forte ligação com Ogum, o orixá guerreiro associado ao ferro e às batalhas. Na Bahia, o santo também encontra paralelos com Oxóssi, o orixá da caça.
No Rio de Janeiro, o feriado estadual mobiliza igrejas, terreiros e escolas de samba. A Alvorada de São Jorge marca o amanhecer com queima de fogos, enquanto espaços religiosos servem feijoada (alimento sagrado para Ogum).
Em 1969, o Vaticano sob a gestão do papa Paulo VI alterou o peso do dia 23 de abril. Diante da falta de provas da lenda do dragão e da abundância de histórias fantasiosas, a igreja católica retirou a festa de são Jorge do calendário oficial e transformou a data em "memória facultativa", sem proibir o culto.
Os estudiosos acreditam que os restos mortais do santo repousam na igreja de São Jorge, na cidade israelense de Lida. O crânio permanece conservado na igreja de São Jorge em Velabro (Roma), por desejo do papa Zacarias.
* Com informações da Agência Brasil e Vatican News
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