Somos descendentes do desejo de uma heroína guerreira

Clássico da literatura inspira reflexões sobre as escolhas da juventude, a solidão e a busca pelo protagonismo na própria história

Francisco Neto
Publicado em 05/08/2026, às 10h13

Leitura da obra de José de Alencar ajuda a compreender a força do desejo e a importância de viver sem plateia - Julio_55/Pixabay


No início do século XXI, ao completar 16 anos, saí do interior do Pará, de uma pequena vila à beira do rio Araguaia, para morar em Araguaína, Tocantins, uma cidade que, considerando a realidade tocantinense, era de porte médio, mas que, para mim, era a maior cidade que já tinha visto.

As pessoas que conhecia não somavam uma dezena, o que talvez contribuía para que eu considerasse a cidade imensa e solitária. Havia mudado para trabalhar e estudar, e foi nessa época, ao ingressar no ensino médio, que li pela primeira vez Iracema, de José de Alencar.

Família e amigos ficaram para trás

Realmente não sei dizer que atividade escolar realizamos a partir de Iracema. Porém, a memória daquela leitura marcou definitivamente meu modo de me relacionar com a literatura.



Iracema, ao se apaixonar por Martin, deixou todo um mundo conhecido – sua família, seus amigos, em especial a jandaia, seu povo, suas terras, sua posição especial frente aos guerreiros como aquela que preparava a bebida de Tupã, e partiu rumo ao desconhecido. Partiu em nome do amor, mas não demorou muito, e a decisão de guerreira tabajara, começou a render frutos amargos.

Martin, como guerreiro, em batalhas e expedições, passava longas temporadas ausente, e Iracema sucumbiu à solidão. Um dia, quando a heroína se lamentava à beira da lagoa da Mocejana, ouviu uma voz estridente: Iracema, Iracema. Era a jandaia, do alto da palmeira. Essa sempre me pareceu uma cena melancólica, mas que mexe comigo até hoje: aquela amiga deixada para trás é quem vem à procura de Iracema, consolá-la.

Quando Iracema morre, Martin a sepulta ao pé do coqueiro, depois vai embora, levando consigo o filho e o cão fiel. A jandaia, porém, não quis partir, e lá do olho da palmeira, repetia tristemente: Iracema. Àquela época, a solidão da heroína me ajudava a compreender os meus próprios sentimentos – a saudade da família, dos amigos e de meu pequeno mundo deixado para trás.



O enigma continuou

O tempo passou e, hoje, com mais de 40 anos, Iracema continua a me encantar. Sempre soube que havia algo mais, um enigma – o livro me comunicava algo que eu não conseguia decifrar. Depois de ler o Seminário 7, A ética da psicanálise, de Jacques Lacan, em particular os comentários do psicanalista francês sobre Antígona, de Sofócles, compreendi essa identificação a mais com Iracema.

Tal como a heroína grega, Iracema, ícone da natureza brasileira, para utilizar as palavras de Walnice Galvão, também foi uma heroína que soube honrar o seu desejo. Olhando para trás, vejo que a coragem de Iracema de enfrentar o futuro, desconhecido, incerto, apoiada apenas na força do amor que sentia por Martin – um desejo decidido, como diria Lacan, sempre me inspirou.

Recentemente, resolvi reler o romance, para ver se ainda guardava o mesmo sabor. Deparo-me com a cena de Iracema, amamentando o filho com suas últimas forças. Entrega-o a Martin, e morre. O seu fim foi trágico? Sim, pode-se dizer isso. Contudo, foi um destino que ela percorreu com suas próprias pernas, viveu uma vida que ela podia dizer que era a sua.



O que ela viveu, apenas ela poderia ter vivido, não de modo passivo, como espectadora, mas como protagonista, em um registro autoral, ao contrário de muitos que, à maneira de Martinho da Vila, preferem deixar a vida os levar – vida leva eu.

Se é para enxergarmos em Iracema o mito da criação do povo brasileiro, uma boa maneira seria declarar: somos herdeiros do desejo de uma heroína guerreira. Que herança, não?! A coragem de Iracema continua a me inspirar, e desejo que inspire a você também!

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