LITERATURA HOJE

O fantasma da culpa e a vantagem de não receber ordens de ninguém

O que Firmina Daza, de O Amor nos Tempos do Cólera, de Gabriel García Márquez, nos ensina sobre o perigo de não honrar nosso desejo?

O fantasma da culpa e a vantagem de não receber ordens de ninguém
A leitura de O Amor nos Tempos do Cólera vale muito a pena e é recomendada - Francisco Neto


Quem nunca leu, ou ouviu falar, do homem que esperou por cinquenta e três anos, sete meses e onze dias para ter nos braços a amada da infância? Florentino Ariza, filho de mãe viúva, não gozava, na juventude, de prestígio social, ao passo que Firmina Daza, criada pelo pai viúvo, se não era rica, ao menos não era pobre e frequentava colégio de elite.

Seu pai, Lorenzo Daza, não consentiu com o amor juvenil entre sua filha e Florentino Ariza, e fez tudo que pôde para que Firmina Daza se casasse com Juvenal Urbino, jovem médico recém-chegado de Paris e pertencente ao estrato da alta sociedade daquela cidade portuária, colonial e caribenha.

O preço do desejo do pai

Juvenal Urbino correspondia ao ideal do pai de Firmina Daza, mas não dela mesma. Na verdade, nenhum era avassaladoramente apaixonado pelo outro, embora tenham tido dois filhos e o casamento tenha durado por cerca de cinquenta anos, até a morte de Juvenal Urbino, em cujo velório Florentino Ariza buscou reaproximação com a amada e declarou o desejo de reconquistá-la.



O preço pago por aderir ao desejo do pai custou, para Firmina Daza, abrir mão de sua própria paixão, o que significou, para ela, ser atormentada pela vida inteira pelo fantasma da culpa, como nos diz o narrador na página 255 (O Amor nos Tempos do Cólera, 75 ed. Rio de Janeiro: Record, 2024). Todos nós ficamos tocados pelo destino da personagem, por que, afinal de contas, quem nunca se deparou com escolhas difíceis, em que qualquer decisão representa um alto preço a pagar?

A traição de si mesma

Abrir mão de seu desejo significou, para Firmina Daza, a traição de si mesma, que será reparada ao final do romance. Embora a obra tenha sido publicada em 1985, a história se passa entre o final do século XIX e início do XX, período em que as mulheres tinham muito pouca, ou quase nenhuma, autonomia para decidir sobre sua própria vida.

Contudo, do ponto de vista da ética do desejo, há sempre um preço a pagar. Jacques Lacan, psicanalista francês, no Seminário 7, A ética da Psicanálise, diz que, psicanaliticamente falando, há somente uma razão para se sentir culpado: ceder do desejo.



Sempre há uma boa razão para abrir mão do desejo, pondera Lacan. Na verdade, faz-se isso pelo melhor motivo, com a melhor das intenções. Olhando de fora, quem poderia condenar Firmina Daza pela escolha que fez?Ninguém, a não ser ela mesma. Como o desejo é o que nos faz sentir que estamos na trilha do nosso destino, abandonar o próprio desejo é, ao mesmo tempo, se perder de si mesmo e do caminho que, no mais íntimo, entendemos valer a pena seguir na e com a vida.

A reparação

Aos setenta e dois anos, viúva, Firmina Daza reata com Florentino Ariza. Porém, sua filha, já casada e morando nos Estados Unidos, foi, tal como o avô, contra o romance da mãe. Dessa vez, a protagonista foi firme, expulsando a filha de casa – porque havia vindo em função da morte do pai - e a proibido de voltar. Ofélia despediu-se da mãe e voltou para Nova Orleans.

Nesse sentido, o próprio narrador é quem diz: Firmina Daza tinha voltado à vida. Depois, ouvimos a voz da própria heroína: “- Que vão à merda – disse. – Se nós viúvas temos alguma vantagem, é que já não resta ninguém que nos dê ordens” (p. 401).



Hoje, ao contrário do tempo de Firmina Daza, vivemos em clima de liberdade, em que cada um pode, aparentemente, fazer a escolha que quiser. O desafio não é mais a proibição, a imposição, mas sim, a indecisão. Contudo, no âmago, a questão é a mesma: seguir o próprio desejo ou se alienar ao desejo e às boas razões dos outros. A pergunta é: qual a minha escolha e que preço estou disposto a pagar? Por todas, e muitas são as razões, a leitura de O Amor nos Tempos do Cólera vale muito a pena e está recomendada.

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