Filme 'Ilhéus' explora cultura dos primeiros caiçaras e dos sambaquis; produção une mistério e fantasia em praia no litoral de SP
Lenildo Silva
Publicado em 16/12/2024, às 16h43 - Atualizado às 17h00
A Prainha Branca, em Guarujá, no litoral de São Paulo, foi o cenário escolhido para a produção do longa-metragem independente Ilhéus, que combina elementos de ficção com a história dos primeiros caiçaras do litoral sudeste brasileiro. Com direção de Manu Sobral, o filme une mistério, fantasia e pesquisa histórica, para narrar a saga de personagens inspirados na cultura local, em um ambiente natural e paradisíaco que enriquece a narrativa.
Em entrevista à reportagem, a diretora contou que o título Ilhéus faz referência à etimologia da palavra, que significa habitantes de ilha. Apesar da confusão inicial com a cidade baiana de mesmo nome, o conceito remete diretamente ao contexto cultural da Prainha Branca, onde a trama se desenvolve.
A escolha da Prainha Branca como locação principal trouxe tanto beleza quanto desafios logísticos, já que a praia, com águas cristalinas, areias brancas e vegetação nativa, é acessível apenas por trilha de dois quilômetros e por barco.
Os desafios da produção incluíram o transporte de equipamentos delicados e caros. Segundo Sobral, o planejamento teve que considerar as condições do mar, a maresia e as mudanças climáticas.
O projeto surgiu durante a pandemia, período em que Sobral, mestre em cinema de ficção pela MET Film School, de Berlim, capital da Alemanha, começou a desenvolver o roteiro. A história é influenciada por pesquisas anteriores da diretora, incluindo um estudo da música caiçara realizado no litoral sudeste e um documentário sobre sambaquis, sítios arqueológicos milenares.
O enredo conta a história de Luana, uma estudante paulistana que chega à Prainha Branca para realizar o TCC (trabalho de conclusão de curso) sobre sambaquis. Entretanto, a personagem enfrenta desafios ao confrontar suas teorias acadêmicas com a realidade local, que guarda segredos e uma mística profundamente enraizada.
Luana se depara com dificuldades para desvendar os mistérios dos sambaquis devido à sua falta de conhecimento empírico sobre a região. A gruta que ela investiga esconde um segredo mágico, que desafia sua visão científica e desencadeia os conflitos do enredo.
Sobral destaca que o filme equilibra a delicadeza, ao retratar a cultura local, com a criação de uma atmosfera de mistério. A narrativa mescla elementos reais e fantásticos, valorizando a interação entre os personagens e o ambiente.
O longa-metragem é uma produção independente, financiada com recursos privados. Mariana Zani, produtora executiva, ao lado do co-produtor Joel Caetano, explica que a equipe enfrentou desafios típicos de filmes de baixo orçamento, como limitações de infraestrutura e a necessidade de improvisação. Em 2023, uma versão curta do filme foi apresentada para buscar novos financiamentos. "Com recursos adicionais, nossa equipe voltou à Prainha Branca em dezembro de 2024, agora com o dobro de integrantes — de 20 para 40 pessoas — e uma estrutura ampliada para concluir as filmagens".
Desde o início, a equipe trabalhou para envolver a comunidade local no projeto, e essa conexão, segundo Sobral, foi essencial. Muitos moradores participaram da produção, como figurantes e auxiliares de logística, o que contribuiu para a autenticidade da narrativa. "Este é o primeiro longa-metragem a ser filmado na Prainha Branca, com um enredo que retrata a cultura caiçara. A comunidade abraçou o projeto e está ansiosa para ver o filme pronto", ressalta Mariana.
O elenco inclui Ana Carlotta, que interpreta a avó de uma das protagonistas, e Lizandro di Próspero, que dá vida às primeiras fases de Leonildo Pereira, um tocador de rabeca inspirado em figuras históricas da região. Já a terceira fase do personagem será protagonizada pelo ator Luiz Guilherme, conhecido por fazer novelas como Escrava Mãe e Vidas em Jogo, na TV Record, e A Infância de Romeu e Julieta, no SBT. “Desta vez a gente tem a presença do Luiz Guilherme, que é ator reconhecido nacionalmente por grandes trabalhos na Record, Globo e SBT, além do Teatro. Ele teve a gentileza de aceitar o nosso convite para fazer o filme e está fazendo uma participação especial”, disse Mariana.
Ana Carlotta, também coordenadora de elenco, destacou o significado do projeto: “É uma honra participar de um filme que valoriza nossa história. Os sambaquis são um tema quase esquecido, mas que merecem destaque no cinema brasileiro”. Já Lizandro di Próspero, que aparece em duas das três fases do filme, mencionou o impacto da ambientação no enredo. Segundo o ator, a Prainha Branca contribui para recriar o universo dos primeiros caiçaras. “O filme mostra como essas comunidades viviam em harmonia com o meio ambiente e como eram resilientes”, afirmou.
Ilhéus tem conclusão prevista para 2025, com estreia em festivais internacionais e circuitos independentes, antes de chegar aos cinemas nacionais. A diretora Manu Sobral enfatiza a importância do filme como registro cultural e homenagem à comunidade caiçara. "Queremos que o público se conecte com as histórias, tradições e mistérios dessa região única", afirma a diretora.
A Prainha Branca, situada na divisa entre Guarujá e Bertioga, é uma joia preservada graças ao difícil acesso. Habitada por caiçaras desde 1810, a região mantém tradições e costumes que enriqueceram o contexto do filme. Além de cenário natural, a praia é ponto de encontro para turistas em busca de tranquilidade e contato com a natureza.
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