Apesar do crescimento urbano e da modernidade, a cultura caiçara, a fé comunitária e a pesca artesanal resistem como o verdadeiro DNA bertioguense
Thomas Henry
Publicado em 02/06/2026, às 09h45
Bertioga avança em ritmo acelerado. Quem percorre suas avenidas nota a expansão dos empreendimentos, o dinamismo das fachadas modernas e a sofisticação de um turismo que se diversifica a cada temporada. É o movimento natural de um município que compreendeu sua vocação para o desenvolvimento. No entanto, sob a superfície, pulsa uma cidade que vive em um tempo diferente, medido pelas marés, pelo soar dos sinos e pelo lançamento das redes de pesca ao amanhecer.
Essa essência não é um retrato estático do passado, mas uma força viva. Enquanto o município se verticaliza, a identidade caiçara se adapta sem se apagar. O canal de conexão entre esse legado e o presente manifesta-se, de forma poderosa, nas celebrações tradicionais. Mais do que eventos de calendário, os festejos transformam a memória em patrimônio vivo.
Encravada em uma área de preservação na Serra do Mar, a Vila de Itatinga guarda uma das joias da devoção local: a Festa da Imaculada Conceição. Promovida anualmente, em 8 de dezembro, a celebração é o ponto de reencontro de uma comunidade que nasceu em torno da histórica usina hidrelétrica.
Rodolfo Neto, cuja trajetória se confunde com o lugar, descreve a estrutura social desse núcleo singular: "Itatinga tinha as realidades sociais, que eram o clube, o cinema e a comunidade Imaculada Conceição". Para ele, a igreja de 1942, com sua arquitetura típica de vilarejo inglês, sempre foi o coração de tudo. "Era um ponto de unidade entre os moradores da Vila e também da comunidade em ensino geral", revela.
A força da festividade reside na manutenção de ritos que percorrem décadas, como a coroação de Nossa Senhora e a procissão com o andor. Mas o valor real está no legado invisível que une as famílias. "Preservar essa cultura é preservar também que os filhos e netos dessas pessoas continuem participando, continuem vivendo essa mesma realidade que os seus antepassados viveram naquele local", afirma Rodolfo.
O sentimento de pertencimento supera qualquer barreira geográfica. "Os próprios familiares dessas pessoas podem voltar ao local de origem dos seus pais, dos seus avós e viver um pouco daquilo que eles viveram no passado. Eles tiram fotos, fazem lembranças e aí trazem seus netos e, assim, vai passando de geração em geração", conclui. Atualmente, o evento é restrito a convidados.
Se a emancipação de Bertioga caminha para as três décadas e meia, o bairro de São Lourenço carrega uma história que remonta a 1887. Ali, a festa em honra ao santo padroeiro ocorre tradicionalmente em agosto, e mobiliza a comunidade em torno da capela histórica.
Vitor Batista Pinto Júnior, membro da família fundadora e guardiã desse legado, testemunhou as transformações do tempo. "Percebe-se que a cultura também se transforma, adaptando-se às mudanças, como ocorreu com o desaparecimento das luminárias a querosene e da ladainha em latim", recorda.
Hoje, a tecnologia e o asfalto cercam o bairro, mas o ritual permanece sagrado.
Elementos como a novena, a procissão, o levantamento do mastro e o hasteamento da bandeira fortalecem a memória coletiva e o pertencimento da comunidade caiçara".
A história é sustentada por vozes longevas, como a de dona Ana Batista de Matos, de 95 anos, e Manoel Batista Pinto, de 90. Eles conectam o presente aos ensinamentos de antepassados como dona Candinha e Vitor Batista Pinto (falecido em 2020), que, por décadas, comandou a parte religiosa.
Essa linhagem reflete-se na devoção dos 200 fiéis que acompanham a liturgia e nos 1.500 visitantes que lotam a quermesse. "Sua preservação garante a continuidade das tradições locais, fortalece os laços comunitários e mantém viva a memória e a identidade do povo caiçara bertioguense diante das transformações do mundo moderno. E mantém viva, por meio dessa família Pinto, tão acolhedora ao longo dos anos, e que ainda encontra forças para preservar a memória desse bairro tão lindo e sossegado que é São Lourenço", ressalta Vitor.
O peso afetivo dessa tradição é traduzido em memórias por Gabriela dos Santos Pinto, gerente da associação local. Para ela, a festividade determinava o ritmo do ano. "Minha mãe comprava roupas novas para mim em três ocasiões específicas: Natal, roupas de inverno em julho e a Festa de São Lourenço. Tamanha era, e ainda é, a importância dessa festa para nós, caiçaras e membros da família Pinto", revela com carinho.
Gabriela detalha que o hasteamento do mastro funciona como o despertar emocional do bairro; após esse simbolismo, a queima de fogos ilumina o céu e a celebração, enfim, começa. No centro de tudo, a tainha na brasa evoca as origens, quando a pesca era a subsistência principal. "A preservação é fundamental para que as próximas gerações conheçam nossa história e perpetuem a identidade caiçara".
O paladar é, talvez, o elo mais profundo com o passado regional. Promovida pelo Lions Clube Bertioga, tradicionalmente entre junho e julho, a Festa da Tainha de Bertioga chega a sua 49ª edição. O motivo do evento combina biologia e história: a piracema, época em que os cardumes buscam o canal de Bertioga para desovar, garantindo uma abundância que já era descrita pelo viajante alemão Hans Staden em 1557.
O que nasceu como prática indígena tornou-se celebração caiçara nas praias de Itaguaré e Indaiá. Na década de 1960, Rubens de Moura Leite organizava os primeiros festejos, cujo início dependia do retorno dos barcos ao entardecer. Em 1978, o Lions Clube Bertioga oficializou o evento com um novo propósito: a solidariedade.
Hoje, a estrutura se concentra na Tenda de Eventos, na praia da Enseada. O preparo mudou para o estilo "espalmada" na brasa, substituindo as antigas telhas, por eficiência e custo, mas a essência permanece: a receita arrecadada sustenta projetos sociais vitais do município, como o banco de cadeiras de rodas e enxovais.
Na fronteira norte, o bairro Boraceia encerra o mosaico de identidades de Bertioga mantendo o espírito de uma "cidade do interior à beira-mar". Ali, a Festa de Sant'Anna, em julho, honra a padroeira no Canto do Itaguá.
O local mantém a rusticidade de uma vila que decora seus muros com conchas, onde a praia de areia clara divide espaço com a venda de produtos da terra e a calmaria familiar. É o contraponto perfeito à agitação das áreas centrais.
Em cada uma dessas frentes, seja no isolamento histórico de Itatinga, no coração da Enseada ou nas raízes de São Lourenço, Bertioga demonstra que crescimento não significa esquecimento. A verdadeira riqueza do município não está apenas no que ele projeta para o futuro, mas na beleza de continuar sendo, na essência, caiçara.