DOCUMENTÁRIO

Série documental Descobrindo o Litoral revela a essência caiçara de Ilhabela

Sétimo episódio da série documental destaca turismo sustentável, cultura caiçara e preservação ambiental como marcas do arquipélago

Série documental Descobrindo o Litoral revela a essência caiçara de Ilhabela
Produção mostra como a natureza, história e tradição moldam a identidade de Ilhabela - Imagens do documentário episódio Ilhabela


Muito além das praias de águas cristalinas e das paisagens que atraem milhares de visitantes todos os anos, Ilhabela guarda uma história construída pela cultura caiçara, pela preservação da Mata Atlântica e pelo compromisso com um turismo que busca conciliar desenvolvimento e conservação ambiental. É esse olhar que conduz o sétimo episódio da série documental Descobrindo o Litoral: Revelando o Paraíso Paulista.

A produção percorre diferentes cenários do arquipélago para mostrar que a identidade de Ilhabela vai além dos cartões-postais. Historiadores, gestores públicos, ambientalistas, biólogos e representantes do setor turístico compartilham experiências que revelam a riqueza histórica, cultural e ambiental de um dos principais destinos do litoral paulista.

Ao longo do episódio, o documentário evidencia que o crescimento do turismo, a valorização das comunidades tradicionais e a proteção dos ecossistemas caminham lado a lado na construção do futuro da cidade.



Turismo impulsiona economia durante todo o ano

O turismo é apresentado como a principal atividade econômica de Ilhabela e também como um dos maiores desafios para o município. O episódio mostra como a cidade busca reduzir a sazonalidade, atraindo visitantes ao longo de todo o ano por meio de um calendário de eventos e de experiências ligadas à natureza, ao esporte e à cultura.

Para o prefeito Toninho Colucci, esse planejamento é essencial para manter a economia aquecida sem comprometer a qualidade de vida da população.

A nossa indústria é a indústria do turismo. A gente faz eventos para diminuir a sazonalidade. Porque no verão a cidade está cheia, nos grandes feriados também. Agora, nos finais de semana comuns, a ocupação tende a cair e a gente precisa trabalhar com um calendário de eventos planejado, vigoroso, que traga as pessoas para nossa cidade fora desses períodos", afirma.

Segundo o prefeito, o desenvolvimento turístico precisa começar pelo bem-estar de quem vive na cidade.



Eu sempre digo: para a cidade ser boa para o turismo, primeiro ela tem que ser boa para o morador. Você prepara uma cidade para o morador e, se ela estiver boa para ele, também estará boa para o turista."

O secretário de Turismo, Harry Finger, explica que viver em um arquipélago exige compreender características próprias de um destino que recebe milhares de visitantes durante as temporadas de maior movimento. Apesar do aumento do fluxo em determinados períodos, ele destaca que Ilhabela oferece dezenas de praias, cachoeiras e atrativos capazes de distribuir melhor os visitantes pelo território.

É um equilíbrio que não é muito fácil acontecer, mas quem vem morar na ilha precisa entender essas especificidades. Recebemos muito turismo e isso traz alguns desafios, como trânsito em determinados períodos. Ao mesmo tempo, temos mais de 40 praias e mais de 40 cachoeiras, o que permite experiências em diferentes locais da cidade", explica.

Avistamento de baleias alia turismo e conservação

Um dos destaques do episódio é o crescimento do turismo de observação de baleias, atividade que ganhou força nos últimos anos e passou a atrair visitantes interessados em conhecer a fauna marinha da região de forma responsável.

O documentário mostra que os passeios vão além da contemplação dos animais. Antes mesmo do embarque, os visitantes recebem orientações sobre os cetáceos e são acompanhados por biólogos durante toda a experiência.



Segundo Harry Finger, essa iniciativa transforma o passeio em uma oportunidade de educação ambiental.

Além dos guias, as agências capacitadas trabalham com biólogos. Antes da saída existe uma explicação sobre os cetáceos e o profissional acompanha todo o passeio. A pessoa não sai apenas para ver uma baleia, mas também para compreender o comportamento desses animais e a importância da conservação", destaca.

A bióloga marinha Claudia Ferreira reforça que conhecer a natureza é o primeiro passo para protegê-la.

A gente só preserva aquilo que conhece. Nosso objetivo é trazer as pessoas para que elas se sensibilizem com essa natureza exuberante e saiam daqui se sentindo parte desse ambiente. Assim, elas passam a contribuir para a conservação e levam essa mensagem para outras pessoas", afirma.

O empresário Gabriel Lisboa, que atua com passeios de observação de baleias, explica que a atividade depende do respeito aos animais e do cumprimento rigoroso das normas de avistamento.



É muito importante que exista um biólogo a bordo para explicar o comportamento das baleias e orientar os visitantes. A baleia não vai fazer um salto porque alguém quer uma foto. Ela precisa se sentir confortável. Quando respeitamos a distância e seguimos as regras, é ela que decide se aproximar da embarcação", explica.

O episódio também aborda os desafios provocados pelo aumento da procura por esse tipo de turismo. Gabriel Lisboa afirma que reduzir o número de embarcações próximas aos animais é uma das medidas adotadas para minimizar impactos e preservar o comportamento natural das jubartes.

Tem que colocar o indivíduo em primeiro lugar, no nosso caso, as baleias-jubarte. Por isso buscamos operar com embarcações maiores e menos barcos na água. É uma forma de reduzir a pressão sobre os animais e garantir que essa atividade continue sendo benéfica tanto para o turismo quanto para a conservação", conclui.

Parque Estadual preserva a maior parte do arquipélago

A preservação ambiental ocupa um dos principais eixos do documentário. Criado em 1977, o Parque Estadual de Ilhabela protege cerca de 85% do arquipélago e desempenha um papel fundamental na conservação da Mata Atlântica, além de abrigar comunidades tradicionais e diversos atrativos turísticos.

A gestora da Fundação Florestal, Gabriela Carvalho, explica que a unidade de conservação reúne um dos maiores patrimônios naturais do estado de São Paulo e enfrenta desafios permanentes para conciliar preservação, turismo e ocupação do território.



O principal objetivo de uma unidade de conservação de proteção integral é a preservação. O desafio é justamente conciliar os usos permitidos, como turismo e educação ambiental, com a conservação. Também enfrentamos problemas como invasões, desmatamento, caça e a pressão da especulação imobiliária", afirma.

Segundo ela, a dimensão do parque também torna o trabalho de fiscalização ainda mais complexo. "O parque abrange cerca de 20 mil hectares e protege aproximadamente 85% do arquipélago. É uma área muito montanhosa, com diversos pontos de difícil acesso, o que exige monitoramento constante para garantir a preservação desse patrimônio natural."

O jornalista e pesquisador Edson de Souza destaca que a criação do parque foi decisiva para proteger importantes áreas naturais e também contribuiu para a preservação de sítios arqueológicos existentes na ilha.

Quando foi criado o Parque Estadual de Ilhabela, isso ajudou bastante na preservação. As leis impediram ocupações em diversas áreas e permitiram conservar locais importantes para a pesquisa histórica", explica.

Ao mesmo tempo, o documentário também propõe uma reflexão sobre os desafios enfrentados pelas comunidades caiçaras que vivem próximas às áreas protegidas. Segundo Edson, preservar o patrimônio ambiental também exige diálogo entre os diferentes setores envolvidos.



O parque protege o bioma, a fauna e a flora, mas é importante ampliar o diálogo para preservar também a cultura caiçara, que sempre viveu em harmonia com a natureza."

Cultura caiçara mantém viva a identidade da ilha

Outro tema central do episódio é a valorização da cultura caiçara, apresentada como um dos principais patrimônios de Ilhabela. O documentário mostra que tradições, manifestações populares e modos de vida continuam presentes no cotidiano da cidade e ajudam a fortalecer o sentimento de pertencimento entre os moradores.

Para o secretário de Cultura, Anísio Oliveira, preservar essa identidade é uma das principais missões do município.

Ilhabela não é só Sol e praia. Nós temos a nossa cultura raiz, que são os caiçaras, o nosso povo, a nossa identidade. É isso que faz parte da cidade e que a gente trabalha diariamente para preservar e não deixar morrer", afirma.

Segundo ele, a participação da população é essencial para fortalecer as políticas culturais e ampliar o acesso às manifestações tradicionais.



A cultura é feita de baixo para cima. Quem faz cultura é quem está na rua, quem vive o dia a dia. O papel do poder público é criar condições para que essas pessoas continuem produzindo, preservando e transmitindo esse patrimônio para as próximas gerações."

O documentário também destaca manifestações tradicionais, como a Congada de São Benedito, realizada anualmente pelas ruas da Vila, além de lendas populares que atravessam gerações, como a da Feiticeira e das Pedras do Sino.

Essas narrativas ajudam a preservar a memória coletiva da ilha e reforçam a relação entre patrimônio material, manifestações culturais e identidade local.

Centro histórico guarda as origens de Ilhabela

A narrativa também conduz o público pelo centro histórico, onde a ocupação da antiga Vila começou ainda no período colonial. Segundo Edson de Souza, foi naquele espaço que se concentraram as primeiras estruturas administrativas da então vila, como a cadeia, o pelourinho, a Câmara e o antigo mercado de escravizados.



"A identidade de Ilhabela começa aqui. Foi aqui que tudo se formou. Hoje muita coisa mudou, mas esse espaço continua sendo o principal marco da história da cidade", explica.

O pesquisador defende a criação de políticas públicas voltadas à preservação do entorno histórico para evitar a descaracterização da área e manter viva a memória da formação do município.

Ao relembrar sua trajetória como pesquisador, Edson conta que assumiu ainda na infância o compromisso de preservar a história local.



Meu avô dizia que eu seria o guardião da história. Desde pequeno comecei a pesquisar e nunca mais parei. Conhecer a história da cidade é uma forma de incentivar outras pessoas a também preservar esse patrimônio."

Sobre o projeto

O projeto cultural e documental Descobrindo o Litoral: Revelando a Identidade do Litoral Paulista percorre a Baixada Santista e o litoral norte para valorizar as riquezas naturais, históricas e culturais da região. A obra é uma iniciativa da Associação Comunitária Centro de Tradições Nordestinas (ACCTN), com apoio do governo do estado de São Paulo (Cult SP).

A série conta com nove episódios, de aproximadamente 30 minutos cada, exibidos pela TV Cultura Litoral (TVCL), sempre de terça a quinta-feira, das 22h30 às 23 horas.

Seis episódios já foram exibidos, levando o público a conhecer São Vicente, Santos, Guarujá, Praia Grande, Bertioga e São Sebastião. Ao longo da série, especialistas, pesquisadores, gestores públicos, lideranças comunitárias e moradores apresentam as histórias, a cultura, o patrimônio e as riquezas naturais que ajudam a construir a identidade do litoral paulista.



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