Visitantes transformam imóvel abandonado em destino de exploração paranormal, enquanto impasses judiciais mantêm indefinido o futuro do imóvel

O que já foi uma mansão glamourosa, cercada por natureza e com vista para o oceano Atlântico, hoje está em ruínas. A casa de praia do estilista e apresentador Clodovil Hernandes, construída em um ponto alto entre as praias do Léo e do Meio, em Ubatuba, litoral norte de São Paulo, perto da divisa com Paraty (RJ), está tomada pelo mato e deteriorada.
Após a morte de Clodovil, em 17 de março de 2009, o imóvel virou ponto turístico. A construção, de 4,3 mil metros quadrados, dividida em 20 cômodos, nove banheiros, sauna, piscina, passagem secreta até a rodovia Rio-Santos e até uma privada ao ar livre, sempre foi alvo de polêmicas.
O estilista, também deputado federal, à época, foi acusado pelo Ministério Público do estado de São Paulo de erguer a mansão em uma Área de Proteção Ambiental (APA). Em 2021, a Justiça chegou a determinar a demolição, mas decisões posteriores reverteram a ordem, deixando o futuro da casa indefinido.
Este repórter, que esteve na mansão em 2004 para entrevistar Clodovil, observou que o poste de energia e iluminação da rua ficava dentro do jardim. Ele havia ampliado a área externa, avançando sobre o logradouro público e incorporando o poste ao terreno.
Hoje, totalmente degradado, com sinais de invasão e depredação, o imóvel atrai outro tipo de visitante: os “caça-fantasmas”. Jovens entusiastas e espíritas frequentam o local em busca de supostos sinais do apresentador. Há até quem diga “conversar” com seu espírito.

Esses grupos utilizam equipamentos para detectar “espíritos”, baseados em fenômenos físicos como campos eletromagnéticos (EMF), variações de temperatura, sons, luzes e movimentos. Entre os mais usados estão câmeras de visão noturna, termômetros especiais e as “spirit boxes”, rádios que varrem frequências rapidamente.
“Já ouvi falar em turismo cemiterial, que é comum na Europa e na Argentina, onde o túmulo de Evita recebe milhares de visitantes. Mas esse turismo para procurar fantasmas é novidade para mim, em meus 77 anos”, diz o advogado aposentado Hélio Domingos Martins, morador de São Paulo e dono de uma casa próxima à mansão.
“Frequentemente vejo movimentação. Muitos jovens entram com equipamentos, câmeras, filmadoras e até equipes de TV. Também ouço pessoas fazendo orações”, relata.
Diversos canais do YouTube exploram supostas atividades paranormais na mansão. Além de médiuns e espíritas, alguns apresentadores se autodenominam “investigadores”. O canal KBC Caçadores de Fantasmas, com 1,08 milhão de inscritos, afirmou ter conseguido contato com o espírito de Clodovil.
Durante uma incursão, um medidor eletromagnético K2 teria indicado a presença de espíritos ao piscar constantemente próximo à piscina tomada pelo mato. No uso do “spirit box”, os quatro integrantes do grupo dizem ter ouvido uma voz pronunciar “Clodovil”.
Em um vídeo de 51 minutos publicado em 2014, Rosa Maria Jaques, jornalista e investigadora paranormal do canal Caça Fantasmas Brasil, com 429 mil inscritos, acompanha uma equipe de TV e aparece “conversando” com o suposto espírito de Clodovil.
“O Clodovil era aquilo que vocês conheceram em frente às câmeras. Quem conviveu com ele em sua vida particular, era o mesmo atrás das câmeras”, diz ela, afirmando ter sido amiga pessoal do estilista. “Vou mostrar que ele continua vivo na história dele. Ele era muito sensível e à frente do tempo”, continua.
As gravações mostram a casa ainda montada, com móveis, livros e objetos pessoais, em estado muito melhor que o atual. Ao iniciar o tour, Rosa diz que o espírito estava presente: “Olha ali, você está aí, amigo? Você está aí, querido! Eu te vejo!”.
Em seguida, afirma que ele “chegou de forma violenta”, característica que, segundo ela, refletia seu comportamento em vida.
A investigadora diz que o espírito demonstrou estar “chateado” pelo abandono da casa. Em outros canais, há quem diga que espíritos se apegam a bens materiais, o que explicaria o suposto comportamento.
Ela afirma ainda que o apresentador teria pedido para organizar o imóvel: “Ele odiava desorganização e está me dizendo para tirar aquela revista velha, tirar aquela panela, organizar”.
Em outro trecho, Rosa relata que Clodovil pediu para levar a equipe ao quarto e “avaliou” os visitantes. No local, ele teria dado um “piti”. “Agora ele está mandando eu xingar todo mundo. Se eu fizer, terei que soltar os cachorros em cima de vocês”. Ela então repete o que ele teria dito: “Vocês sempre me usaram. Vocês são uns oportunistas”.
Avaliada em R$ 1,6 milhão, a casa está abandonada desde 2009. O imóvel não pode ser vendido. Três leilões foram marcados para quitar dívidas deixadas por Clodovil.
A primeira tentativa, em novembro de 2017, não teve interessados. Na terceira, em 2018, o imóvel foi arrematado por Thalita Daiane de Melo por R$ 750 mil. Mas a defesa dela afirmou na Justiça que ela “comprou gato por lebre”, pois teria adquirido apenas o direito de uso da área, e não a propriedade. O pedido de anulação foi negado, e em 2023 a Justiça manteve o direito de uso em nome de Thalita.
A reportagem não conseguiu localizar Thalita nem seu advogado, José de Araújo, para esclarecer se houve desistência da ação ou se há planos para o imóvel.