HERANÇA CAIÇARA

Festa da Tainha de Bertioga tem definido valor de convite; conheça a história desta tradição

Evento do Lions Clube ocorre de 3 de julho a 2 de agosto, no entorno do Forte São João, com música ao vivo e renda para ações sociais

Tainha espalmada, servida com acompanhamentos
49ª Festa da Tainha do Lions Clube Bertioga será promovida na região do Forte São João e do Parque dos Tupiniquins - Divulgação/Prefeitura de Bertioga


Há festas que entram no calendário e há festas que ajudam a explicar uma cidade. Em Bertioga, litoral de São Paulo, a tainha pertence ao segundo grupo: é peixe de temporada, memória caiçara, prato de família e, há quase cinco décadas, instrumento de solidariedade.

Este ano, a 49ª Festa da Tainha do Lions Clube Bertioga começa em 3 de julho e segue até 2 de agosto, na Tenda de Eventos montada ao lado do Parque dos Tupiniquins, perto do Forte São João, em frente à praia da Enseada.

Oficializada pela Lei nº 1.563, de 6 de setembro de 2023, a celebração ocupa um dos cenários mais simbólicos do município e volta a reunir moradores, turistas e visitantes em torno da tainha espalmada na brasa.



O prato principal custa R$190, serve até três pessoas e acompanha arroz, farofa, vinagrete e pão. A programação ocorre às sextas-feiras, das 19h às 22h; aos sábados, das 12h às 16h e das 19h às 22h; e aos domingos, das 12h às 16 horas.

Além da tainha, a programação conta com música ao vivo, porções, fritas, camarão, doces e sorvetes. A estrutura também tem acesso adaptado e banheiros acessíveis.

Peixe que antecede a festa

Antes de a festa se tornar atração turística tradicional, a tainha já fazia parte da história alimentar de Bertioga. O motivo é biológico e histórico: durante a piracema, os cardumes buscavam o canal de Bertioga, os manguezais e o rio Itapanhaú para desovar. Essa abundância ajudou a formar hábitos de pesca, preparo e consumo que fizeram parte de diferentes períodos da ocupação local.



O material histórico do evento, fornecido pelo Lions Clube de Bertioga, lembra que Hans Staden já descrevia, em 1557, a pesca e o consumo de tainhas entre os povos originários. Naquele tempo, o peixe era alimento de deslocamento, guerra, conservação e sobrevivência. Podia ser assado no fogo, seco para durar mais tempo ou triturado para virar farinha.

A pesca também envolvia conhecimento do território. Ao longo do canal de Bertioga, eram montados cercos com estacas de madeira e folhagens, estruturas usadas para capturar os cardumes que passavam pela região. Atualmente, esse tipo de cerco é proibido no litoral brasileiro, mas a memória da prática ajuda a explicar por que a tainha permaneceu tão ligada à identidade local.

Da pesca caiçara à celebração popular

Com o tempo, o que era sobrevivência indígena se transformou em tradição caiçara. Os bairros São Lourenço e Indaiá tiveram papel central nessa passagem. Nessas praias, a tainha deixou de ser apenas alimento cotidiano e passou a organizar encontros, disputas de pesca e festas comunitárias.



Na década de 1960, Rubens de Moura Leite organizava edições da Festa da Tainha de Itaguaré, que hoje faz parte de São Lourenço. A lógica era direta: pescadores saíam ao mar no fim da tarde e a festa só começava quando os barcos voltavam com a captura do dia. O peixe era preparado de diferentes formas, na brasa, na telha, na folha de bananeira, recheado ou não.

No Indaiá, a primeira Festa da Tainha ocorreu em 29 de junho de 1974, em comemoração a São Pedro, padroeiro dos pescadores. Havia competição entre pescadores, premiação e preparo do peixe na hora. Dois anos depois, em 1976, a festa passou a ser organizada pela prefeitura de Santos, ainda antes da emancipação de Bertioga.

Lions e a nova vocação da festa

A festa organizada pelo Lions Clube Bertioga começou em 1978, nos dias 7 e 8 de julho, na Casa da Cultura Emancipadora Prof.ª Norma dos Santos Mazzoni. Se as celebrações de São Lourenço e Indaiá estavam mais próximas do ritual da pesca, o evento do Lions nasceu com outra vocação: transformar a tainha em ponto de encontro e fonte de arrecadação.



Festa da Tainha no ano 2000
Evento já no formato atual, com barracas e música ao vivo, mas ainda com a tradicional tainha inteira - Arquivo/Costa Norte

A localização ajudou a consolidar esse novo formato. Próxima ao Forte São João, área de grande circulação de moradores e turistas, a festa ganhou visibilidade, apoio e público crescente. Em 1982, passou a ser promovida em frente ao Forte, com barracas montadas e música ao vivo. No ano seguinte, consumiu mais de 10 toneladas de tainha e reuniu cerca de 20 mil pessoas. Em 1984, o sucesso levou a organização a desenvolver a festa em todos os fins de semana de julho.

Modos de preparo da Tainha
Entre as mudanças do evento ao longo dos anos, uma das mais emblemáticas foi o preparo da tainha, que passou de servida inteira para espalmada na brasa - Arquivo/Costa Norte



Outra mudança foi a forma de apresentar o prato. Antes, a tainha podia ser servida inteira ou assada na telha. Mais recentemente, passou a predominar o preparo espalmado, com o peixe aberto na brasa. A mudança tem razões práticas e visuais: reduz custos com as antigas telhas, facilita a operação e cria uma imagem mais forte para o prato que se tornou símbolo da festa.

Solidariedade

A Festa da Tainha também sustenta uma rede de serviços sociais em Bertioga. Segundo o Lions Clube, todo o valor arrecadado é destinado a projetos no município.

A entidade tem 50 anos de atuação na cidade e mantém ações voltadas à comunidade local. Entre elas estão campanhas de saúde visual, testes de visão, doação de óculos, entrega de enxovais para recém-nascidos e empréstimo de cadeiras de rodas, cadeiras de banho, andadores e muletas.



O clube também realiza doações de cobertores, roupas, cestas básicas e kits de higiene e limpeza em situações de catástrofes, epidemias ou outras emergências sociais. As ações seguem pilares do Lions Clube Internacional, que incluem áreas como diabetes, meio ambiente, fome, câncer infantil, visão, assistência em desastres, ajuda humanitária e juventude.

Por isso, a festa permanece relevante mesmo depois de tantas edições. Em Bertioga, a tainha não alimenta apenas o turismo de inverno. Ela preserva uma herança caiçara, movimenta a economia local, reúne gerações à mesa e devolve parte dessa força à própria comunidade.

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