Projeto Baú da Dedé será lançado em 17 de março, na Casa do Patrimônio, em São Sebastião, com mais de 5 mil fotos, fitas de áudio, vídeos e documentos históricos

Um dos mais importantes registros sobre o modo de vida caiçara do litoral norte paulista começa a ser disponibilizado ao público a partir de 17 de março, com o lançamento do projeto Baú da Dedé, na Casa do Patrimônio, em São Sebastião.
Acervo reúne mais de 5 mil fotografias, cerca de 50 fitas de áudio e vídeo e centenas de documentos e manuscritos sobre manifestações culturais tradicionais da região.
Lançamento ocorre no dia 17 de março, das 17h30 às 20h30, com programação voltada a pesquisadores, estudantes e interessados no tema. Evento contará com visita guiada ao acervo, exibição de um minidocumentário sobre o projeto e abertura de exposição, que permanece em cartaz até julho de 2026.
Durante esse período, escolas e grupos poderão participar de visitas monitoradas mediante agendamento às terças e sextas-feiras, às 9h e às 14 horas.
O material foi reunido ao longo de cerca de 50 anos de pesquisa pela folclorista Iracema França (1919–2009), conhecida como Dona Dedé, considerada uma das intelectuais mais importantes do litoral paulista e uma mulher à frente de seu tempo no estudo da cultura caiçara.
Até então guardado pela família da pesquisadora, o acervo passa agora a ser disponibilizado ao público tanto fisicamente na Casa do Patrimônio, que abriga o Arquivo Histórico de São Sebastião, quanto digitalmente no site, lançado no mesmo dia do evento.
Coleção reúne registros detalhados sobre diferentes aspectos da cultura tradicional do litoral norte paulista. Entre os destaques estão manifestações culturais e religiosas como Congada de São Benedito, Caiapó, Folia de Reis e Quebra-Chiquinna, além de elementos do cotidiano caiçara, como pesca artesanal, casas de farinha, artesanato e modos de moradia.
Material inclui fotografias, gravações sonoras, filmes em Super-8, vídeos em VHS, recortes de jornal, manuscritos, cartazes, mapas, bandeiras e objetos utilizados em manifestações culturais.
Segundo a produtora executiva do projeto e sobrinha-neta de Dona Dedé, a cineasta Juliana Borges, o acervo reúne entre 10 mil e 15 mil itens, entre registros visuais, sonoros e documentos históricos da cultura caiçara.
Juliana conta que o material permaneceu guardado por anos após a morte da pesquisadora, em 2009, na casa onde Dona Dedé morava em Ilhabela. Alguns anos depois, ela recebeu a responsabilidade de cuidar do acervo e teve contato direto com o material. “E alguns anos atrás eu recebi a incumbência de cuidar desse acervo”, conta.
Segundo a produtora, ao acessar o conteúdo pela primeira vez, ficou impressionada com a dimensão e a relevância do material. “Eu fiquei maravilhada. Entendi que era um material muito importante, muito precioso, de extrema importância para a história da cultura caiçara e para a preservação da nossa memória caiçara”.
A partir dessa percepção surgiu a iniciativa de tornar o acervo público. “Eu entendi que esse acervo deveria se tornar público, acessível para os outros. E aí fomos atrás de recursos para viabilizar esse projeto”.
Juliana também acredita que a abertura do acervo atende a um desejo antigo da pesquisadora. “Tenho certeza que esse era um desejo da própria Dedé, que manifestou isso verbalmente e também em textos que ela escreveu, que ela sonhava em ter um centro de memória caiçara”.
Antes de ser disponibilizado ao público, o acervo passou por um longo processo de higienização, inventário, catalogação, restauro e digitalização.
Juliana explicaque, quando a equipe teve acesso ao material, ele ainda estava guardado em caixas e precisava de cuidados urgentes para garantir sua preservação. “Tinha muitas imagens, principalmente os slides mofados, os grampos enferrujados que podem corroer o papel".
O primeiro passo foi limpar e reorganizar os documentos. Depois de transferido para a Casa do Patrimônio de São Sebastião, o acervo começou a ser catalogado e digitalizado.
Cerca de 80% do material já foi digitalizado, incluindo gravações em fitas cassete e outros suportes antigos. “O processo em si de salvaguarda desse acervo envolveu a catalogação, a digitalização, o inventário e o restauro de parte do material”.
Público poderá acessar o acervo de duas formas: presencialmente, na Casa do Patrimônio, e por meio da plataforma digital.
O site do projeto reúne parte do material organizado em 17 galerias temáticas, com textos, fotografias, áudios e vídeos. A plataforma também permite acessar o banco de dados completo do acervo.
Segundo Juliana, a expectativa é que o material se torne base para novas pesquisas acadêmicas e produções culturais. “A gente imagina que ele vai ser uma porta de entrada para novos estudos acontecerem”.
Para Juliana Borges, o acervo surge como uma ferramenta importante para preservar saberes e histórias. “A importância é imensa. A gente vive um momento de apagamento das tradições caiçaras por causa das mudanças aceleradas que estão acontecendo”.
Ela reforça: “Ter esse acervo organizado, divulgado e público é importante para a gente se reconhecer como povo, entender o nosso passado”.
Juliana destaca ainda que muitos conhecimentos registrados por Dona Dedé eram transmitidos apenas oralmente e poderiam ter se perdido com o tempo. “São muitas tradições de cultura oral que nunca foram escritas, transcritas, registradas por ninguém.”
Ela também ressalta a contribuição da pesquisadora para a preservação da Congada em Ilhabela. “Ela ficou mais de dez anos gravando, todos os anos, tudo da Congada. Foi a primeira pessoa a escrever cada fala, cada embaixada, a descrever cada movimento, cada vestimento, cada instrumento. Isso acabou sendo uma bússola para os congueiros”.