TURISMO TERAPÊUTICO

Praias do litoral norte viram “remédio” para quem tem ansiedade e burnout

Turismo terapêutico e de bem-estar vem crescendo globalmente nos últimos anos. Corrida às praias serve como “válvula de escape”


Reginaldo Pupo
Publicado em 25/02/2026, às 10h25

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praia de Massaguaçu, em Caraguatatuba
A praia de Massaguaçu é um dos refúgios para quem foge da correria da capital - Secom / Caraguatatuba


A região do litoral norte de São Paulo tem sido muito procurada, não apenas por suas praias, mas também para “tratamentos” complementares contra a ansiedade e a síndrome de Burnout.

Contato direto com a natureza e imersão na Mata Atlântica ainda preservada servem como “remédio” para amenizar os efeitos desses transtornos psiquiátricos e síndromes ocupacionais, respectivamente, considerados o “mal do século”.

Pessoas acometidas pela ansiedade e síndrome de Burnout buscam por destinos turísticos onde há natureza, silêncio e bem-estar, para que possam se desconectar do cotidiano e relaxar mente e corpo.



Aulas de ioga e de dança, durante as hospedagens em hotéis e pousadas focados em bem-estar, também servem como “arma” para combater os transtornos.

Um publicitário de São Paulo, que pediu para ser identificado apenas pelo primeiro nome, Paulo, disse que sempre dá algumas escapadas para as praias da região como forma de espairecer a mente.

Ele diz trabalhar em ritmo frenético na agência paulistana próxima à avenida Faria Lima e, em épocas de criação e produção de campanhas publicitárias, chega a dormir apenas três horas por noite.



“O ritmo é bem frenético. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, é um trabalho extremamente estressante, pois você precisa cumprir prazos apertados e ainda tem a pressão e cobrança dos clientes. E não podemos errar, senão, tudo volta à estaca zero. Aí o estresse volta em dobro”, diz.

Ele iniciou tratamento para síndrome de Burnout, que é esgotamento profissional, há cinco meses. Há cerca de 15 dias, Paulo, que tem 36 anos, disse que abandonou a agência onde trabalha, em pleno expediente de quarta-feira, e desceu para a praia.

“Foi um dia muito estressante e, se eu permanecesse lá (na agência), com certeza eu teria algum tipo de crise de ansiedade. E quando estou nessas condições, mesmo sem intenção, acabo sendo ríspido e grosso com os colegas de trabalho, que nada têm a ver com meu problema. Então saí da agência, fui para casa, peguei minha prancha de surfe, coloquei no carro e fui surfar em Juquehy”, relatou ele.



Paulo disse ter ficado cerca de quatro horas na praia, até retornar à capital. “O surfe é minha válvula de escape. Mas, mesmo quando não surfo, desço para o litoral norte porque é um lugar com muita natureza, e minha permanência em lugares assim alivia muito meu estresse. Especialmente as praias”.

“Paz interior”

A analista de RH (recursos humanos) Thelma Barbieri Lima, 54, também recorre às praias do litoral norte para aliviar sintomas de ansiedade. Residente em São José dos Campos,  Vale do Paraíba, ela trabalha em uma multinacional, onde a rotina de trabalho “é estressante”, segundo ela.

Ao contrário do publicitário Paulo, que decidiu de última hora ir até a praia de Juquehy, ela diz programar as viagens. “Vou muito para Caraguatatuba, que fica a apenas uma hora de São José. É meu refúgio quando estou estressada e, principalmente, quando tenho crises de ansiedade”, diz ela.



A analista conta que aluga um chalé na praia de Massaguaçu, quando vai para a cidade litorânea, e se hospeda sozinha. “Sem aquele barulho infernal do trabalho, sem familiares falando alto e sem cachorros latindo sem parar. Um alívio mental inimaginável que só consigo aqui (na praia)”, retrata.

“Só o fato de sair de São José já reduz, em muito, a ansiedade. Mas os sintomas logo passam quando já visualizo o mar ao descer a serra. Ao pisar na água do mar, parece que uma mágica acontece. Todo o estresse e ansiedade vão embora e sinto uma paz interior profunda. É meu melhor remédio contra a ansiedade”, relata.

A analista pensa em morar definitivamente em Caraguatatuba. “Já estou em busca de oportunidades de trabalho em Caraguá. Assim que eu conseguir, me mudo de vez, sem pensar duas vezes”.



Imersão na natureza

A professora Bruna Rocha de Sant´Anna, 47, encontra em Ubatuba seu refúgio para esquecer, nas palavras dela, “o trabalho que persegue até em sonho”. Ela leciona em escola pública de Campinas e, ao menos a cada dois meses, se hospeda em uma pousada ecológica, encravada em meio à Mata Atlântica, para retiro espiritual.

Adepta da ioga, Bruna aproveita o espaço existente no hotel para a prática desta técnica milenar indiana, com outras hóspedes, que se reúnem com ela em datas combinadas.

“Vem gente da capital, do interior de São Paulo, de Minas Gerais, para retiros espirituais que organizamos. O hotel fica fechado só para nós, mulheres, que nos unimos para reconexão, para promover o equilíbrio e o bem-estar geral”, explica.



O trabalho vem me consumindo bastante. Já sonhei até com meu chefe me fazendo cobranças. O trabalho me persegue até nos sonhos. Minha mente não relaxa, a ponto de, ao acordar, já me ver escrevendo tarefas na lousa. Até ouço as crianças correndo pela escola durante o intervalo enquanto ainda nem preparei o café da manhã”, descreve.

Bruna disse que buscou ajuda de profissionais e que iniciou tratamento para combater a ansiedade a uma possível síndrome de Burnout, que está em investigação.

“Minha terapeuta disse que a conexão com a natureza poderia auxiliar meu tratamento. Saí de uma depressão severa, após um casamento malsucedido, e as idas ao litoral me tiraram da zona de conforto e me fortaleceram psicologicamente. A ida à praia, os mergulhos no mar, os pés fincados na areia e as aulas de ioga, durante meus isolamentos no hotel, vêm me fazendo muito bem”, comemora.



Tratamentos

Apesar de o turismo terapêutico oferecer a possibilidade de os pacientes sentirem redução dos sintomas de ansiedade e Burnout, especialistas afirmam que o tratamento com médicos profissionais é indispensável e alertam para o que chamam de “romantização da cura pela viagem”.

A psicóloga Ana Paula Negrini declara que a síndrome de Burnout é descrita pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como resultado de estresse ocupacional crônico. “Por isso, quem sofre de esgotamento mental, resultado de trabalho excessivo, deve procurar a ajuda de profissionais, pois as crises podem resultar em intervenção em clínica especialista estruturada, e tomar cuidado com a romantização da cura pela viagem”, alerta.

Segundo Ana Paula, os psicoterapeutas geralmente recomendam aos pacientes a reorganizar a vida profissional, para evitar excessos de trabalho e esgotamento mental. “Em muitos casos, quando indicado, os sintomas podem requerer um tratamento medicamentoso”, conclui.



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