PAISAGEM QUE CONTA HISTÓRIA

Praia Vermelha do Sul: o segredo por trás das casas cercadas pela Mata Atlântica

Conhecida como praia dos Arquitetos, faixa de areia reúne águas tranquilas, natureza preservada e um projeto de ocupação que mudou a paisagem do local

Praia Vermelha do Sul com faixa de areia, pedras à margem do mar, vegetação e montanhas ao fundo
Casas de veraneio estão entre a vegetação da praia Vermelha do Sul, conhecida também como praia dos Arquitetos - Divulgação/Prefeitura de Ubatuba


À primeira vista, a praia Vermelha do Sul, em Ubatuba, chama atenção pela tranquilidade. São aproximadamente 400 metros de areia fina e clara, águas calmas e cristalinas e uma faixa de vegetação que acompanha a orla.

Mas basta observar as costeiras para perceber um detalhe que ajuda a contar a história do lugar. Em meio à Mata Atlântica, erguem-se casas de veraneio de alto padrão, cujas fachadas estão integradas às costeiras arborizadas.

Apesar das construções, a paisagem vista do mar mantém uma aparência praticamente desabitada. É daí que vem um dos nomes pelos quais a praia ficou conhecida: praia Vermelha dos Arquitetos, ou simplesmente praia dos Arquitetos. O apelido não surgiu por acaso.

O projeto que buscou preservar a vegetação

A ocupação da região foi planejada de maneira diferente do habitual. O local possui cerca de 250 casas dentro de um condomínio, mas a proposta adotou regras para manter a vegetação natural no máximo possível.

Entre as normas estão regras relacionadas a recuos, taxas de ocupação, gabarito, reservatórios e captação de águas pluviais. Também existe a obrigação de manter cercas vivas nos limites dos lotes, em vez de construir muros.

Segundo o material histórico fornecido, essa regra fez com que fossem plantadas aproximadamente 1.000 mudas em cada lote. Considerando os cerca de 200 lotes mencionados na mesma fonte, o número chegaria a 200 mil plantas.



A proposta também estabeleceu restrições para o local, entre elas a proibição de construir muros e de estabelecer hotéis e restaurantes. O resultado foi uma ocupação que procura se misturar à paisagem, mantendo árvores e vegetação entre as construções.

Antes das casas, havia famílias caiçaras

A história da Vermelha do Sul, porém, começou muito antes do loteamento. As terras, com cerca de 200 alqueires, eram ocupadas, até 1957, por famílias caiçaras que viviam do plantio de bananas e mandioca, além da criação de alguns animais.

Naquele período, ainda não existia a rodovia Caraguatatuba-Ubatuba, a SP-55, que só seria construída em 1967. Em 1957, o topógrafo lituano Leon Sisla e sua mulher Olga adquiriram as posses das famílias que viviam na região. O casal já tinha ligação com o litoral norte e havia adquirido terras na praia das 7 Fontes, em 1948, onde passava temporadas de verão.



A aquisição das posses da Vermelha do Sul foi regularizada posteriormente por um processo de usucapião, iniciado em 1952 e concluído em 1968. Leon Sisla também ficou conhecido por seu trabalho na abertura de bairros da capital paulista, entre eles o Morumbi.

A praia já foi acessível apenas por trilha e barco

Hoje, chegar à Vermelha do Sul é relativamente simples. Mas o cenário era completamente diferente quando a região ainda não tinha estrada de acesso. Até a abertura da estrada que liga a rodovia Rio-Santos à praia da Fortaleza, a Vermelha do Sul só podia ser alcançada por trilha e barco.

E havia uma dificuldade adicional para quem chegava pelo mar. Quando as condições estavam revoltas, aportar as embarcações era complicado. Com a aprovação do prefeito da época, Alberto Santos, Leon Sisla abriu uma estrada de terra para ligar a Rio-Santos à região da Fortaleza. O acesso ajudou a mudar completamente a relação da praia com o restante do município.



Quando os arquitetos começaram a chegar

Em 1969, Leon Sisla iniciou o loteamento das terras. A proposta inicial, porém, poderia ter provocado uma alteração muito maior na vegetação da área. Foi nesse momento que entrou em cena o arquiteto Carlos Lemos, que trabalhava na Engenharia Sanitária do Departamento de Saúde e atuava como examinador de loteamentos.

Após analisar a primeira proposta, Lemos avaliou que ela destruiria uma parte significativa da vegetação. Sisla então pediu um novo projeto. A partir disso, foi desenvolvido um modelo de implantação que buscava preservar a vegetação natural à beira-mar, o jundu, as encostas do morro e as áreas próximas aos riachos.

A proposta se tornou uma experiência de ocupação associada à preservação ambiental, segundo o relato da professora doutora Mônica Junqueira de Camargo, que consta do  material.



Daí o nome 'praia dos Arquitetos'

A preocupação com o projeto acabou atraindo profissionais da arquitetura para a região. Entre os primeiros nomes associados às construções estão Sérgio Pilegi; João Walter Toscano; Renato Nunes; Plínio Croce; José Ricardo Gomes; Benno Peremulter; Pepe Asbun e Hebe Olga.

Também integram a lista os profissionais relacionados a projetos no local Carlos Lemos; Carlos Bratke; Eduardo de Almeida; Marcos Acayaba; Jorge Königsberger e Samuel Kruchin.

A presença desses profissionais ajuda a explicar por que a praia passou a ser conhecida como praia dos Arquitetos. O nome se tornou uma espécie de resumo da história de ocupação daquele trecho do litoral.



Uma praia pequena, mas cheia de possibilidades

Apesar da história envolvendo a ocupação das terras, a praia mantém características naturais que atraem quem procura um lugar mais tranquilo. As águas calmas e cristalinas têm boa visibilidade, enquanto a areia é fofa e apresenta tonalidade avermelhada. A orla é de jundus e árvores que garantem áreas de sombra.

O local é indicado para banho, mergulho, snorkeling, windsurfing, jet ski, stand-up paddle e wakeboarding. A praia também possui uma trilha paralela à faixa de areia. O percurso passa pela vegetação e é apontado como um local onde podem ser encontrados pássaros nativos da Mata Atlântica, borboletas, esquilos, lagartos, macacos, tatus e saruês, conforme as informações fornecidas.

No canto esquerdo, uma subida pela costeira leva a uma pequena praia pouco conhecida, chamada prainha da Vermelha do Sul ou praia do Amor Perfeito.



E onde fica a hospedagem?

A Vermelha do Sul não possui opções de hospedagem nem alimentação na própria praia. A estrutura disponível está relacionada às residências do condomínio e ao acesso pela região da Fortaleza. Por isso, apesar da presença de construções, a praia mantém uma atmosfera bastante diferente de trechos mais urbanizados de Ubatuba.

Como chegar à praia Vermelha do Sul

O acesso é feito pela entrada para a praia da Fortaleza, na altura do km 68 da BR-101. A partir da rodovia, são aproximadamente 3 quilômetros por uma via secundária asfaltada, no sentido da praia da Fortaleza. Depois, uma pequena caminhada leva até a faixa de areia.

Coordenadas: Latitude: -23.5099 Longitude: -45.1734



Praia conta sua história pela paisagem

A praia Vermelha do Sul pode parecer, para quem chega, apenas uma pequena enseada de águas tranquilas em área de mata. Mas a paisagem revela uma história bem mais complexa. Onde hoje surgem casas entre árvores, antes viviam famílias caiçaras.

Onde hoje existe uma estrada, antes o caminho era feito por trilhas e pelo mar. E onde poderia ter surgido uma ocupação mais intensa, foi adotado um projeto que buscou manter a vegetação integrada às construções.

É essa combinação entre natureza, arquitetura e memória que fez a praia Vermelha do Sul ganhar o apelido de praia dos Arquitetos e permanecer como um dos lugares de características mais particulares da região sul de Ubatuba.



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