MEMÓRIAS DO LITORAL

Praia do Léo: as pedras na areia escondem uma história que mudou Ubatuba

Refúgio na região norte do município tem natureza preservada, acesso por trilha e uma história marcada por um deslizamento

Praia do Léo com extensa faixa de areia, vegetação, pedras junto ao mar e um pequeno barco na orla
Praia do Léo mantém um cenário de vegetação exuberante e formações rochosas - Divulgação/Prefeitura de Ubatuba


Entre a rodovia Rio-Santos e as águas da baía do Ubatumirim, a praia do Léo é um daqueles lugares de Ubatuba que ainda conservam um cenário bem natural. A faixa de areia é acompanhada por vegetação nativa, ranchos de pescadores e grandes pedras, mas a paisagem atual também carrega as marcas de um acontecimento que mudou o formato da praia.

Com acesso por uma estrada de terra e uma curta trilha, o local tem mar normalmente tranquilo, poucas ondas e áreas com muitas pedras na rebentação. A praia não conta com estrutura turística, hospedagem ou alimentação, mantendo um perfil mais reservado.

Refúgio na Mata Atlântica

A praia do Léo fica na região norte de Ubatuba, a cerca de 19 quilômetros do centro, na baía do Ubatumirim, entre a praia do Prumirim e a praia do Meio. Quem passa pela rodovia Rio-Santos pode não perceber a entrada que leva até a praia.

O acesso ocorre na altura do km 27,7, seguindo por uma estrada de terra e cascalho. Depois de passar por uma propriedade particular, é necessário continuar por uma trilha de aproximadamente cinco minutos até chegar à faixa de areia.

O caminho curto termina em uma praia de grande beleza natural. A vegetação nativa acompanha a orla e ajuda a preservar o aspecto mais isolado do local. Em frente, a paisagem ainda revela a ilha e a ilhota do Prumirim, que completam o cenário.

Pedras contam parte da história da praia

Um dos detalhes que mais chamam atenção na praia do Léo está justamente na areia. Alguns trechos, principalmente no meio e no canto direito, são ocupados por muitas pedras que chegaram à praia após um grande deslizamento ocorrido em 1988.



Essas pedras são resultado da demolição de rochas feita durante a construção da rodovia Rio-Santos, na década de 1970. Anos depois, parte desse material foi levada para a praia durante o deslizamento.

Segundo relato de dona Neli, nascida e criada na região, e integrante de uma família que era proprietária das terras locais, o deslizamento teria sido provocado por infiltrações relacionadas a uma nascente de água. O morro veio abaixo e atingiu ranchos caiçaras, levou terra e pedras e dividiu a praia em duas partes.

Com o passar do tempo, a própria natureza começou a modificar novamente a paisagem. A areia avançou sobre parte das pedras e passou a recuperar alguns dos contornos originais da praia.



De vários ranchos a poucas construções

A praia do Léo também guarda lembranças de uma ocupação diferente da atual. No passado, havia vários ranchos de pescadores e algumas casas na região. Atualmente, existe apenas uma casa no canto direito da praia, segundo as informações fornecidas sobre o local.

Os sinais da presença dos pescadores ainda fazem parte da paisagem e ajudam a contar a história de uma região que, antes da urbanização das estradas, tinha uma relação ainda mais próxima com o mar. O local mantém um quiosque na beira da praia, associado à presença de dona Neli, que vive na região.

Mar tranquilo e praia sem estrutura turística

A praia do Léo possui areia grossa e fofa, vegetação nativa no entorno e águas normalmente tranquilas. Em alguns pontos da rebentação, porém, há concentração de pedras. A praia não oferece estrutura de turismo, hospedagem nem alimentação.



Por isso, quem pretende passar algumas horas no local deve considerar que encontrará um ambiente diferente das praias urbanizadas de Ubatuba. O perfil mais reservado é justamente uma das características do lugar, que costuma ser associado a quem busca contato com a natureza e tranquilidade.

Em períodos de chuva, o acesso pela estrada de terra também merece atenção, já que o percurso pode ficar mais difícil para veículos que não estejam preparados para esse tipo de terreno.

Casa que já chamou atenção no alto do morro

A região da praia do Léo também ficou conhecida pela propriedade onde viveu o estilista e deputado federal Clodovil Hernandes, apaixonado por Ubatuba. A residência ficava em uma área elevada, entre as praias do Léo e do Meio, em um local conhecido como Sertãozinho.



Segundo informações fornecidas, o imóvel tinha cerca de 20 cômodos, vista para o mar, piscina e uma capela, além de características marcantes ligadas ao estilo do antigo proprietário.

Em 2008, um ano antes da morte de Clodovil, ele foi condenado pela Câmara Especial do Meio Ambiente por obras feitas na propriedade, situada em área do Parque Estadual da Serra do Mar.

Parte das intervenções foi embargada pelos órgãos ambientais e uma parcela da estrutura precisou ser demolida por determinação judicial. Em 2018, a propriedade foi arrematada em leilão por R$750 mil, após outras tentativas de venda sem interessados.



Como chegar à praia do Léo

O acesso ocorre pela rodovia Rio-Santos, na altura do km 27,7, no sentido Ubatuba-Paraty. A entrada leva a uma estrada de terra e cascalho de aproximadamente 250 metros, seguida por uma trilha de nível fácil de cerca de 250 metros.

Em períodos chuvosos, o acesso pela estrada pode ficar mais complicado, e as informações do local não recomendam a descida com veículos que não sejam 4x4 nessas condições.

Coordenadas: latitude -23.3715, longitude -44.9500.



Um pedaço de Ubatuba que mudou com o tempo

A praia do Léo reúne aquilo que torna a costa de Ubatuba tão diversa: vegetação nativa, areia, mar tranquilo, costões e histórias que permanecem na paisagem. Hoje, as pedras espalhadas pela faixa de areia são uma lembrança visível de um deslizamento que transformou o local.

Ao mesmo tempo, a vegetação e a areia continuam redesenhando lentamente a paisagem. Para quem chega, a praia pode parecer apenas mais um refúgio pouco conhecido. Mas basta observar os detalhes para perceber que a praia do Léo carrega uma história que ainda pode ser vista na própria areia.

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