Espaços em cidades do interior recebem praticantes que deixaram de frequentar o litoral norte por falta de praia oficial de naturismo

Inexistência de praia oficial para prática do naturismo, no litoral norte paulista, tem provocado fuga de praticantes para cidades do interior, ou litoral do Rio de Janeiro.
Desde a década de 1990, movimentos e associações naturistas tentam oficializar algumas praias da região, mas sem êxito.
Oficialização garante privacidade, já que os têxteis, termo utilizado pelos naturistas para definir pessoas que utilizam roupas, têm entrada proibida. A não ser que fiquem totalmente nus.
No Brasil, há oito praias de naturismo: Tambaba, na Paraíba; as catarinenses Pedras Altas (Palhoça), Galheta (Florianópolis) e praia do Pinho (Balneário Camboriú); as fluminenses Olho de Boi (Búzios) e Abricó (Rio); Barra Seca, em Linhares (ES); e Massarandupió, em Entre Rios (BA).
Última tentativa de transformar uma praia do litoral norte em naturista ocorreu em 2018, em Ubatuba, segundo a FBrN (Federação Brasileira de Naturismo). De acordo com a entidade, a tentativa ocorreu por meio da NatVale, que, à época, era filiada à federação.
Projeto de lei neste sentido chegou a ser elaborado, mas, devido à pressão popular, foi retirado antes mesmo de ser apresentado à apreciação dos vereadores. Com isso, a praia Mansa se manteve aberta para todos os tipos de público.
Mesmo sem oficialização, alguns naturistas utilizam a praia Mansa e a vizinha Lagoa para a prática deste estilo de vida, por serem praticamente desertas. Porém, o movimento vem diminuindo ao longo dos anos, segundo alguns naturistas ouvidos.
É que, sem a oficialização do espaço, muitos buscam alternativas em outras cidades ou em espaços específicos.
Um deles é a Vila Naturista Nu Aconchego, localizada em Natividade da Serra, divisa com Ubatuba, a pouco mais de 100km do mar. A vila, que funciona em propriedade rural, promove encontros e festas nos quais as pessoas podem ficar sem roupas em convivência social e ter contato com a natureza.
Outro espaço privado direcionado a naturistas é o Rincão Clube Naturista, localizado em Guaratinguetá, a 142km de Ubatuba. Espaço tem piscina, sauna, quadras esportivas, áreas ao ar livre, camping, chalés, bangalôs e estrutura de lazer em ambiente rural.
Ambiente tem foco familiar e convivência naturista, seguindo normas éticas da Federação Brasileira de Naturismo.
Também ao lado de Ubatuba, em Paraty, litoral sul do Rio de Janeiro, há uma casa que funciona como meio de hospedagem pelo Airbnb, na qual grupos naturistas são recebidos. Ela serve como refúgio para quem não encontra, no litoral norte paulista, uma praia adequada para a prática do naturismo.
A empresária Renata Casarin, que reside em Iacanga, interior de São Paulo, na região de Bauru, frequentava o litoral norte com seu marido, mas acabou optando por visitar outras praias, mais distantes, devido à falta de um lugar oficial no litoral paulista.
Por morar a cerca de 450km do mar, Renata, que pratica naturismo há 10 anos com o marido, afirma que nem sempre consegue descer para o litoral.
“Somos do interior, portanto, nem sempre é possível sair, e quando dá, as praias são muito longe. Seria bacana se existissem outras praias mais próximas, como no litoral norte, mas acredito que a oficialização de uma praia naturista envolve muita política”, pontua. “No ano passado, fomos em João Pessoa e passamos na praia de Tambaba, mas fiquei triste, pois nem o restaurante estava funcionando. A prática do naturismo está cada vez mais difícil no Brasil”, lamentou.
A auxiliar de enfermagem e produtora cultural Márcia Cristina Assumpção, mais conhecida como Márcia Mística no meio naturista e proprietária da casa em Paraty, onde recebe o público naturista pelo Airbnb, também lamenta a falta de praia exclusiva para os praticantes no litoral norte paulista.
“A maioria dos naturistas federados está no estado de São Paulo, mas não há praia exclusiva no litoral”, diz ela que, em 2026, completará 35 anos de naturismo. “Quando o movimento começou a frequentar as praias Mansa e da Lagoa, em Ubatuba, por serem desertas, banhistas comuns passaram a visitar os lugares apenas para observarem os naturistas. Isso acabou afugentando os praticantes, pois há preconceito muito grande contra o naturismo. As pessoas não compreendem, elas misturam a prática, a filosofia naturista, com promiscuidade”, desabafa.
Segundo a FBrN, não há qualquer outro projeto em andamento para tentar oficializar alguma praia do litoral norte de São Paulo em reduto naturista.