DESTINO EUROPA

Prisão de jovens de Caraguatatuba expõe conexão com tráfico internacional de drogas

Com eles, foram apreendidos 2,8kg de cocaína presos aos corpos; um deles havia ingerido 13 cápsulas para despistar a fiscalização federal


Reginaldo Pupo
Publicado em 31/10/2024, às 16h42

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Agentes da PF durante apreensão de cocaína no aeroporto de Guarulhos - Foto Divulgação Polícia Federal
Agentes da PF durante apreensão de cocaína no aeroporto de Guarulhos - Foto Divulgação Polícia Federal


A recente prisão em flagrante, por porte de drogas, de dois jovens residentes em Caraguatatuba, no litoral norte paulista, enquanto aguardavam embarque para a França, no  aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, coloca o município na rota do tráfico internacional de drogas. Com eles, foram apreendidos 2,8kg de cocaína.

As prisões ocorreram individualmente por meio de operação de rotina da Receita Federal, que visa o combate ao contrabando e à apreensão de mercadorias, cujos valores ultrapassem a cota de US$ 1 mil em compras feitas no exterior. Durante essas abordagens, é comum os agentes da Receita localizarem drogas com alguns passageiros. Foi o que aconteceu com os dois jovens moradores de Caraguatatuba.

A Receita Federal reforça o monitoramento de alguns voos internacionais, especialmente os que se destinam à cidade de Paris, capital francesa, já que a rota é muito utilizada pelo tráfico internacional devido à facilidade de escoamento da droga a partir desta cidade para o restante da Europa e para a África.



Passageiros jovens, de baixa renda, que realizam viagens internacionais pela primeira vez, sem histórico de outros voos, recebem atenção maior da fiscalização, pois são usados como “mulas” para o transporte de drogas. A Receita Federal utiliza seu banco de dados para fazer cruzamento de informações dos viajantes internacionais.

Após selecionar alguns passageiros suspeitos, os agentes realizam a abordagem ainda nos fingers (equipamento que faz a ligação entre a aeronave e o saguão de embarque e desembarque).

Nervosismo

Durante as entrevistas, os agentes checam algumas informações, observando se os passageiros repassam dados corretos ou contraditórios, se as informações sobre a viagem têm alguma coerência ou se apresentam nervosismo. Quando isso ocorre, eles são enviados para uma bancada, em uma área restrita do aeroporto, para revista pessoal e nas bagagens.



Um dos suspeitos de Caraguatatuba, de 20 anos, que afirmou trabalhar como jardineiro e piscineiro, foi abordado antes de entrar no finger. As vestimentas e a forma como ele caminhava pelo aeroporto chamaram a atenção dos agentes. Ele afirmou que iria a Paris fazer turismo. Mas, ao ser questionado sobre o valor que teria pago pela passagem, disse não se lembrar, pois fora a mãe dele quem comprara o bilhete. Também não soube explicar quando a passagem teria sido emitida.

Devido à falta de informações coerentes, o agente da Receita Federal pediu que o suspeito entrasse em contato com sua mãe, por meio de um aplicativo de mensagens, para levantar os dados sobre a aquisição da passagem. Quando o agente percebeu que ele não tinha um histórico de conversas registradas com a própria mãe, o encaminhou para a bancada para realizar a revista.

Antes mesmo da revista, o suspeito confessou aos agentes que levava um volume preso ao corpo. Neste momento, foi dada voz de prisão e ele foi algemado. O suspeito admitiu que transportava 150 cápsulas com cocaína, e que havia ingerido 13 delas. No total, foi apreendido 1.6kg da droga, preso em seu abdômem.



Como o suspeito havia ingerido algumas cápsulas, os agentes da Receita Federal acionaram o serviço médico do aeroporto; ele foi encaminhado para um hospital. O jovem de 20 anos afirmou aos agentes que foi convidado para fazer o transporte da droga pelas redes sociais, e que, por esse serviço, receberia entre R$ 18 mil e R$ 21 mil. Os agentes informaram que, após o atendimento médico, ele seria encaminhado para a Polícia Federal, para responder pelo crime de tráfico internacional de drogas.

Cápsulas cotendo cocaína que foram ingeridas por traficantes - Foto Divulgação Polícia Federal
Cápsulas cotendo cocaína que foram ingeridas por traficantesm durante abordagens no aeroporto - Divulgação Polícia Federal



Segundo suspeito

Ao perceber que o colega havia sido escolhido para revista, o segundo suspeito cancelou a viagem. No entanto, os agentes foram informados pela companhia aérea que ele ainda estava no aeroporto tentando remarcar a passagem. Ao ser questionado pelos agentes, contou história semelhante ao do primeiro suspeito: que passaria sete dias em Paris para fazer turismo. Ele também afirmou que morava em Caraguatatuba e que trabalhava na instalação de pisos e azulejos.

O segundo suspeito também não conseguiu explicar como adquiriu a passagem. Inicialmente, disse que seria um primo, mas não soube dizer o nome. “Esqueci”, disse ele. Um dos agentes perguntou se o primo seria por parte de mãe ou pai. Ele respondeu que era “por parte de pai”, mas também não soube dizer, ao ser questionado, qual seria o nome do suposto tio, alegando que também se “esqueceu”. “Em cima da hora, assim, não lembro”, esquivou-se.

Como a história não batia, ele foi revistado. Em uma bolsa havia Є 500 em espécie, que ele afirmou que o primo lhe dera  para suas despesas em Paris. Sobre a hospedagem na França, também não soube explicar como a reserva teria sido feita, mas que o suposto primo, que ele havia “esquecido” o nome, seria o responsável pelo pagamento da hospedagem. 



Os agentes apreenderam com ele 1,2kg de cocaína presa ao corpo. Ele foi encaminhado à Polícia Federal. Em ambos os casos, a substância encontrada foi confirmada como cocaína, após análises feitas com narcoteste. Se condenados pelo crime de tráfico de drogas, com o agravante de ser internacional, os suspeitos poderão cumprir pena de cinco a 15 anos de prisão.

Recorde de prisões

Segundo a Polícia Federal informou ao Costa Norte, de janeiro a 30 de outubro deste ano, já foram presas 515 pessoas, por tráfico de drogas, no Aeroporto Internacional de Guarulhos,  54% a mais, se comparado com o mesmo período de 2023, quando houve 335 prisões. Durante o período, de acordo com o órgão, foram apreendidas mais de duas toneladas de drogas. Essa quantidade de presos por tráfico de drogas já supera o total anual de todos os anos anteriores, somente neste aeroporto.

O aumento no número de presos foi impulsionado pela prisão de 162 pessoas flagradas com drogas, na forma de cápsulas, dentro do aparelho digestivo (de janeiro até ontem, 30 de outubro). Somente neste mês, foram presas 18 pessoas até ontem (30). 



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