Parceria entre Butantan, USP e Hemocentro de Ribeirão Preto prevê testes com tecnologia CAR-T em pacientes com doenças autoimunes graves

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) firmou acordo de cooperação científica com o Instituto Butantan, o Hemocentro de Ribeirão Preto e a Universidade de São Paulo (USP), para o desenvolvimento de terapias avançadas contra doenças autoimunes.
A parceria, estabelecida na quarta-feira (17), prevê ensaios clínicos com a terapia celular CAR-T, para o tratamento de lúpus eritematoso sistêmico (LES) e miastenia gravis generalizada (MGg).
Os estudos cumprem as etapas regulatórias e dependem de submissão e aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O projeto visa disponibilizar o tratamento futuramente por meio do sistema único de saúde (SUS), o que beneficiará diretamente os pacientes da Baixada Santista e de todo o estado.
O diretor do Instituto Butantan, Esper Kallás, destacou o impacto do método biológico:
A terapia celular é um tratamento que tem revolucionado o combate ao câncer e às condições crônicas e autoimunes, pois age diretamente nas células afetadas por essas doenças. O objetivo da parceria é permitir que, futuramente, essa tecnologia avançada esteja disponível para os brasileiros, inclusive por meio do SUS”.
O lúpus eritematoso sistêmico consiste em uma doença inflamatória crônica de origem autoimune, com evolução rápida ou progressiva, que acomete diferentes órgãos e provoca febre, emagrecimento, perda de apetite e fraqueza. Já a miastenia gravis generalizada afeta a comunicação entre nervos e músculos, o que gera fraqueza muscular e causa dificuldades para engolir, falar e respirar.
Caso ocorra a aprovação da Anvisa, os estudos clínicos pretendem selecionar 16 pacientes adultos com lúpus e dez com miastenia gravis. O recrutamento dos voluntários ocorrerá no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) e no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo. Ambos os grupos incluirão indivíduos em estado grave que passaram por pelo menos dois tipos de tratamento convencional sem resposta adequada.
O diretor-presidente da Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto, Rodrigo Calado, apontou o pioneirismo do projeto no setor público:
Com esse novo passo, buscamos expandir o uso de terapias avançadas para doenças autoimunes graves, que já não têm opções de tratamento. Se os resultados forem favoráveis, o SUS estará na vanguarda mundial de terapias avançadas em sistemas públicos de saúde”.
A tecnologia CAR-T surgiu nos Estados Unidos em 2010 e modifica geneticamente os linfócitos T (células de defesa) do paciente para combater as células doentes. No Brasil, a estratégia entrou em fase de testes em 2019 contra a leucemia e o linfoma, com registro de 80% de eficácia na redução de tumores em casos sem resposta aos métodos convencionais.
Desde 2022, as instituições atuam de forma conjunta no Núcleo de Terapias Avançadas (Nutera), com unidades em São Paulo e em Ribeirão Preto, sob o financiamento da Fapesp por meio do programa Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCDs). Em 2024, os ensaios clínicos de fase 1 contra a leucemia linfoide aguda de células B e o linfoma não Hodgkin de células B apresentaram mais de 87% de eficácia contra casos graves.
*Com informações da Agência Fapesp