Pesquisa analisou 207 amostras de resíduos e identificou substâncias tóxicas que podem estar presentes em materiais antigos

Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros encontrou substâncias tóxicas associadas a possíveis danos à saúde, incluindo câncer, em resíduos de espumas, plásticos e artigos infantis. A pesquisa analisou materiais descartados que ainda podem ser reaproveitados e identificou compostos usados no passado pela indústria como plastificantes e retardantes de chama.
O alerta dos cientistas está relacionado principalmente ao reaproveitamento desses materiais. Segundo os pesquisadores, a reciclagem sem uma triagem química adequada pode fazer com que substâncias presentes em produtos antigos sejam transferidas para novos materiais ou cheguem ao meio ambiente.
O trabalho foi realizado por pesquisadores do Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista (ICTS-Unesp), em Sorocaba, em parceria com a Universidade de Birmingham, no Reino Unido. A pesquisa teve apoio da FAPESP.
Os pesquisadores investigaram a presença de ésteres organofosforados clorados, grupo de substâncias que já foi utilizado pela indústria como retardante de chamas e plastificante.
Esses compostos foram empregados em diferentes tipos de produtos devido à resistência ao calor e ao baixo custo. Entre os materiais que podem conter essas substâncias estão espumas de poliuretano utilizadas em móveis e colchões, peças plásticas de equipamentos eletrônicos, artigos infantis e materiais de isolamento usados na construção civil.
Entre os compostos analisados estão o tris (1-cloro-2-propil) fosfato, conhecido como TCIPP, além do TDCIPP e do TCEP.
De acordo com o estudo, essas substâncias apresentam potencial tóxico e podem afetar os sistemas endócrino e reprodutivo, além de apresentarem potencial relacionado ao desenvolvimento de câncer.
A exposição pode ocorrer por diferentes caminhos, como contato direto com materiais que contenham os compostos, ingestão ou inalação de poeira liberada durante a degradação desses produtos.
Ao todo, foram coletadas 207 amostras de quatro grupos de resíduos considerados pelos pesquisadores mais propensos a conter os compostos estudados.
Os materiais foram divididos em:
As amostras foram coletadas na região metropolitana de Sorocaba, no interior de São Paulo, em diferentes locais e atividades. Entre as fontes estavam um centro de desmanche de veículos, um aterro de resíduos de construção e demolição, associações de reciclagem e empresas que fabricam ou reformam estofados.
Segundo David Burgos, engenheiro ambiental da Unesp e autor do trabalho, 95% das amostras apresentaram pelo menos um dos compostos analisados em baixas concentrações.
Do total, 13 amostras ultrapassaram o nível considerado mais preocupante pelos pesquisadores.
Os cientistas destacam que a descoberta não significa que a reciclagem seja prejudicial. O problema apontado está na possibilidade de reaproveitar materiais antigos contaminados sem identificar previamente quais substâncias estão presentes neles.
Isso acontece porque a proibição do uso de determinados compostos em novos produtos não elimina automaticamente aqueles que já foram fabricados e continuam circulando.
Segundo Burgos, materiais antigos podem chegar aos sistemas de reciclagem e, caso não passem por análise ou tratamento adequado, os contaminantes podem ser transferidos para novos produtos.
O Brasil tem metas de reciclagem e promove logística reversa de eletrônicos pela Política Nacional de Resíduos Sólidos e tudo isso é necessário. Mas nossos resultados mostram que reciclar sem triagem química pode transformar a economia circular num vetor de recirculação de contaminantes”, afirma o pesquisador.
Os pesquisadores explicam que alguns retardantes de chama utilizados anteriormente já foram proibidos por acordos internacionais, como a Convenção de Estocolmo, da qual o Brasil é signatário desde 2004.
Um dos grupos que recebeu atenção foram os retardantes de chama bromados, conhecidos como PBDEs. Eles foram reconhecidos como poluentes orgânicos persistentes e passaram a ser restringidos.
Segundo os pesquisadores, parte desses compostos foi substituída por organofosforados clorados, que também apresentam toxicidade e potencial carcinogênico documentado, mas não são regulados da mesma maneira.
A pesquisa destaca, portanto, um desafio para a gestão de resíduos: materiais fabricados no passado podem continuar circulando mesmo depois que determinadas substâncias deixam de ser utilizadas em novos produtos.
Os pesquisadores defendem que a identificação dos contaminantes precisa envolver diferentes níveis da gestão ambiental.
Segundo eles, o Ibama atua no âmbito federal, enquanto órgãos estaduais, como a Cetesb, participam do licenciamento e da fiscalização dos geradores. Os municípios são responsáveis pela gestão local dos resíduos. A Política Nacional de Resíduos Sólidos também atribui ao gerador responsabilidades relacionadas à caracterização e ao monitoramento dos resíduos.
Procurado pela reportagem que divulgou o estudo, o Ibama informou que a atribuição para a triagem do material compete ao Grupo de Acompanhamento de Performance, formado por entidades nacionais que representam fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes de produtos eletroeletrônicos.
A Cetesb não havia respondido ao contato até a publicação da reportagem utilizada como fonte.
O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) informou que o uso de PBDEs na fabricação de novos equipamentos eletroeletrônicos já é proibido no Brasil, seguindo acordos internacionais.
A pasta destacou, porém, que o risco atual está relacionado a equipamentos antigos, como televisores e monitores de tubo fabricados antes de 2005. Segundo o ministério, a legislação permite que esses materiais antigos sejam reciclados até 2030.
O MMA também informou que os sistemas de logística reversa existentes oferecem mecanismos para coleta, triagem, rastreabilidade e destinação de resíduos eletroeletrônicos, mas não estabelecem um protocolo específico para testar a presença de PBDEs.
*Com informações - Agência Fapesp