INOVAÇÃO

Primeiro porco clonado do Brasil nasce com foco em doação de órgãos para o SUS

Projeto altera o DNA do animal para evitar rejeição imunológica no corpo humano; meta é abastecer a rede pública com tecnologia nacional


Redação
Publicado em 24/04/2026, às 09h22

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Primeiro porco clonado do Brasil nasce com foco em doação de órgãos para o SUS
Após gestação de quase quatro meses, o clone nasceu saudável no laboratório de Piracicaba e carrega sete genes humanos no DNA - Docme Comunicação para Genoma USP/Divulgação


Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) registraram o nascimento do primeiro porco clonado do Brasil e da América Latina. O animal, que nasceu com 1,7kg em um laboratório do Instituto de Zootecnia em Piracicaba (SP), representa a base de um projeto focado na geração de suínos com modificação genética. O objetivo central é extrair órgãos desses animais para transplantes em humanos de forma segura e sem rejeição imunológica.

A iniciativa reúne cientistas do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante (XenoBR), com liderança do cirurgião Silvano Raia, da geneticista Mayana Zatz e do imunologista Jorge Kalil. O projeto possui fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e parceria com a farmacêutica EMS.

O xenotransplante (transferência de órgãos entre espécies diferentes) esbarra na rejeição imediata do corpo humano. Para contornar a barreira de defesa do organismo, a equipe brasileira adotou a ferramenta de precisão CRISPR/Cas9.



Os pesquisadores inativaram três genes de origem suína responsáveis por induzir a rejeição. Em seguida, a equipe inseriu sete genes humanos nas células do animal para aumentar a compatibilidade com o receptor. Os embriões com o genoma editado foram para o útero de fêmeas híbridas. Após uma gestação de quase quatro meses, o filhote nasceu saudável.

Ernesto Goulart, professor do Instituto de Biociências da USP e pesquisador principal do XenoBR, afirma que a saúde do animal comprova o domínio do processo. A equipe aguarda o nascimento de novas gestações em andamento.

Por que o porco?

A ciência escolhe o porco como potencial doador em razão das semelhanças de tamanho e funcionamento dos órgãos em comparação aos dos humanos. A espécie também possui fácil domesticação, boa reprodução em cativeiro e gera ninhadas grandes. A linhagem escolhida pelo projeto brasileiro cresce rápido e, aos sete meses de idade atinge o peso necessário para transplante em um humano adulto de 80 quilos.



A estratégia dos pesquisadores envolve a produção inicial de poucos casais de clones. A partir desse núcleo de matrizes, a ideia é evoluir o plantel de animais por meio de reprodução natural, o que anula a necessidade de clonagens sucessivas.

Os porcos ficam em dois laboratórios de grau clínico construídos com apoio da Fapesp: um no campus da USP em São Paulo (aberto em 2024) e outro no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (aberto no fim de 2025). As áreas possuem nível de biossegurança 2 e controle sanitário extremo para impedir a transmissão de patógenos, bactérias ou vírus para o receptor humano.

Foco no SUS

O projeto tem a missão expressa de abastecer o Sistema Único de Saúde (SUS), atual responsável por financiar e conduzir de 90% a 96% dos transplantes no Brasil. A pesquisa focou em rins, córneas, corações e tecidos de pele, órgãos que representam 94% da demanda total da rede pública.



O domínio nacional da técnica libera o Brasil da dependência em relação aos países que hoje lideram as pesquisas globais na área, como Estados Unidos e China. Goulart aponta que a importação de órgãos estrangeiros tornaria os custos do SUS insustentáveis. Com a pesquisa na USP, a meta é fornecer órgãos por uma pequena fração do valor estimado nos mercados americano e chinês.

A China e os EUA já testam o método em pacientes terminais (uso compassivo). Os casos internacionais englobam corações que deram sobrevida de 60 dias aos pacientes e um rim de porco que funcionou por mais de 270 dias em um humano.

* Com informações da Fapesp



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