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O câncer está sendo descoberto tarde demais? Estudo revela aumento das emergências no SUS

Estudo da Unifesp analisou quase 5 milhões de registros entre 2008 e 2024 e identificou aumento também nos óbitos hospitalares

Paciente em emergência hospitala r, usando roupa médica, com acesso intravenoso conectado ao braço
Levantamento aponta crescimento das emergências oncológicas no SUS ao longo de 16 anos - Pexels


As internações de urgência relacionadas ao câncer cresceram, em média, 3,5% ao ano no Sistema Único de Saúde (SUS) entre 2008 e 2024. No mesmo período, os óbitos hospitalares aumentaram 4,1% ao ano. Os dados fazem parte de um estudo de pesquisadores da Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), que analisou cerca de 5 milhões de internações de urgência registradas no país.

O levantamento, apoiado pela Fapesp e publicado em junho na revista Cancer Epidemiology, chama atenção para um cenário que pode estar relacionado, entre outros fatores, ao diagnóstico tardio do câncer e às dificuldades de acesso ao tratamento.

O crescimento permaneceu mesmo depois que os pesquisadores ajustaram os resultados considerando o envelhecimento da população brasileira. Como a idade é um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento do câncer, a equipe avaliou se o aumento das emergências poderia ser explicado apenas pelo fato de haver mais idosos no país.

Mesmo com o ajuste, porém, a alta das internações e dos óbitos continuou. Para os pesquisadores, isso indica que outros fatores também podem estar contribuindo para o agravamento do cenário, entre eles o funcionamento do sistema de saúde e o caminho percorrido pelo paciente até conseguir diagnóstico e tratamento.

O que são emergências oncológicas?

As chamadas emergências oncológicas ocorrem quando o câncer provoca complicações graves que exigem atendimento médico imediato. Isso pode ocorrer quando a doença deixa de estar localizada e passa a comprometer rapidamente o funcionamento de órgãos e sistemas.

Entre as situações citadas no estudo estão a compressão da medula espinhal, que pode provocar paralisia; a insuficiência respiratória causada pela disseminação do tumor para os pulmões; a obstrução intestinal; infecções graves relacionadas à queda da imunidade; e alterações metabólicas, como a hipercalcemia associada à malignidade.

Lucas Leite Cunha, professor da disciplina de medicina de urgência e medicina baseada em evidências, da Unifesp, e coordenador da pesquisa, explica que uma emergência oncológica ocorre quando o tumor passa a provocar um comprometimento grave do organismo.

Uma emergência oncológica ocorre quando o tumor rompe o equilíbrio com o organismo e começa a provocar o colapso dos sistemas respiratório, cardiovascular, renal, neurológico ou hematológico. É um paciente que chega muito grave ao pronto-socorro e precisa de atendimento imediato”, afirma.

Diagnóstico tardio pode estar entre os fatores

Segundo Cunha, o cenário encontrado nos atendimentos do SUS é diferente do que seria esperado quando o câncer é identificado em fases iniciais. Nesses casos, o paciente pode ter mais possibilidades de tratamento e de cura.

O problema é que parte dos pacientes chega ao hospital somente depois que o câncer já provocou uma complicação grave. Em outros casos, a pessoa já recebeu o diagnóstico, mas enfrenta demora para iniciar o tratamento ou apresenta rápida progressão da doença.

Em muitos casos, o primeiro contato da pessoa com o sistema de saúde em razão do câncer acontece justamente na emergência”, afirma o pesquisador.

O estudo, no entanto, não conseguiu determinar quantos pacientes ainda não tinham diagnóstico de câncer quando foram internados por uma emergência oncológica. Segundo os pesquisadores, essa informação não está disponível na base de dados utilizada.

Por isso, os resultados não permitem afirmar que o crescimento das internações ocorreu diretamente por falhas no diagnóstico precoce. A pesquisa aponta o diagnóstico tardio e as dificuldades de acesso ao tratamento como possíveis fatores associados ao cenário, que deverão ser investigados em outras etapas do trabalho.

A equipe pretende acompanhar pacientes da rede pública prospectivamente para compreender melhor quantas pessoas chegam às emergências sem saber que têm câncer.

Mulheres, idosos e pessoas pretas e pardas são mais afetados

O levantamento também identificou desigualdades no crescimento das internações e dos óbitos. A alta foi mais acentuada entre mulheres, pessoas pretas e pardas, idosos e moradores das regiões Norte e Nordeste.

Para os pesquisadores, as diferenças podem estar relacionadas a desigualdades históricas no acesso ao rastreamento, diagnóstico precoce, tratamento especializado e serviços de urgência.

A análise também reforçou que o envelhecimento da população, sozinho, não explica o aumento observado. Mesmo depois do ajuste estatístico pela idade, a tendência de crescimento permaneceu.

Se as emergências oncológicas acontecessem apenas por causa do envelhecimento, esse crescimento desapareceria depois do ajuste estatístico. Mas ele continuou existindo”, explica Cunha.

Atendimento de emergência pode exigir tratamentos complexos

As complicações provocadas pelo câncer podem levar o paciente a precisar de atendimento hospitalar de alta complexidade. Dependendo da situação, podem ser necessários recursos como UTI, ventilação mecânica e hemodiálise, segundo o pesquisador.

Cunha defende, por isso, o fortalecimento das estratégias de prevenção, rastreamento, diagnóstico precoce e acesso ao tratamento especializado. Para o professor, identificar a doença antes que ela provoque uma emergência pode beneficiar tanto o paciente quanto o sistema público de saúde, já que casos graves podem demandar uma estrutura hospitalar mais complexa e apresentar menor possibilidade de recuperação.

O estudo foi desenvolvido por pesquisadores da EPM-Unifesp e integra uma linha de pesquisas dedicada às emergências oncológicas.

*Com informações - Agência Fapesp 

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