VENTANIA NO LITORAL

O que é vento isalobárico, efeito climático que provocou rajadas acima de 100km/h no litoral de SP

Entenda como a rápida variação da pressão atmosférica aumentou a força dos ventos no litoral de São Paulo e causou o fenômeno frente de rajada

O que é vento isalobárico, efeito climático que provocou rajadas acima de 100 km/h no litoral de SP
Dia ensolarado e quente mudou drasticamente em poucos minutos - Reprodução/Redes Socias


O dia ensolarado e quente de quarta-feira (29) mudou drasticamente em poucos minutos e deu lugar a uma forte ventania, que transformou todo o litoral de São Paulo. Árvores caíram, embarcações ficaram à deriva, o porto de Santos precisou interromper operações e rajadas superiores a 100km/h surpreenderam até meteorologistas

Embora a frente fria já estivesse prevista, a intensidade dos ventos chamou a atenção por ter sido potencializada por um episódio pouco conhecido do público: o vento isalobárico. Segundo o climatologista Rodolfo Bonafim, o episódio mostra que a força do vento nem sempre está relacionada apenas à intensidade de uma área de baixa pressão. 

No caso de quarta-feira, o sistema atmosférico era relativamente modesto, com cerca de 1.008 milibares, mas cruzou o litoral paulista em alta velocidade e provocou mudança brusca da pressão atmosférica".

O climatologista conta que foi justamente essa rápida oscilação que desencadeou o chamado vento isalobárico, que ocorre quando a pressão do ar varia intensamente em um curto intervalo de tempo e cria uma aceleração extra do vento. Na prática, esse mecanismo pode acrescentar entre 20km/h e 30km/h às rajadas inicialmente previstas pelos modelos meteorológicos.



Ao mesmo tempo, a chegada da massa de ar frio provocou um choque térmico expressivo. Em poucas horas, a temperatura despencou de 34,2°C para 24°C, enquanto a umidade relativa do ar saltou de 29% para 69%. Essa combinação aumentou ainda mais a instabilidade atmosférica e favoreceu a formação de rajadas extremamente intensas.

Direção dos ventos

Outro fator decisivo foi a mudança da direção dos ventos. Inicialmente soprando de noroeste, eles passaram rapidamente para sudoeste. Ao cruzar o mar antes de atingir a costa, encontraram menor atrito e conseguiram manter velocidades muito superiores às registradas sobre áreas urbanas, onde prédios, árvores e o relevo da Serra do Mar normalmente reduzem sua intensidade.

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Bonafim explica que os modelos meteorológicos acertaram a previsão da frente fria, mas subestimaram a velocidade de deslocamento da baixa pressão e a intensidade do choque entre as massas de ar quente e frio. "Somente poucas horas antes da tempestade, modelos de alta resolução, alimentados por dados de estações meteorológicas, conseguiram identificar o aumento do gradiente de pressão, permitindo que a Defesa Civil emitisse alertas praticamente em cima da hora", disse.



Os registros da pressão atmosférica ajudam a explicar o comportamento incomum dos ventos. Entre o meio-dia e aproximadamente 14h30, a pressão aumentou cerca de oito milibares, uma variação considerada excepcional para um período tão curto. Para efeito de comparação, na meteorologia uma mudança de apenas três milibares já é suficiente para indicar um evento significativo.

Frente de rajada

Na avaliação do climatologista, o fenômeno que atingiu o litoral paulista pode ser classificado tecnicamente como uma frente de rajada: uma passagem rápida de uma frente fria capaz de produzir ventos destrutivos sem a necessidade da formação de um ciclone de grande intensidade. O resultado foi um evento raro, de curta duração, mas suficiente para provocar estragos em diversas cidades da costa paulista.

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