PETRÓPOLIS

População negra de Petrópolis é a mais afetada pelo desastre, alerta pesquisadora

Apesar de ser minoritária na cidade, população negra é maioria nas áreas mais afetadas, apontam dados do IBGE. Pesquisadora argumenta que disparidade é indicador de racismo ambiental


Thiago S. Paulo
Publicado em 21/02/2022, às 11h27 - Atualizado às 16h44

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Aglomerados subnormais (favelas) de Petrópolis e sua área de influência. 60% da população é negra. Favelas - IBGE - População negra de Petrópolis é a mais afetada pelo desastre, alerta pesquisadora Mapa de favelas de Petrópolis - Censo Demográfico, 2010. FIBGE.
Aglomerados subnormais (favelas) de Petrópolis e sua área de influência. 60% da população é negra. Favelas - IBGE - População negra de Petrópolis é a mais afetada pelo desastre, alerta pesquisadora Mapa de favelas de Petrópolis - Censo Demográfico, 2010. FIBGE.


Os últimos registros apontam que 171 pessoas morreram na tragédia de Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro. Outras 126 pessoas continuam desaparecidas. Há dois dias, no 5º dia de buscas, as autoridades disseram que havia pouca esperança de encontrar sobreviventes entre as dezenas de desaparecidos. O número de desabrigados se aproxima de mil.

Seis dias antes, na última terça (25), após uma tempestade, Petrópolis foi assolada por enxurradas, deslizamentos de terra e enchentes.

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Ocupação desordenada, topografia local acidentada e cravada em área serrana, desmatamento, políticas públicas de habitação ineficientes e protocolos de prevenção ainda piores estão entre a conjunção de fatores apontados por especialistas para a magnitude da tragédia.

No entanto, pesquisadores e ativistas têm alertado para indicadores de que a população negra de Petrópolis tem sido a mais afetada pelo desastre. A pesquisadora de Planejamento Urbano da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Rita Maria da Silva Passos, afirma que há uma disparidade entre a população branca e não-branca da cidade em geral e dos locais mais assolados.  

“Quando observamos os dados da população da Cidade Imperial de Petrópolis observamos que a maioria da população se declara branca, conforme o Censo Demográfico do IBGE, 2010. A população negra tanto no município quanto no distrito sede, o mais atingido pelas chuvas, não ultrapassa os 40%. Contudo, quando observamos a população em aglomerados subnormais (favelas) há um salto na concentração de negros (somando pretos e pardos) para 61%, são estes aglomerados, onde se concentram a população negra, os lugares mais atingidos”, argumentou a professora.



Um confronto de um levantamento das áreas mais afetadas, divulgado na última quarta (16) pela Folha, com o mapa do IBGE dos aglomerados subnormais de Petrópolis – cuja maioria da população é negra – mostra que entre as 12 áreas com ocorrências mais graves, nove eram aglomerados subnormais ou estavam em sua área de influência direta, incluindo o Morro da Oficina e a Rua 24 de Maio, as duas áreas cuja população foi mais fustigada pela catástrofe.

Ocorrências mais graves: 1 - Morro da Oficina; 2 - 24 de Maio; 3 - Caxambu; 4 - Sargento Boening; 5 - Moinho Preto; 6 - Rua Uruguai; 7 - Rua Washington Luiz; 8 - Coronel Veiga; 9 - Vila Militar; 10 - Vila Felipe; 11 - Avenida Portugal; 12 - Rua Honorato Pe (Imagem: Reprodução / Folha de São Paulo)
Aglomerados subnormais (favelas) de Petrópolis e sua área de influência. 60% da população é negra. Favelas - IBGE - População negra de Petrópolis é a mais afetada pelo desastre, alerta pesquisadora Mapa de favelas de Petrópolis (Censo Demográfico, 2010. FIBGE.)

Passos, que é membro da RBJA (Rede Brasileira de Justiça Ambiental) afirma que, antes de ser obra do acaso, a maioria negra nas regiões mais afetadas é, por seu turno, um entre vários indicadores do racismo ambiental.

De acordo com Robert Bullard*, o conceito racismo ambiental se refere a qualquer política, prática ou diretiva que afete ou prejudique, de formas diferentes, voluntária ou involuntariamente, a pessoas, grupos ou comunidades por motivos de raça ou cor”, explica a pesquisadora.



“A expressão suscita estranheza e há quem ache que teria sua dose de oportunismo e ‘apelação’. Mas olhe a cor da pele de quem mora nas favelas sobre os morros, nos beira-rios e beira-trilhos; olhe a cor da pele de expressivo número dos corpos levados pelas enchentes, soterrados pelos deslizamentos”, explica Selene Herculano, professora aposentada de Sociologia Ambiental pela UFF (Universidade Federal Fluminense), em seu texto “Racismo ambiental, o que é isso?”.

“Esta ideia [de racismo ambiental]”, prossegue Passos, "se associa com políticas públicas e práticas industriais encaminhadas a favorecer as empresas impondo altos custos às pessoas de cor. A questão de quem paga e quem se beneficia das políticas ambientais e industriais é fundamental na análise do racismo ambiental”.

Segundo a pesquisadora, o surgimento de um movimento ambientalista não-branco no cenário internacional “revela que não há benefícios econômicos à população não branca, revelando que a poluição não é ‘democrática’. Ou seja, não somos todos(as) igualmente responsáveis pela degradação ambiental. Isso vale tanto para a perspectiva de quem a produz, quanto do ponto de vista de quem é vítima do dano ambiental”, conclui.                                         



*Robert Bullard é um sociólogo norte-americano, muitas vezes descrito como o “pai da justiça ambiental”. Além de vários livros sobre o assunto, ele é conhecido por seu trabalho em que levou a público a poluição em comunidades de maioria negra nos EUA  e por suas manifestações contra o racismo ambiental nas décadas de 1970-1980.

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