Apesar do susto, pescador esportivo conseguiu se proteger e devolver cobra em segurança à vegetação. Coral verdadeira não é agressiva, mas veneno é mortífero, explica biólogo das cobras

Um cabeleireiro praticante de pesca esportiva passou quase uma hora com uma coral verdadeira (Micrurus Coralinus), uma das serpentes mais venenosas do mundo animal, dentro de seu caiaque, durante uma pescaria coletiva no Rio Itajaí-Açu, em Blumenau (SC) no último domingo (27).
“Eu vi uma coisa colorida, mas não dei tanta bola, porque, na minha cabeça, era uma isca artificial – que estava bem perto do meu pé, inclusive”, afirmou o caiaqueiro Wagner de Oliveira, de 38 anos, que protagonizou o encontro com a cobra. Após o susto, com a ajuda de seus companheiros de pescaria esportiva, Wagner conseguiu retirar a cobra do caiaque e devolvê-la à natureza em segurança.
O caso foi divulgado neste sábado (5) pelo biólogo, divulgador científico e especialista em herpetologia (anfíbios e répteis) Henrique Abrahão Charles, dono de um dos maiores canais dedicado às cobras do youtube que leva seu nome e credencial o “Biólogo Henrique o Biólogo das Cobras”. “Ele chegou até mim pelo nosso grupo de estudos de serpentes no Facebook, e fiz um vídeo”, disse ao Portal Costa Norte.
No vídeo (assista acima) veiculado pelo divulgador científico, Wagner afirma que estava em uma pescaria no Rio Itajaí, com um grupo de três amigos, cada um em seu caiaque, quando, cerca de 40 minutos após deixar as margens, notou o que antes havia imaginado ser uma isca artificial se esgueirando por seu pé.
“Quando eu olhei de novo pra baixo, assim, rápido, eu vi que aquela coisa estava em cima do meu pé, andando. Aí, pensei comigo, minha isca não tá em cima do meu pé, andando, quando eu vi estava em cima do meu pé, tentando descer meu pé. Eu não senti, porque estava com uma meia bem grossa que eu uso na pescaria para não me queimar com o sol”.
Após perceber que uma coral dividia o caiaque com ele, Wagner teve sangue frio e não matou a serpente, apenas a manteve afastada com um remo. “Como eu não gosto de matar o animal, na hora, ali, me preocupei com ela não me picar”, relembra o caiaqueiro, que completa, com bom humor.
“Esperei ela descer. Quando ela desceu, levantei o pé pra cima e gritei. ‘Olha a cobra!’. Quando eu falei olha a cobra, [meus amigos saíram] chutando caiaque pra tudo quanto era lado, sai daqui, me empurra pra lá. Quando eu falei cobra, na hora do susto, eles acharam que a cobra estava no rio. Até eles entenderem que a cobra estava no meu caiaque levou um certo tempo.”
Wagner afirma que, passado o susto, entrou no caiaque de um companheiro, e, com um graveto pego na vegetação, conseguiu devolver a cobra à natureza em segurança.
O especialista em cobras explica que encontros do tipo, em que corais verdadeiras demonstram mansidão não são incomuns. “Ele não é a primeira pessoa que tem encontro com cobra coral e sai meio que ileso. Porque essas cobras, por mais peçonhentas que sejam, costumam ser bastante dóceis”, afirma o biólogo, que argumenta.
“Acidentes com cobra coral correspondem a menos de 1% dos acidentes [envolvendo seres humanos]. A gente coloca mais ou menos, em média, de 86 a 90% dos acidentes com a jararaca, entre 7 e 10% com a cascavel, e 2,9% com a surucucu e menos de 1% com a cobra coral, porque é realmente muito difícil você se acidentar com ela.”
Embora não possua temperamento ou anatomia que favoreçam as picadas, a coral verdadeira, parente das mambas e das najas, tem um veneno mortífero, explica o herpetologista.
“A boquinha dela não abre muito. Em suma, a boca desse animal não é uma boca igual a de uma jararaca que abre o bocão e pica. Mas ela tem uma peçonha que tem um peso molecular um pouco mais baixo [que] percorre facilmente pelo sistema linfático [vasos sanguíneos] e com isso vai te afetando naquilo que é péssimo pra gente - que é justamente você ter um problema neural”.
A mordida, prossegue o especialista, "vai afetar essa ligação entre o sistema nervoso e o sistema muscular esquelético, ela vai afetar os seus neurônios. E você vai ter problema na musculatura do diafragma, você não vai conseguir respirar direito, e não respirando direito, cérebro sem oxigênio, óbvio, né? Essa é a peçonha da cobra coral. Uma peçonha poderosíssima. Uma peçonha que dali a duas horas você já está indo para níveis preocupantes. A gente sempre fala pra quando a pessoa for picada, já vai direto pro hospital, e é isso que se deve fazer”.
Segundo o biólogo, Wagner agiu bem em conter a cobra com o remo, preservando sua integridade, e, em seguida, deixando o animal nas margens do rio em segurança. “Está de parabéns, porque, ao invés de simplesmente ir lá e matar o animal, foi lá e resgatou o animal”.