Caso, registrado em área rural de Pernambuco, foi divulgado por biólogo das cobras que explica: “Registro raro de canibalismo”

Francisco Irineu de Souza, um simpático mototaxista de 36 anos, se deparou com uma cena incomum do mundo animal ao fazer uma visita aos pais em uma área rural de Dormentes, uma cidadezinha com menos de 20 mil habitantes, a cerca de 750 km de Recife, em Pernambuco.
Enquanto a família toda conversava na frente de casa em um fim de tarde de domingo, como manda a tradição, duas cobras da mesma espécie batalhavam na cama da mãe, como manda o instinto animal. “A correria foi grande lá em casa. Era gente brigando, gente correndo com medo”, contou o mototaxista ao biólogo, especialista em herpetologia (anfíbios e répteis) e divulgador científico, Henrique Charles Abrahão, que divulgou o caso e fez uma análise do comportamento dos animais registrado em vídeo pelo mototaxista (assista abaixo).
“O vídeo me foi enviado pelo Irineu, lá no meu grupo de identificação de serpentes”, disse Charles Abrahão ao Portal Costa Norte nesta quinta (24). O biólogo mantém um dos maiores canais relativos às serpentes do Youtube que leva seu nome e credencial, o ‘Biólogo Henrique, o Biólogo das Cobras’. Foi lá, nesta quarta (23), que o pernambucano explicou em detalhes o flagrante, ocorrido dias antes, no último dia 13.
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Irineu afirma que um irmão, após ter frustrada uma soneca, lhe avisou que duas cobras se engalfinhavam na cama da mãe. “Eu estava mexendo no celular, já corri pra lá, eu e meu cunhado. Mãe já partiu brigando dizendo que era pra matar, pai do mesmo jeito. Aí eu digo, ‘Não. Que matar o quê. Peraí, tenha calma, não é assim não”.
No vídeo registrado pelo mototaxista, as duas cobras, provavelmente caídas de fendas no telhado, praticam uma estranha dança, uma enrolada no corpo da outra, sobre a cama. “Elas tão é brigando”, diz uma pessoa, intrigada. “Brigando nada, tão metendo a boca”, remenda outra.
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De acordo com o biólogo, as cobras são da mesma espécie e, de fato, uma está tentando engolir a outra - o que caracteriza canibalismo. “São duas boirunas sertanejas, ou muçuranas, como são vulgarmente conhecidas. Duas cobras pretas devoradoras de outras cobras. Uma está devorando a outra”, explica.
Segundo ele, registros em vídeo de canibalismo das boirunas são raridade. “Isso é raríssimo, não existe registro oficial filmado desse canibalismo aí. E aí, eu volto a lembrar, como as cobras são ritualísticas na hora de predar. A jiboia [por exemplo], vai lá, preda, se enrola. E o animal [enquanto preda] é como se ele não percebesse o mundo externo. A boiruna faz constrição também. E ela continuou comendo como se nada tivesse acontecido”.
Com bom humor, Irineu afirma que teve de explicar para parentes e visitantes que, apesar do impacto visual da dança canibal na cama da mãe, as cobras eram inofensivas. “Tinha duas senhoras que estavam lá fazendo visita, uma disse, 'Oxi! Hoje eu não vou dormir de noite’. Eu falei ‘Não, que isso, são inofensivas essas cobra aqui, não faz perigo pra ninguém. Elas come uma série de animais que podem causar problema”.
Passado o susto e com os parentes convencidos a não matar as cobras, também coube ao mototaxista tirar as cobras do local onde a mãe dorme. A solução, explica ele, foi engenhosa.
“Enrolei um lençol pra que uma não soltasse a outra e saí com meu cunhado na estrada. Aí peguei, soltei lá na estrada, mais ou menos uns 500 metros da casa de meu pai. Tive que tirar o lençol, elas ainda estavam no mesmo processo, uma engolindo a outra. Eu fui puxando bem devagarinho, até que consegui deixar elas no chão. Depois peguei um pedacinho de pau e fui puxando lentamente pra dentro do mato. Aí pronto, deixei dentro do mato, pra que ninguém matasse elas, e vim me embora”.
O biólogo elogiou a atitude do mototaxista. “[Irineu demonstrou] consciência ambiental e ecológica. Ele enrolou as cobras em um lençol e soltou. Está de parabéns, porque ele não deixou matar”.
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