Moradores de vila no Rio de Janeiro foram surpreendidos por cobra coral se esgueirando pelo telhado e entraram em pânico. Especialista identificou que cobra não é coral verdadeira e não é venenosa. Animal, porém, é da América do Norte e, na natureza brasileira, pode virar praga. Assista

O surgimento de uma cobra coral exótica provocou pânico entre moradores de uma vila em Padre Miguel, na Zona Oeste do Rio de Janeiro (RJ) na noite desta terça (15).
“Eu fiquei morrendo de medo. Os vizinhos já gritaram. Todo mundo vedando a casa toda, botando pano embaixo da porta, fecharam tudo. Aqui em casa também não foi diferente, eu fechei tudo”, afirmou o balconista de 24 anos Marcus Ramôa, um dos moradores da vila, conhecido como Rinka.
O caso foi divulgado na noite desta quarta (16), dia seguinte à noite de terror na vila, pelo biólogo, divulgador científico e especialista em herpetologia (anfíbios e répteis) Henrique Abrahão Charles, dono de um dos maiores canais dedicado às cobras do Youtube que leva seu nome e credencial o “Biólogo Henrique o Biólogo das Cobras” (assista abaixo).
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O temor de Rinka e de seus vizinhos se deu pelo padrão de coloração da cobra que, para olhos destreinados, é da mortífera coral verdadeira. “Essa cobra é uma cobra exótica, é uma Lampropeltis, ela não é uma coral verdadeira. É inofensiva, não tem peçonha. [Mas] o Marcos entendeu que era uma cobra coral [verdadeira]. Ele ficou aterrorizado de madrugada ali, mexendo, vendo pra onde ela ia”, explica o biólogo, nas imagens.
Em depoimento no vídeo explicativo do especialista, Rinka relata que jantava com sua mãe, quando foi alertado por uma vizinha de que uma cobra se esgueirava pelos telhados.
“Estava com a minha mãe, assistindo o Big Brother, comendo uma pizza e, de repende, a vizinha bateu na porta, chamando minha mãe, vi minha mãe ficando surpresa e notei que era algo sério. Fui lá e vi a vizinha falando que tinha visto uma cobra coral, falei ‘caraca’”.
Alertado, Rinka saiu em desespero pela vila que reúne várias casas em busca da cobra que demorou a dar as caras entre as frestas das telhas. “Comecei a revirar a casa toda, entrei em desespero, falei ‘caraca, essa bixa vai pegar minha cachorra, vai matar minha cachorra’. Terminei de comer a pizza e falei, ‘vou procurar ela de novo’, foi o momento que eu encontrei ela aqui”, diz o jovem, apontando para o telhado do primeiro andar da vila.
Rinka afirma que, após finalmente avistar a cobra, ainda acreditando que se tratava da letal coral verdadeira, vigiou o animal enquanto tentava contatar autoridades ambientais, mas foi informado de que eles só poderiam ir ao local no outro dia. “Ai eu falei, ‘caraca, vou ter que ficar tomando conta de uma cobra’ e fiquei sentado olhando ela”, relembra o balconista.
Na tarde desta quarta, um suposto dono da cobra apareceu na vila e recolheu o animal. O encontro, registrado por Rinka, também foi exibido no canal do divulgador científico. Nas imagens, o homem pega o animal enquanto os moradores da vila se apavoram.
“Achou ela? Aí meu Deus do céu”, diz uma moradora enquanto o homem vasculha atrás de um botijão de gás. “Vem cá coral. Sua fujona” diz o suposto dono da cobra demonstrando intimidade com o animal. “faz mal a ninguém não”, diz ele, enquanto tasca um beijo na serpente.
Apesar do transtorno, nenhum morador se machucou ou machucou a cobra que foi recapturada aparentemente em segurança. Tudo parece bem, exceto por um detalhe: a cobra não é brasileira.
“Essa cobra é uma cobra exótica, ela é uma cobra norte-americana, ela não é uma cobra brasileira e ela não deveria estar ali”, alerta o herpetologista. “A Lampropeltis é uma king snake [não confundir com king cobra]. São cobras que existem na América do Norte. Elas se alimentam de lagartos e de outras cobras e possuem muito hibridismo entre elas, de modo que às vezes é difícil identificar até a espécie”.
Segundo Charles Abrahão, a cobra, encontrada em criadouros, por não ser natural do Brasil, caso fuja, é potencialmente perigosa para o equilíbrio ambiental.
“Não é prudente que uma cobra dessas consiga escapar. Porque uma vez que um animal desse foge e vai pra natureza, já é sábido que várias serpentes podem fazer partenogênese, onde uma fêmea não precisa de macho e consegue se reproduzir. Pode se tornar praga, porque vai causar um desequilíbrio ambiental. Isso é preocupante, criadores clandestinos e etc. A probabilidade de ser legalizada existe, mas é muito baixa. De modo que é bom dar uma olhada na titulação dessa cobra, se ela está legalizada ou se não está”, recomenda o especialista em anfíbios e répteis.
O Portal Costa Norte tentou, nesta quinta, contato com o proprietário da cobra para questioná-lo sobre a legalização do animal, mas ele não respondeu.