CURIOSIDADE

Som que anuncia o verão: por que as cigarras cantam

As cigarras funcionam como relógio natural e, algumas espécies, emergem apenas a cada 13 ou 17 anos, números primos, como na criptografia moderna


Marcus Neves Fernandes
Publicado em 18/12/2025, às 09h59

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cigarra
O canto das cigarras ecoa pelas árvores e anuncia o verão como símbolo de recomeço na natureza - Valclei Lemos / Arquivo CN


Verão é sinônimo de praia, Sol forte, sorvetes, e cigarras. Cigarras? Sim, mas isso não quer dizer que elas só “existam” nessa época, nem que o verão delas siga o nosso calendário, com data e hora para começar e terminar.

O que realmente importa são as condições do ambiente. Quando temperatura, luz e umidade atingem determinados níveis, esses insetos iniciam um dos comportamentos mais marcantes do reino animal: o chamado “canto”, que, na verdade, faz parte do ritual de acasalamento.

Dependendo do ano e da região, a cantoria pode começar já em outubro e se estender até dezembro ou janeiro. Esse sincronismo impressionante transformou as cigarras em um verdadeiro relógio natural para diferentes culturas humanas.



Em áreas da Amazônia, por exemplo, o som desses insetos indica o momento do plantio. Quando o canto cessa, diz o saber popular, as chuvas estão prestes a começar. Algo semelhante ocorre em regiões da África, onde se acredita que, quanto mais alto o canto, mais intensas serão as chuvas.

No litoral paulista, o fenômeno também se repete. O verão traz dias mais longos e maior incidência de chuvas, dois sinais que não passam despercebidos pelas cigarras. Pequenas alterações na seiva das árvores e no solo funcionam como gatilhos para o início de mais um ciclo reprodutivo. E dá-lhe cantoria.

Apesar da fama de aparecerem “do nada”, as cigarras estão longe de ter uma vida curta. Algumas espécies da América do Norte, conhecidas como cigarras matemáticas, vivem cerca de 17 anos.



Desse tempo, passam aproximadamente 99% de suas vidas debaixo da terra, alimentando-se da seiva das raízes. Elas emergem por apenas algumas semanas, produzem seu som característico para atrair parceiros, depositam os ovos e morrem.

cigarras mortas
Cigarras mortas após completarem o ciclo natural de soltura de ovos - Foto Valclei Lemos

Como um tambor

A maioria das espécies vive em regiões tropicais e subtropicais, incluindo áreas do Mediterrâneo. O som que reconhecemos é produzido, principalmente, pelos machos, que vibram rapidamente membranas localizadas no abdome, um mecanismo que funciona como um tambor natural.



Cada espécie possui um canto próprio, e estima-se que existam mais de 1.500 tipos diferentes de cigarras.

cigarra família Cicadidae
Cigarra família Cicadidae - Foto Valcei Lemos

Segundo a entomóloga Marina Frizzas, machos e fêmeas cantam, mas o som emitido pelas fêmeas é menos perceptível ao ouvido humano. Nosso sistema auditivo capta frequências entre 20 Hz e 20.000 Hz, enquanto os insetos podem produzir sons que variam de 1 Hz até 100 kHz.



Campeãs olímpicas

No Brasil, algumas espécies chegam a medir até 65 milímetros. Outras se destacam pelo desempenho físico. A cigarra-da-espuma (Philaenus spumarius), por exemplo, pode saltar até 70 centímetros, mais de 100 vezes a própria altura. Em proporção humana, seria como pular cerca de 200 metros.

A velocidade também impressiona. De acordo com o zoólogo Malcom Burrows, da Universidade de Cambridge, certas espécies alcançam até 14km/h, três vezes mais do que as pulgas, antigas campeãs dessa “modalidade”.

As cigarras matemáticas

Algumas espécies da América do Norte só emergem do subsolo em ciclos rigorosamente sincronizados de 13 ou 17 anos, números primos, divisíveis apenas por eles mesmos e por 1. Por isso, ficaram conhecidas como cigarras matemáticas ou periódicas.



Essa estratégia tem uma função clara: reduzir o impacto dos predadores. Ao surgirem aos milhões ao mesmo tempo, as chances de sobrevivência aumentam, já que é impossível para os predadores consumirem toda a população. Se aparecessem de forma isolada, seriam muito mais vulneráveis.

O “relógio biológico” dessas cigarras se baseia nas mudanças físicas e químicas da seiva das árvores, que variam conforme as estações do ano. Essas alterações funcionam como um marcador preciso do momento de deixar o subsolo e acasalar. Em algumas cidades dos Estados Unidos, o fenômeno atrai multidões.

Para o professor Douglas Soares Galvão, do Instituto de Física Gleb Wataghin, da Unicamp, esse comportamento curioso mostra como “a natureza descobriu a criptografia milhões de anos antes dos seres humanos”.



A criptografia moderna, usada em sistemas bancários e na internet, também se baseia em números primos para dificultar a quebra de códigos.

Talvez você não se lembre de todas essas curiosidades na próxima vez que ouvir o canto das cigarras. Ainda assim, vale saber: esse som representa um recomeço, um novo ciclo da vida, e, para nós, o anúncio inconfundível do verão.

*Texto de Marcus Neves Fernandes, produzido para a revista Beach&Co, do Grupo Costa Norte de Comunicação.



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