POLUIÇÃO MARINHA

Microplásticos são encontrados em águas profundas e acendem alerta na Bacia de Santos

Pesquisa da USP encontrou fibras plásticas e poluentes em sedimentos, peixes e invertebrados entre 400 e 1.500 metros de profundidade


Redação
Publicado em 25/05/2026, às 14h25

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Sacolas e plásticos no fundo do mar
Estudo analisou sedimentos, peixes e invertebrados de águas profundas da Bacia de Santos, a cerca de 140km da costa - Divulgação/Governo de São Paulo


A poluição plástica já não está restrita às praias, rios ou áreas próximas à costa. Em uma região profunda da Bacia de Santos, onde a luz quase não chega e o acesso para pesquisas é difícil e caro, cientistas encontraram sinais claros da presença humana: microplásticos e poluentes persistentes em sedimentos, peixes e invertebrados.

A descoberta foi feita por pesquisadores do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), em amostras coletadas entre 400 e 1.500 metros de profundidade, a cerca de 140km da costa brasileira. O estudo foi publicado na revista científica Marine Pollution Bulletin.

O levantamento ajuda a mostrar que o chamado mar profundo, ambiente marinho localizado a partir de 200 metros abaixo da superfície, não está isolado dos impactos gerados pelas atividades humanas. Mesmo partículas originadas na costa podem ser transportadas por diferentes caminhos até regiões distantes e pouco acessíveis do oceano.



“Esse é mais um passo para entendermos a ocorrência desses poluentes no mar profundo do Brasil. O maior desafio, porém, é determinar a origem dos compostos, já que tanto microplásticos quanto POPs são transportados na atmosfera, e como eles impactam a fauna de profundidade”, afirma Gabriel Stefanelli-Silva, primeiro autor do estudo.

Poluentes usados como isolantes e retardantes de chamas

Além dos microplásticos, os pesquisadores identificaram poluentes orgânicos persistentes, conhecidos pela sigla POPs. Esses compostos recebem esse nome porque permanecem por longos períodos no ambiente e podem se acumular na cadeia alimentar.

No estudo, foram analisadas duas categorias: os PCBs, ou bifenilas policloradas, usados como isolantes elétricos; e os PBDEs, éteres difenílicos polibromados, utilizados como retardantes de chamas.



Nos sedimentos, os pesquisadores encontraram apenas PCBs. Já nos peixes analisados, as duas classes de poluentes foram detectadas. Entre as espécies estudadas estavam Parasudis truculenta; Hoplostethus occidentalis; Coelorinchus marinii e Neoscopelus macrolepidotus.

As amostras foram obtidas em dois cruzeiros do navio oceanográfico Alpha Crucis, da USP, realizados em setembro e novembro de 2019.

Microplásticos no sistema digestório

Enquanto sedimentos e peixes foram analisados para detectar poluentes persistentes, os invertebrados serviram para avaliar a presença de microplásticos, fragmentos de plástico com menos de 5 milímetros.



Segundo Stefanelli-Silva, mesmo quando a poluição plástica tem origem na costa, essas partículas podem chegar ao fundo do mar. O risco é maior para organismos que se alimentam de detritos no leito marinho ou filtram partículas da água.

“Mesmo quando a origem da poluição plástica é a costa, em algum momento essas partículas chegam ao mar profundo, como é chamado todo o ambiente marinho a partir de 200 metros de profundidade. Organismos detritívoros [que se alimentam de detritos no leito marinho] e filtradores são especialmente propícios a ingerir microplásticos”, explica.

Entre as nove espécies de invertebrados analisadas, o pepino-do-mar Deima validum foi o que apresentou maior presença de microplásticos no sistema digestório.



Indústria têxtil e atividade offshore

Ao todo, cinco tipos de fibras encontradas foram classificados como microplásticos. Entre os polímeros detectados estão a poliamida e a poliacrilonitrila, materiais usados na indústria têxtil.

Outros compostos, como poliariletercetona, poliestireno e polissulfeto, levantam a possibilidade de contaminação associada à atividade offshore na Bacia de Santos. Atualmente, cinco plataformas operam na região, e outras seis estão previstas para 2027.

Para evitar contaminação durante as análises, os pesquisadores seguiram protocolo rigoroso. A equipe utilizou roupas e instrumentos sem fibras sintéticas, além de controlar a presença de microplásticos nas superfícies de trabalho e no ar do ambiente de pesquisa.



Os autores ressaltam que o estudo é um primeiro levantamento e que novas pesquisas devem aprofundar a origem e os efeitos da contaminação.

Para Paulo Sumida, coordenador do Laboratório de Ecologia e Evolução de Mar Profundo (Lamp) do IO-USP e orientador do trabalho, o achado reforça a necessidade de monitorar regiões distantes da superfície.

“O mar profundo é difícil de acessar, tem um custo muito alto para pesquisa, mas é muito importante de ser monitorado. A presença de microplásticos e poluentes persistentes mostra parte do impacto das atividades humanas e como este ambiente não está tão distante das pessoas como se pode pensar”, afirma.



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