BIODIVERSIDADE

Grandes mamíferos aumentam fertilidade da Mata Atlântica

Estudo da Unesp em SP indica que antas, queixadas e veados reduzem acidez da terra e aceleram a decomposição de matéria orgânica


Redação
Publicado em 01/07/2026, às 10h58

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Grandes mamíferos aumentam fertilidade da Mata Atlântica
Presença de grandes mamíferos eleva a disponibilidade de nutrientes para a manutenção da floresta - Reprodução/Agência Fapesp/João Paulo Krajewski


Um estudo publicado na revista Ecological Monographs aponta que grandes mamíferos, como antas, queixadas, catetos e veados, modificam a composição química da serrapilheira e do solo na Mata Atlântica brasileira. A atividade desse grupo de animais garante maior disponibilidade de nutrientes e eleva os índices de fertilidade do solo florestal.

O trabalho científico foi elaborado por integrantes do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (Cbioclima), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e sediado no Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (IB-Unesp), em Rio Claro (SP). Os resultados ressaltam a relevância das espécies, muito afetadas pela caça ilegal, para a conservação a longo prazo do bioma.

Impacto na serrapilheira e acidez

A primeira autora do artigo e doutoranda no IB-Unesp, Letícia Gonçalves Ribeiro, explicou a dinâmica do comportamento dos bandos na floresta:



A maior parte da biomassa de mamíferos em áreas contínuas de Mata Atlântica é composta pela queixada, um porco selvagem nativo que vive em bandos que podem passar de cem indivíduos. Eles chegam numa área e passam muito tempo pisoteando e fuçando a terra, à procura de frutos caídos e sementes, além de defecar e urinar. Com isso, acabam influenciando a ciclagem de nutrientes, alterando a química do solo e a diversidade da serrapilheira, a camada de folhas, galhos e frutos que fica na superfície do solo”.

Para avaliar o impacto dos grandes herbívoros, os pesquisadores compararam amostras de solo de áreas livres com trechos cercados para impedir o acesso da fauna. Os exames demonstraram que a circulação animal gera benefícios diretos para a terra.

Segue a lista com as principais alterações químicas registradas com a presença das espécies:

  • Elevação do pH (deixa o solo menos ácido);
  • Aumento da disponibilidade de cálcio;
  • Redução de níveis de alumínio (elemento prejudicial ao desenvolvimento vegetal);
  • Diminuição de lignina na serrapilheira.

O pisoteio e a agitação do solo fragmentam a camada de folhas e galhos, o que acelera o processo natural de decomposição da matéria orgânica.



Experimento de longo prazo na Serra do Mar

O professor do IB-Unesp e coordenador do estudo, Mauro Galetti, detalhou a função de engenharia ecológica exercida pelos mamíferos:

Nossa pesquisa tem demonstrado, de forma cada vez mais robusta, como os grandes herbívoros têm uma importância primordial para as florestas. São justamente esses animais, mais visados pela caça, que atuam como engenheiros de ecossistemas, influenciando desde a composição das plantas na paisagem até mesmo a química do solo”.

O monitoramento ocorre desde 2009 na Serra do Mar, por causa do projeto 'Defau-Biota', integrante de um programa da Fapesp. Os pesquisadores avaliaram 10 parcelas abertas de 15m² e 10 fechadas no Parque Estadual Carlos Botelho, em São Miguel Arcanjo (SP). A estimativa de biomassa baseou-se em registros de armadilhas fotográficas (câmeras traps).

Em março de 2026, análises anteriores do grupo indicaram que a escassez desses animais causa a homogeneização da floresta, com a dominância de poucas espécies de plantas que prosperam sem os herbívoros.



Indicadores microscópicos de qualidade

Uma nova fase do estudo avalia o impacto dos grandes mamíferos sobre os nematoides, organismos microscópicos do solo que funcionam como bioindicadores. Letícia Gonçalves Ribeiro, que desenvolve um estágio na Universidade de Aarhus, na Dinamarca, descreveu a função desses seres:

Os nematoides são um dos grupos mais abundantes da fauna do solo, ocupando diferentes níveis tróficos: alguns são especializados em comer bactérias, outros se alimentam apenas de fungos e há ainda os predadores, que se alimentam de outros nematoides e organismos da fauna do solo”.

As análises preliminares obtidas até agora apontam que a circulação dos grandes herbívoros favorece a proliferação de nematoides predadores. A abundância desse grupo serve como indício de um ecossistema saudável e estruturalmente equilibrado. O trabalho publicado contou também com o suporte de uma bolsa de doutorado concedida ao coautor Mateus de Melo Dias.

*Com informações da Agência Fapesp



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