Embora o litoral não tenha geleiras, chuvas intensas podem provocar deslizamentos e corridas de massa com consequências semelhantes às do Nepal

A tragédia registrada na região do Himalaia, no Nepal, reacendeu o alerta para um fenômeno associado ao derretimento de geleiras e levantou uma pergunta: um desastre com características semelhantes poderia ocorrer em nosso litoral?
Apesar de os mecanismos serem diferentes, a região paulista também está sujeita a eventos naturais capazes de provocar grandes volumes de água, lama, pedras e outros materiais encosta abaixo.
Uma das hipóteses para explicar o desastre no Himalaia é o rompimento de um lago glacial. Esses lagos se formam quando o derretimento de uma geleira cria uma depressão no terreno, que passa a ser preenchida pela água. Com o passar dos anos, o volume acumulado pode se tornar muito grande e ficar represado por uma barreira natural.
Quando essa barreira se rompe, ocorre o chamado GLOF (Glacial Lake Outburst Flood), ou inundação provocada pelo rompimento de um lago glacial. A grande quantidade de água desce rapidamente pelas encostas, ganhando velocidade e carregando rochas, gelo, neve, lama e outros materiais.
Segundo o climatologista e especialista em geologia Rodolfo Bonafim, ainda existem controvérsias sobre o mecanismo que desencadeou o episódio. Uma das possibilidades é a ocorrência de um terremoto de magnitude 4,4 registrado na região.
Talvez um dos mecanismos fosse o disparo dessa onda sísmica, desse terremoto, que teria causado a ruptura da barragem de algum lago glacial.”
Outra possibilidade seria a influência das chuvas acumuladas na região, embora não houvesse uma chuva excepcional imediatamente antes do desastre. O especialista, porém, destaca que não seria necessariamente preciso um terremoto ou uma forte chuva para provocar o rompimento.
A causa mais provável é justamente essa, o grande colapso glacial, ou seja, de um lago glacial.”
O cenário brasileiro é diferente. Não há geleiras próximas ao litoral paulista e, portanto, o risco de um GLOF não se aplica à região. No entanto, o litoral norte de São Paulo possui outro fator de vulnerabilidade: a presença da Serra do Mar, com encostas íngremes muito próximas das áreas urbanizadas.
Em períodos de chuvas intensas e prolongadas, o solo pode ficar saturado. A água penetra no terreno, aumenta o peso do solo e reduz sua estabilidade, favorecendo deslizamentos.
É nesse contexto que podem ocorrer as chamadas corridas de massa, fenômenos em que uma grande quantidade de água, terra, lama, pedras e árvores desce rapidamente pelas encostas.
O climatologista destaca que, embora os mecanismos sejam diferentes, os efeitos podem apresentar semelhanças.
A magnitude, apesar de a gente não ter geleira, o tamanho da tragédia pode ser comparada ao do Nepal, sim. Porque são mecanismos diferentes, mas as consequências são muito parecidas.”
Um dos exemplos mais marcantes no estado ocorreu em 2023, quando chuvas extremas atingiram o litoral norte e provocaram deslizamentos e corridas de massa, principalmente em áreas de São Sebastião. O episódio deixou mortos, destruiu imóveis e interrompeu acessos rodoviários.
A explicação está na própria geografia da região. A Serra do Mar apresenta grandes desníveis em uma área relativamente próxima do oceano. Com o solo encharcado, a água acumulada nas partes mais altas pode descer pelas encostas com grande energia, carregando tudo o que encontra pelo caminho.
Essa água vai rolando, vai solapando o solo, carregando tudo que estiver na frente. Árvores, rochas, terra. E isso vai causando uma corrida famosa, as catastróficas corridas de massa, extremamente perigosas.”
Assim, o desastre no Himalaia não significa que o litoral paulista esteja sujeito ao mesmo fenômeno, mas serve como exemplo de como água, relevo e condições ambientais podem se combinar para produzir eventos extremos.
No caso de São Paulo, o principal alerta está relacionado às chuvas intensas, ao encharcamento do solo e à ocupação de áreas próximas às encostas da Serra do Mar. O aquecimento global também entra nessa discussão.
Segundo o climatologista, o aumento das temperaturas pode favorecer o derretimento de geleiras em regiões montanhosas, contribuindo para a formação e instabilidade de lagos glaciais. No litoral paulista, porém, a preocupação é outra: a ocorrência de chuvas extremas e seus impactos sobre encostas já naturalmente vulneráveis.