Administrada por mulheres, Transfor-mar oferece dignidade a 32 trabalhadores, entre catadores que agora contam com trabalho reconhecido e direitos assegurados

Desde julho de 2024, mais de 240 toneladas de resíduos recicláveis foram coletadas em Bertioga, no litoral de São Paulo. Mas quem foram os responsáveis por esse serviço? Bem, o mérito é da cooperativa Transfor-mar que, administrada por mulheres, faz a coleta, triagem e comercialização de resíduos recicláveis, além de oferecer dignidade aos catadores e outros trabalhadores.
Contratada pela prefeitura de Bertioga, a cooperativa realiza a coleta em todos os bairros do município, de segunda-feira a sexta-feira, com dois caminhões, que saem para as ruas 34 vezes por dia, cada um. Segundo a diretora-secretária da Transfor-mar, Gabriela Maiolo, apenas em janeiro, foi trazida à triagem 89 toneladas de material, das quais 67 puderam ser recicladas, ou seja, deixaram de ir para o aterro sanitário.
Gabriela explica que a diferença entre o número coletado e o material reciclado ocorre devido ao rejeito, que é o resíduo que foi separado incorretamente, misturado com não recicláveis. E, é nesta etapa da triagem, após a coleta, que os itens vão à esteira, setor operado por 14 mulheres, responsáveis por determinar quais materiais serão enfardados e quais serão vendidos, para reverter o valor para os trabalhadores.

A grande maioria daquelas que estão lá na esteira são chefes de família e daqui elas tiram o sustento, tiram o sustento com aquilo que a gente descarta, que para uns são lixo, mas é um luxo, é o nosso trabalho”, ressalta Gabriela.
A etapa pode parecer simples, porém, é lá que o descarte incorreto do material é evidenciado com ainda mais ênfase, assim explica a diretora: “As meninas têm que lidar com a nossa falta de educação. Ali (na esteira) vão passar resíduos de banheiro, muitas vezes algum animal morto, roupas velhas e qualquer coisa que as pessoas entendam que precisam descartar”. Após a esteira, os resíduos que passaram são encaminhados para a prensa, onde ocorre o processo de compactação, para que possam ser vendidos, e, com esse valor, manter a operação da cooperativa e o trabalho dos funcionários.

Maiolo também ressalta que o simples “colocar para fora”, quando se trata de lixo, não existe mais. Isso porque, o material que não possuir a devida reciclabilidade alimentará o aterro, que contribui para a poluição do meio ambiente. “É um trabalho que merece ser reconhecido, a gente lida com aquilo que todo mundo joga no lixo”, afirma Gabriela.
Além dos cuidados com o resíduos, a Transfor-mar trouxe para os catadores de Bertioga uma nova realidade: salários superiores ao mínimo a 32 cooperadores, e o recolhimento dos tributos, para o pagamento do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que assegura a renda dos trabalhadores em casos de licença por doenças, lesões, gravidez e outras razões. “Muitos que estavam na rua, hoje estão aqui, com um trabalho reconhecido”, afirma Gabriela.
Agora, os catadores que antes dependiam única e exclusivamente da renda diária, ou seja, se deixassem de sair para trabalhar, mesmo em situações de incapacitação, não recebiam, podem ter uma segurança no dia a dia. “Não é um catador que está lá fora e se, de repente, parar de trabalhar, vai deixar de ganhar; aqui na transformar, ou como deveriam ser em todas as cooperativas, existe esse esteio, esse amparo legal, que nós seguimos com muita firmeza”.