Gestão de resíduos proporciona a economia circular que une eficiência logística ao protagonismo humano

Um dos pilares da gestão ambiental de Bertioga reside na Cooperativa Transfor-mar, estrutura que hoje conta com 44 cooperados. Liderada por mulheres, a presidente Gabriela Maiolo, a tesoureira Valdcelia Santana e a secretária Rhariane Ornelas, a entidade mantém 17 mulheres na linha de frente da triagem.
O sustento delas sai daquilo que a sociedade descarta. O que para muitos é lixo, para nós é o luxo do nosso trabalho", ressalta Gabriela.
Essa força na esteira revela o lado invisível do processo. A presidente alerta que, diariamente, as cooperadas enfrentam a falta de educação ambiental de parte da população, ao lidar com resíduos descartados incorretamente. A parceria com a prefeitura, contudo, transformou a realidade social; hoje, os cooperados recebem rendimentos superiores ao salário mínimo, com o respaldo do INSS garantido, um esteio legal que assegura renda em casos de doença ou maternidade.
Muitos que estavam na rua, hoje têm um trabalho reconhecido e seguro", pontua Gabriela.
Esse impacto social foi ampliado em dezembro de 2025, quando a Transfor-mar firmou parceria estratégica com a Abiphec (Associação Brasileira de Indústrias de Higiene Pessoal, Perfumarias e Cosméticos), garantindo renda extra por meio da certificação de logística reversa. O combate ao descarte incorreto ganhou ainda o reforço do Centro de Educação Ambiental (CEA), que leva alunos de escolas estaduais para visitar a unidade de triagem, com promoção de conscientização inédita sobre o ciclo dos resíduos.
É a partir dessa base humana que o desenvolvimento de Bertioga passa a ser avaliado, não apenas pela expansão de suas fronteiras, mas pela capacidade de regenerar recursos. Para sustentar a cooperativa, a infraestrutura municipal passa por um salto de modernização. No início de 2026, a frota recebeu dois novos caminhões e reformou outros dois veículos.
A implementação da coleta noturna resultou em aumento imediato de 15% no volume de materiais recolhido; em 2025, o sistema processou 733,30 toneladas em 2025, das quais 624,24 toneladas foram efetivamente reinseridas na cadeia produtiva. Isso representa uma média mensal de 52,02 toneladas que deixaram de sobrecarregar os aterros.
O secretário de Meio Ambiente, Fernando Poyatos, destaca: "Alcançamos um material que antes se perdia, trazendo o cidadão para o centro da engrenagem". Até junho deste ano, o município deve contar com dois triciclos elétricos de carga para bairros de acesso restrito.
O diferencial tecnológico fecha-se na gestão de orgânicos por meio de um biodigestor que transforma restos de alimentos de escolas e comércios em biogás, garantindo a autossuficiência energética da planta.
Estamos caminhando para a separação em três frações: orgânico, reciclável e rejeito. É o futuro da gestão pública", afirma Poyatos.
O ecossistema de resíduos de Bertioga conquistou mais força com a operação independente efetuada na Riviera de São Lourenço. O programa, gerido pela Associação dos Amigos da Riviera de São Lourenço, é reconhecido pela Universidade Federal Fluminense (UFF) como um dos melhores do Brasil em gestão comunitária.
Somente em 2024, o bairro desviou 478 toneladas de recicláveis que iriam para os aterros sanitários. Atualmente, são cerca de 28 toneladas de recicláveis coletadas por mês. Além do ganho ambiental, a operação fecha um ciclo de responsabilidade social ao converter a receita da venda desses materiais em investimentos diretos para a Fundação 10 de Agosto, revertendo a preservação em benefício para a comunidade local.
A entidade foi constituída em 1993, como braço social da Riviera de São Lourenço, com a missão de promover educação e qualificação profissional dos moradores de Bertioga.