Pedágio da sífilis teve boa adesão em Bertioga

Estela Craveiro
Publicado em 21/10/2017, às 16h48 - Atualizado em 23/08/2020, às 16h12

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Estela Craveiro
Estela Craveiro
O teste rápido para identificar essa grave infecção, que pode levar à degeneração óssea, vascular e cerebral, além de causar mortes e deficiências em bebês, estará disponível nas UBS na próxima semana e continuamente no CTA, sem necessidade de agendamento

A lei 13.430, publicada em abril passado, definiu que o terceiro sábado de outubro de cada ano é o Dia Nacional de Combate à Sífilis e à Sífilis Congênita. Em 2017 foi hoje. E a prefeitura de Bertioga fez sua parte, montando um pedágio de testes da Vigilância à Saúde na avenida Anchieta, em frente ao Supermercado Krill, que esteve movimentado o dia todo.

Foram realizados 120 exames rápidos de triagem, que deram positivo para duas pessoas. Elas foram encaminhadas diretamente para o laboratório da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) para exame de confirmação e serão encaminhadas ao CTA para tratamento.

Quem perdeu o pedágio poderá fazer o teste de triagem nas cinco Unidades Básicas de Saúde (UBS) da cidade, no decorrer da próxima semana: dia 23, segunda-feira, em Boraceia; dia 24 no Jardim Vicente de Carvalho II; dia 25 no Indaiá; dia 26 na Vista Linda; e dia 27 no Maitinga.

Uma alternativa prática é fazer o teste no Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), que fica na rua Jorge Ferreira, 60, no Centro, ao lado da base do Corpo de Bombeiros. Funciona de segunda a sexta-feira, das 8 às 17 horas. Não é necessário agendar horário. Basta comparecer.

A razão da lei decorrente de projeto do deputado Chico D’Angelo (PT), que é médico, aprovada na Câmara dos Deputados em setembro de 2015 e pelo Senado Federal em março de 2017, é o fato de que a sífilis, que se imaginava erradicada, tornou-se epidemia no Brasil e no mundo.

Dados do Ministério da Saúde registram uma expansão de 1.249 casos de sífilis adquirida por relações sexuais desprotegidas em 2010 para 65.878 em 2015, um crescimento de mais de 5.000%. Estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS) indicam que, anualmente, cerca de seis milhões de pessoas contraem sífilis no mundo, e, no Brasil, a perspectiva é de 937 mil novas ocorrências por ano.

Graves consequências

Causada pela bactéria treponema pallidum, a sífilis é uma infecção sexualmente transmissível, mas não só. Pode ser adquirida também por meio de transfusões de sangue ou por contato direto com sangue contaminado.

E há a sífilis congênita, transmitida de mães infectadas para bebês durante a gestação ou no parto. Há 7,4 casos para cada mil deles nascidos vivos, conforme dados do Ministério da Saúde. A meta da OMS é um caso para cada mil bebês.

As mães correm risco de aborto. E as crianças podem morrer com poucas horas de vida, nascer mortas ou, nos primeiros dois anos de vida, enfrentar sintomas como feridas no corpo, pneumonia, cegueira, surdez, dentes deformados, problemas nos ossos e deficiência mental.

Nos adultos, a sífilis se manifesta em três estágios. No primeiro, em até 20 dias após a contaminação, surgem pequenas feridas na região genital, no ânus, na boca e na garganta, além de caroços nas virilhas, popularmente conhecidos como ínguas.

Esses ferimentos costumam ser poucos, não doem, podem nem ser notados na região intravaginal das mulheres, e podem desaparecer espontaneamente em poucas semanas.  No segundo estágio, surgem feridas pelo corpo, manchas vermelhas e lesões na palma das mãos e/ou na sola dos pés. Mas tudo isso também pode sumir espontaneamente.

O terceiro estágio, que pode ocorrer até 40 anos depois, é o da sífilis latente. As pessoas que contraíram a infecção, não descobriram isso e não foram tratadas, podem até deixar de transmitir a bactéria, mas estão sujeitas a feridas muito agressivas, que corroem o corpo, a sofrer degeneração óssea grave, e a ter problemas vasculares e com o sistema nervoso, começando com alterações de humor e acabando com demência, quando a bactéria chega ao cérebro.

É só usar camisinha e fazer pré-natal

A boa notícia é que além de ser facilmente identificada em um exame de sangue com resultado em poucos minutos, a sífilis tem cura, é facilmente tratada com penicilina, e em poucas semanas, nos dois primeiros estágios.

E tudo está disponível gratuitamente na rede pública de saúde. As grávidas eliminam o risco de infectar seus bebês com exames que fazem parte do pré-natal.  Para evitar a sífilis, é simples: basta usar preservativos nas relações sexuais.

Se o Congresso Nacional foi lento na aprovação do projeto do deputado Chico D’Angelo, a prefeitura de Bertioga foi rápida em aderir ao Dia Nacional de Combate à Sífilis e à Sífilis Congênita. E pelo interesse das pessoas em fazer o teste no pedágio, onde foram distribuídos kits com preservativos, a Secretaria de Saúde acertou em cheio.

Entretanto, a maioria dos que fizeram o teste foram adultos e idosos. E tudo indica que a sífilis está se espalhando mais entre a população jovem. Moças e rapazes começam a ter relações sexuais cada vez mais cedo, com mais parceiros e, não faltam indicadores, cada vez usando menos camisinha, embora elas sejam distribuídas gratuitamente e com fartura em toda a rede pública da saúde.

Talvez porque não viveram o horror de ver pessoas morrendo de aids nos anos 1990 e 2000, como viram os mais velhos, e porque não têm ideia do que seja sífilis, uma infecção muito antiga,  muito grave,  e que está se propagando de forma inimaginável diante da eficácia, do baixo preço e da alta acessibilidade da penicilina.

Estela Craveiro

foto: JCN

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