Incontrolável

Ocupação irregular abriga 400 famílias no bairro Chácaras

Invasão de reserva legal está em fase de ação judicial no Fórum de Bertioga e área deverá ser reintegrada


Marina Aguiar
Publicado em 20/04/2018, às 12h17 - Atualizado em 23/08/2020, às 16h43

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Período de eleições e divulgação de lei sobre regularização fundiária contribuíram para o crescimento da ocupação - JCN
Período de eleições e divulgação de lei sobre regularização fundiária contribuíram para o crescimento da ocupação - JCN


Uma ocupação irregular no final do bairro Chácaras, em Bertioga, próxima ao loteamento Citymar, tomou proporções estarrecedoras na cidade. Em dois anos, cerca de 400 famílias  instalaram-se em área de reserva legal, para manutenção da vegetação, exigência gravada na matrícula do Loteamento Hanga Roa, de responsabilidade do empreendimento Planning Planejamento e Desenvolvimento Urbano Ltda.

A reportagem do Jornal Costa Norte acompanha o desmatamento da área desde julho de 2016, quando a Diretoria de Operações Ambientais (DOA) desmantelou os primeiros acampamentos e barracos. Quatro meses depois, após as eleições municipais, já havia 200 famílias no local, e denúncias apontavam a situação como incontrolável.

O coordenador de Controle de Ocupação (CCOC) da prefeitura de Bertioga Valdizar Albuquerque da Silva entrou em contato com o jornal Costa Norte e afirmou que a interferência política é uma grande dificuldade da pasta. "Alguns vereadores e ex-candidatos têm grande influência na área, muitas vezes, jogando a opinião pública contra as ações no local, necessitando, para tanto, organizar forças-tarefa com grande aparato policial. Outra dificuldade é a presença do crime organizado, onde financiam a construção de barracos numa velocidade muito grande, colocando pessoas dentro para inviabilizar a retirada", declarou.



Em nota, a assessoria de imprensa da prefeitura afirmou que existe um "procedimento de apuração de responsabilidade quanto à ocupação, provocando a propositura, por parte da citada empresa, na ação reivindicatória que tramita no Judiciário de Bertioga. A ação judicial visa o restabelecimento da vegetação, com o desfazimento das construções e quaisquer outras  habilitações, bem como da execução de um plano de plantio".

O diretor de Operações Ambientais Nelson Jorge de Castro informou que, desde o início da sua gestão, adota medidas pertinentes ao local. Porém, em virtude do período eleitoral de 2016 e da divulgação da medida provisória 759/16, que originou a Lei Federal nº 13.465/17, que indicava a possibilidade de regularização de áreas irregulares, houve campanhas que incentivaram e anunciaram a expectativa de regularização de imóveis ilegais; isso levou pessoas a ocupar todas as áreas ainda não ocupadas. "A lei estabelece como prazo possível (...) a data de 22 de dezembro de 2016, ou seja, quem ocupava área até essa data, pode ser atendido em processo de regularização fundiária", explicou. Castro ressaltou que a lei possui exigências não observadas, que contribuem para interpretações equivocadas e que serão corrigidas no decorrer do tempo. 

Sem água



No dia 13 de abril, os moradores do loteamento irregular realizaram um protesto no paço municipal, para solicitar o religamento e a instalação da tubulação, feita de maneira irregular, pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Os serviços foram cortados após denúncias de vizinhos. O presidente da Associação de Moradores do Bairro Chácaras Gilmar Barbosa dos Santos, conhecido como Guarujá, explicou, durante entrevista no programa Café da Manhã, que entende o motivo das denúncias. "As pessoas que moram em empreendimentos vizinhos estavam ficando com pouca vasão de água. Nós entendemos, mas queremos regularizar a nossa situação, queremos pagar pela água também".

De acordo com Guarujá, as famílias se instalaram aos poucos, vítimas de vendedores de lotes. Ele criticou o corte da água. "Uma coisa é você não ter, outra coisa é ter e tirarem de você. Por que não cortaram a primeira mangueira? Logo no início. Aí puxa um, puxam 10, puxam 50, puxam 100, aí vira 400 e querem tirar. É complicado", disse. 

Demolição



O coordenador Valdizar explicou que os órgãos DOA e CCOC ficam isolados na tarefa. "Se os vários órgãos municipais, estaduais e jurídicos não agirem simultaneamente poderá ter neste local uma das maiores favelas do litoral paulista", preocupou-se.

A prefeitura ressaltou que a lei federal 13.465/17 não se aplica a este caso, e que uma ordem judicial para a desocupação da área é aguardada, cabendo ao município de Bertioga e Polícia Ambiental do estado, a demolição imediata de novas construções e barracos. O caso está em fase de ação judicial para reintegração de posse no Fórum de Bertioga. A prefeitura informa ainda que as famílias devem procurar a Secretaria de Obras e Habitação para geração de cadastro e aguardar soluções habitacionais no município.

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