Iniciada após aval do Consema e fortes protestos em Bertioga, intervenção teve entrega adiantada em seis meses com uso de geradores

O governo do estado de São Paulo anunciou, nesta segunda-feira (1º), a antecipação da operação do sistema de bombeamento da bacia do rio Itapanhaú, em Bertioga, para o Sistema Alto Tietê.
A obra, que carrega um histórico de quase uma década de controvérsias, licenças ambientais complexas e resistência popular no litoral, teve o cronograma adiantado em seis meses pela Sabesp.
O motivo da aceleração, segundo o governo estadual, é o agravamento crítico da estiagem na Região Metropolitana. Para viabilizar o funcionamento imediato, sem aguardar a conclusão da rede elétrica definitiva, foram instalados 11 geradores de energia.
A estrutura permite o envio de até 2.500 litros de água por segundo (2,5m³/s) para a represa Biritiba-Mirim, do Sistema Alto Tietê, visando mitigar os efeitos das médias de chuvas, consideradas as mais baixas dos últimos dez anos.
A dimensão do projeto também se reflete nos cofres públicos. Quando o Conselho Estadual de Meio Ambiente (Consema) aprovou a licença prévia, em julho de 2016, o investimento previsto era de R$ 170 milhões. No entanto, o valor final da obra entregue agora saltou para R$ 300 milhões, quase o dobro da estimativa original.
A aprovação no Consema, ocorrida há nove anos, foi marcada por debates intensos. O aval foi dado por 24 votos a 5, autorizando o desmatamento de área de 15 hectares dentro do Parque Estadual da Serra do Mar (Pesm), para a instalação da estação elevatória e das adutoras.
A transposição do Itapanhaú nunca foi unanimidade. Em abril de 2018, a praia da Enseada, no centro de Bertioga, foi palco de protesto onde cerca de 100 manifestantes formaram a palavra "NÃO" na areia.
O movimento Não à Transposição do Rio Itapanhaú alertava para riscos ambientais severos. Entre as preocupações estava a alteração da salinidade nos manguezais e no estuário, o que poderia impactar a reprodução de espécies marinhas, a vida dos caranguejos e, consequentemente, a atividade pesqueira da região.
Na época, o então prefeito de Bertioga, Mauro Orlandini, e o Conselho Comunitário de Defesa do Meio Ambiente (Condema) condicionaram o apoio ao projeto à implementação de monitoramento em tempo real. A exigência era que o sistema fosse desligado imediatamente caso houvesse qualquer alteração prejudicial na salinidade que garantisse a vida nos mangues.
Se em 2018 os reservatórios demonstravam estabilidade pós-crise de 2014, o cenário atual é de alerta vermelho. Dados do governo apontam que o Sistema Integrado Metropolitano (SIM) fechou novembro com acumulado de apenas 82,7mm de chuva, muito abaixo da média histórica de 142,6mm.
A nova captação de 2,5m³/s representa aumento de 17% na disponibilidade de água do reservatório do Alto Tietê, volume considerado essencial para abastecer 22 milhões de pessoas na Grande São Paulo.

A engenharia por trás da transposição é complexa. A captação ocorre no ribeirão Sertãozinho, um dos formadores do rio Itapanhaú, em área de preservação adjacente ao Parque Estadual.
Diferente de grandes represas, o modelo adotado foi a captação a "fio d'água", sem a construção de barragens que alagariam o entorno. A operação funciona da seguinte forma:
A Sabesp reitera que a operação foi concebida para minimizar impactos. A vazão média do Itapanhaú em Bertioga é de 20 mil litros por segundo (20m³/s). O volume máximo a ser captado (2,5m³/s) corresponde a pouco mais de 10% dessa vazão.
Além disso, a regra estabelecida desde a licença prévia determina que a retirada de água respeite a disponibilidade hídrica: o bombeamento só ocorre quando há excedente. Se o nível do rio baixar, a captação deve ser interrompida para assegurar a vazão ecológica necessária para Bertioga.
Como contrapartida das obras que impactaram a região da serra, a Sabesp entregou uma melhoria na rodovia Mogi-Bertioga (SP-098). Foi construído um retorno operacional na altura do km 79.
Antes da intervenção, motoristas que passavam no km 69 eram obrigados a descer a serra até Bertioga para retornar. A liberação do novo dispositivo reduz o trajeto em cerca de 38km para quem precisa voltar sentido Mogi das Cruzes.