CURIOSIDADE

O que faz executivas bem-sucedidas atuarem no mercado de acompanhantes de luxo?

Reportagem investiga motivos que levam profissionais de alto nível, com formação e renda elevadas, a conciliarem carreiras promissoras com programas para clientes de alto poder aquisitivo


Reginaldo Pupo
Publicado em 05/01/2026, às 13h44

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O que faz executivas bem-sucedidas atuarem no mercado de acompanhantes de luxo?
Perfil de acompanhantes utiliza capital cultural como diferencial - Reprodução/PxHere


Nas últimas décadas, as mulheres vêm conquistando cada vez mais seu espaço no mundo corporativo, exercendo altos cargos em empresas nacionais e multinacionais, que exigem formação superior, atuação destacada e gestão empresarial, o que garante plena independência financeira.

Fora do mundo corporativo, o mesmo se aplica às profissionais liberais, como advogadas, engenheiras, arquitetas, nutricionistas, jornalistas e médicas, entre outras profissões.

No entanto, nos últimos anos, um detalhe tem chamado a atenção. Por decisão própria, algumas dessas mulheres decidiram, também, atuar no lucrativo mercado do sexo, como acompanhantes de luxo.



O mais curioso, segundo algumas das executivas ouvidas pelo Costa Norte, é que elas têm vida financeira estável, são totalmente independentes e preservam imagem pública de seriedade.

Ou seja, não havia necessidade de fazer job”, gíria usada entre elas para definir um programa. Mas o que as levam a tal prática? Entrevistamos algumas delas para tentar entender a atividade dupla, mas nem elas sabem, ao certo, os reais motivos. Os nomes verdadeiros serão preservados, a pedidos, para não prejudicar a imagem e a reputação profissional.

Mulheres cultas

Longe da marginalidade historicamente associada ao mercado do sexo, esse perfil de acompanhante, muitas vezes autodenominado "independente" ou "executivo", utiliza seu capital cultural como diferencial.



Para muitos clientes de alto poder aquisitivo, o atrativo não reside apenas na estética, mas na capacidade de manter um diálogo intelectualizado e transitar com desenvoltura em jantares de negócios.

Devido aos cargos que ocupam em grandes empresas e por terem contato direto com seu público, em escritórios e clínicas, as executivas não se expõem por meio de anúncios em plataformas do gênero para evitar exposição.

Os contatos são feitos  apenas por indicação, segundo as entrevistadas. A dupla jornada é feita às escondidas dos amigos e familiares.



S. é uma advogada renomada que, recentemente, se mudou do interior de São Paulo para Ubatuba, no litoral norte. Apesar de exercer a advocacia normalmente, em paralelo também atua como acompanhante de luxo, e atende executivos fora de sua área profissional, para não correr o risco de ser reconhecida.

“Imagine atender um juiz, ou promotor, com quem estive dentro de um tribunal, exercendo a advocacia?”, brinca ela. “Eu era solteira à época, tinha mais liberdade para fazer o trabalho extra. De fato, financeiramente falando, eu não precisava. Era mais por prazer mesmo, mas não o sexual, e sim, um prazer diferente, algo mais voltado para a aventura, para a adrenalina", ressalta.

Ela segue: "Não sei explicar, mas me sentia bem com isso. Sem contar a quebra da monotonia, já que a advocacia é uma profissão séria, sem muitas emoções. Fazer job me tira das amarras sociais, dos meus círculos tradicionais”, relata ela, que divide sua rotina entre petições judiciais e os encontros agendados aos finais de semana.



A bacharel em direito deixou de trabalhar como acompanhante durante um curto período do casamento, que se encerrou recentemente. “Agora voltei a ter liberdade para atuar como acompanhante e estou em busca de novos clientes”.

Ela aponta que uma das vantagens do trabalho de acompanhante é a flexibilidade de agenda, negociação direta com os clientes e retorno financeiro imediato. “Na maior parte das vezes, levam-se anos para recebermos valores referentes aos processos judiciais. Não é muito, mas os cachês que recebo com esse trabalho ajuda bastante no orçamento”, explica.

“Padrões moralistas”

A nutricionista J. também optou por fazer a jornada dupla, apesar de seu status financeiro invejável para a maioria das mulheres. Ela é dona de uma clínica em um dos bairros mais nobres de São Paulo e reside em um apartamento luxuoso, na mesma região, além de possuir uma casa de praia em Ilhabela.



A entrevista foi feita por telefone, pois ela estava em Nova York, destino escolhido anualmente para passar o Réveillon e curtir a neve. Ela diz cobrar R$ 15 mil para acompanhar os clientes por um período de uma hora, quando está em São Paulo. Alguns dos atendimentos, segundo ela, também são feitos em Ilhabela, “onde estão os clientes realmente ricos”, acrescenta.

“Eu tenho vida financeira estável e independente. Faço os acompanhamentos para explorar a minha sexualidade, sem culpa. Isso rompe com os padrões sociais que ainda associam o corpo feminino à moralidade e à submissão. Sou totalmente fora desses padrões moralistas”, declara.

J. diz que impõe as regras do jogo. “O valor do serviço é explícito, os acordos são diretos e o poder de decisão é sempre meu. Não saio com qualquer um. Gosto de estar no controle de tudo. E essa sensação jamais consigo ter simplesmente explorando a minha carreira de nutricionista”.



A profissional acrescenta que apesar de ter uma boa renda mensal, seu custo de vida é elevado. “Com a grana extra dos jobs, invisto em viagens e bens de luxo”, arremata.

Encontros esporádicos

A engenheira E., 36 anos, possui casa de praia em um dos condomínios mais cobiçados de  Caraguatatuba, mas reside no Vale do Paraíba. Por trás de projetos arquitetônicos de arranha-céus na capital paulista, ela diz que ninguém desconfia de sua atuação “no job”.

Apesar de constantemente estar presente em ambientes predominantemente masculinos,  veste-se com um discreto tailleur e posiciona-se com ar de seriedade. “É para impor respeito, embora eu nunca tenha recebido cantadas. Tem uma pessoa que vive me olhado com cara desconfiada. Meu medo é ele saber que também sou acompanhante”, revela ela, que teme ter sua reputação abalada.



E. conta que quando vai para sua casa de praia, diz deixar de lado a profissão séria e se transforma em uma personagem construída para atuar nos atendimentos, longe da rotina formal do dia a dia. “Moro sozinha na minha cidade e, geralmente, venho sozinha para Caraguá. Isso me dá liberdade para fazer o trabalho. Só atendo por indicação das pouquíssimas amigas que sabem do meu outro lado, já que elas trabalham e vivem disso”, explica.

Ela diz que atua como acompanhante de luxo para ter companhia. “Não quero que isso soe como preconceito, longe disso, pelo amor! Pois respeito todos eles. Mas convivo com vários homens no ambiente de trabalho que não têm o mesmo nível intelectual. Sinto vontade de falar sobre política, economia, viagens, menos sobre engenharia, claro!”, ri.

“Então, com esses encontros esporádicos, tenho a oportunidade de conversar de igual para igual com homens intelectuais. Muitas vezes, só rola um jantar e, depois, cada um para seu lado”, acrescenta.



O que diz a lei

As executivas entrevistadas demonstraram um medo em comum: a de ter suas identidades reveladas e seus registros profissionais cassados. Conselhos como a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) possuem códigos de ética que mencionam "idoneidade moral" e "conduta incompatível com a advocacia".

Mesmo que existam debates jurídicos defendendo que a vida privada não deve interferir na profissional, uma denúncia pode gerar processos disciplinares.

Embora a profissão seja reconhecida oficialmente pelo Ministério do Trabalho como “profissionais do sexo” (CBO 5198-05), o ordenamento jurídico e os conselhos de classe, como o CFN (Conselho Federal de Nutrição) ou Crea (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia), que representam as profissões citadas nesta reportagem, podem punir as profissionais.



O setor de engenharia, por exemplo, ainda dominado por homens, impõe um julgamento moral que poderia arruinar projetos.

Por isso, o uso de pseudônimos, a seleção rigorosa de clientes, apenas por indicação, e o investimento pesado em segurança digital são algumas das armas que elas utilizam para preservar suas identidades, pois as executivas mantêm perfis em sites profissionais, como o Linkedin, ou fotos nos sites das empresas para as quais atuam.

Por outro lado, o exercício da prostituição por adultos e de forma autônoma não é crime. O Código Penal pune a exploração por terceiros (cafetinagem) e tráfico de pessoas. Portanto, profissionais como advogadas, nutricionistas, engenheiras, ou qualquer outra profissional liberal, que atuam de forma independente, estão amparadas pela lei.



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