SOLIDARIEDADE

Motoboys distribuem marmitas a moradores em situação de rua em Caraguatatuba

Doação de marmita durante a madrugada geralmente é a única refeição do dia para a maioria das pessoas agraciadas pelos “anjos da noite”


Reginaldo Pupo
Publicado em 01/08/2024, às 10h48

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Moradores em situação de rua no centro de Caraguatatuba recebem marmitas de motoboy - Reginaldo Pupo
Moradores em situação de rua no centro de Caraguatatuba recebem marmitas de motoboy - Reginaldo Pupo


Sob o sereno e um frio de 17 ºC, o casal Erik José da Silva, 39, e Ideusa da Silva, 53, recolhe-se para dormir em um deque de madeira ao ar livre, instalado em uma praça, com os olhos fechados, mas com os ouvidos bem atentos, enquanto o sono não chega. É que todas as noites eles aguardam o ronco d​os escapamentos e o som das buzinas de dezenas de motocicletas que circulam durante a madrugada, para distribuir marmitas a moradores que vivem em situação de rua na região central de Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo.

Erik, que deixou o sistema prisional há quatro anos, vive com Ideusa após conhecê-la nas ruas. Para sobreviver, o casal trabalha com a venda de sucata, ofício que rende entre R$ 30 e R$ 40 por dia, nem sempre suficientes para comprar comida para eles e Cigano, o cão de estimação. Os três e um colega que divide o mesmo espaço na praça tomam banho em um córrego próximo.

[Colocar ALTMoradora em situação de rua recebe agasalho dos motoboys - Foto Reginaldo Pupo]
Moradora em situação de rua recebe agasalho dos motoboys - Foto Reginaldo

O casal integra um grupo de cerca de  60 a 80 moradores de rua que recebem, diariamente, alimentação, bebidas quentes, roupas e agasalhos de grupos de motoboys que atuam na cidade com entregas para restaurantes e pizzarias e que se revezam durante a semana para realizar a distribuição. Segundo os motoboys, cerca de 100 pessoas já chegaram a ser atendidas em uma só noite.



Postos de combustíveis são o ponto de encontro dos motociclistas, que se reúnem entre 23h30 e 0h30, após um exaustivo dia de trabalho. A partir dali, cumprem um roteiro pré-estabelecido, que inclui o terminal rodoviário, praças, a avenida da praia e quiosques à beira-mar do centro, Prainha e praia Martim de Sá.

Desta vez, as entregas não são para clientes. Nas “bags”, como os motoboys chamam o baú térmico que carregam nas costas, a entrega é especial, cheia de solidariedade e de esperança para quem não teve o que comer durante todo o dia.

Os moradores em situação de rua não se incomodam em ser acordados em plena madrugada. Segundo os motoboys, as doações geralmente são a única refeição do dia para muitos dos desabrigados. As marmitas, assim como os refrigerantes ou sucos, são devoradas em segundos.



"Anjos da noite"

“Esses motoqueiros são gente muito boa, educados e nos tratam com respeito e dignidade”, disse Ideusa em tom de agradecimento, após receber caldo quente, chá e uma blusa de frio, que ela vestiu imediatamente, já que dormia apenas com uma camiseta e um cobertor fino quando foi abordada. A maioria dos moradores abordados não tinha roupa de frio.

Os “anjos da noite”, como são chamados por alguns dos moradores das ruas, dão sequência a um legado iniciado por um colega, morto em um acidente há 11 anos, que fazia a distribuição de marmitas com mais quatro amigos.

“Gosto de ouvir os moradores, pesquisar sobre eles nas redes sociais, para tentar encontrar algum familiar. Já vi amigos de infância nas ruas. Também já conseguimos ajudar um ex-colega a voltar para sua cidade de origem e arrumar emprego para outro”, conta um dos motoboys.



Segundo ele, as marmitas são produzidas pelos próprios colegas. “Os ingredientes são adquiridos por meio de vaquinhas entre nós e doações. Cada um colabora com o que pode, R$ 2, R$ 4, R$ 10”, diz. Nas marmitas, eles costumam acrescentar macarrão, salsicha e café. “Cada semana mudamos o cardápio”.

O líder do grupo, José Arludo Nogueira Gonçalves, 27, oito anos e meio dos quais como motoboy, tem lugar de fala: “Sei bem como vivem esses moradores, pois já passei por situação semelhante em minha cidade, Acopiara (CE). É triste vê-los passando por dificuldades”.

Além do grupo de motoboys, ele decidiu criar outro, formado por amigos e vizinhos, para atender moradores prejudicados na época da pandemia, com entrega de cestas básicas. Sua companheira, Nayara Maria dos Santos Penteado, 25 anos, uma das três mulheres que integram um dos grupos, diz: “Tenho apenas o sentimento de gratidão por ter a oportunidade de ajudar ao próximo, mesmo passando por dificuldades. Pois há tanta gente com muito, mas que, infelizmente, não doam”.



“Muitas vezes, além da alimentação, essas pessoas querem apenas um abraço, uma palavra de conforto. Os moradores chegam a nos pedir oração. Nos reunimos em torno deles e oramos. As pessoas sequer pegam na mão deles para cumprimentar com medo de pegar alguma doença”, conta Nayara.

O casal Fábio Aparecido Silva, 44, e Jaqueline Mota Lacerda, 27, começou a ajudar um dos grupos de motoboys há alguns anos, preparando cachorro-quente e oferecendo o transporte dos alimentos e roupas em carro próprio. Para circular pelas madrugadas, deixam os quatro filhos em casa. “O mundo está cada vez mais difícil e poder ajudar é muito gratificante”, diz Jaqueline, que fez a doação da roupa de frio para Ideusa da Silva.

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A prefeitura de Caraguatatuba mantém parceria com duas instituições de acolhimento, o Centro de Recuperação Humano Renascer, e a Restitui – Casa de Passagem, que conta com três projetos no atendimento à população adulta em situação de rua. Agentes do município realizam constantes abordagens, mas, a maioria se recusa a ir para os centros e prefere viver nas ruas.

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