Intervenção no Estreito do Melão, em Cananeia, recebe R$12 milhões para proteger ecossistemas e garantir a permanência de comunidades caiçaras

O governo de São Paulo iniciou as obras para conter o avanço erosivo no Parque Estadual da Ilha do Cardoso, em Cananeia, no litoral sul paulista. A intervenção no Estreito do Melão é conduzida pela Fundação Florestal, em parceria com a SP Águas, e recebe investimento de cerca de R$12 milhões.
O objetivo é proteger comunidades locais, fauna e flora, contra o avanço do mar, que tem deixado o local com uma faixa de areia cada vez menor. O que ocorre no local é que o Estreito do Melão é uma faixa de areia curta, que tem o mar de um lado e um canal com mangezal do outro. Se o mar continuar avançando, esta faixa de areia deixará de existir. Veja:
A obra prevê a dragagem e o reposicionamento de sedimentos, para recompor e estabilizar o cordão arenoso no Estreito do Melão, trecho impactado pela dinâmica costeira. Com duração prevista de nove meses, os trabalhos visam proteger os ecossistemas locais, reduzir o processo erosivo e garantir a segurança das comunidades tradicionais da ilha do Cardoso.
O processo de erosão no local decorre de fenômenos naturais característicos da região, como a interação entre marés, correntes marítimas, ventos e ressacas. Diante da aceleração das transformações nos últimos anos, o estado intensificou o monitoramento técnico na Unidade de Conservação.
A contratação da obra ocorreu após a conclusão do projeto executivo elaborado pela SP Águas. O Ministério Público acompanhou o processo durante vistorias técnicas, que contaram com a participação de moradores locais, da Defensoria Pública e de equipes especializadas dos órgãos estaduais.

O morador Jorge Cardoso, engenheiro ambiental e integrante da comunidade caiçara da Enseada da Baleia, localidade que precisou passar por realocação em 2017, por causa do avanço do mar, avalia que a intervenção representa uma conquista coletiva.
As comunidades não desejam sair dos seus espaços. Existe um vínculo afetivo com seu território. A intervenção representa uma resposta a uma demanda construída coletivamente”, afirma.
Para Tatiana Cardoso, cientista social e assessora técnica comunitária da Articulação dos Povos e Comunidades Tradicionais da Ilha do Cardoso, a contenção emergencial é fruto de mobilização comunitária.
A obra é resultado de anos de mobilização comunitária e contribui para reduzir os riscos enfrentados pelas comunidades tradicionais, ajudando a garantir a permanência das famílias em seus territórios e a continuidade dos modos de vida caiçaras”, destaca.
A fase operacional teve etapas preparatórias com sondagens geotécnicas, análises de sedimentos, levantamentos batimétricos para medir a profundidade do fundo do canal e mobilização das embarcações. As equipes iniciaram a redistribuição planejada do material arenoso nos pontos indicados pelos estudos.
A secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, do estado de São Paulo, Natália Resende, ressalta a construção conjunta do projeto.
Estamos colocando em prática uma solução construída com base em ciência, planejamento e diálogo e colaboração das comunidades. A ilha do Cardoso é um patrimônio ambiental de valor inestimável para São Paulo e para o Brasil”, afirma.
O diretor-executivo da Fundação Florestal, Rodrigo Levkovicz, aponta que a obra concilia conservação e proteção social:
Acompanhamos de perto a evolução desse processo, realizamos monitoramentos constantes, estudos técnicos e diversas visitas de campo. Esta intervenção foi cuidadosamente planejada para responder a um fenômeno natural complexo, conciliando conservação ambiental e proteção das comunidades tradicionais da ilha do Cardoso”.
O diretor da SP Águas, Nelson Lima, reforça o acompanhamento contínuo dos trabalhos:
O projeto executivo foi elaborado a partir de levantamentos detalhados das características hidrodinâmicas, sedimentares e ambientais da região. A obra segue critérios técnicos rigorosos e continuará sendo acompanhada pelas nossas equipes durante toda a sua execução, permitindo avaliar continuamente os resultados da intervenção”.
O Estreito do Melão é considerado o ponto mais vulnerável do Parque Estadual. O ecossistema reúne remanescentes de Mata Atlântica, manguezais, restingas e territórios caiçaras.